Portugal tem condições para liderar na mobilidade, diz CEiiA

  • Fatima Ferrão
  • 18 Novembro 2021

O país conta com uma cadeia de valor única no mundo e com um ecossistema de inovação que o coloca na ‘pole position’ na mobilidade de emissões reduzidas.

Portugal é o maior produtor de bicicletas da Europa. Um facto desconhecido por muitos portugueses, e que não se reflete na utilização da mobilidade e na gestão e organização, muitas vezes polémica, de algumas ciclovias municipais. No entanto, na opinião de Paulo Humanes, o país “tem condições para liderar na mobilidade de emissões reduzidas”. Para o diretor de mobilidade do CEiiA, centro de engenharia e desenvolvimento, Portugal pode tirar partido da sua cadeia de valor única, e de um ecossistema de inovação que junta entidades públicas e privadas. O responsável foi um dos convidados do painel ‘Mobility as a Service’, integrado nos trabalhos do segundo dia do Portugal Smart Cities Summit.

Habituado a funcionar como facilitador entre diferentes operadores e entidades ligadas ao tema da mobilidade e empresas de tecnologia, o CEiiA aponta as parcerias e a otimização de um ecossistema composto por todos estes players, como a única solução para serviços mais sustentáveis. Rotas otimizadas com a ajuda da tecnologia, frotas de distribuição mais sustentáveis graças a sistemas de geo-localização integrados com ferramentas de inteligência artificial, transportes públicos com menor pegada carbónica e que respondam às necessidades reais dos utilizadores, só serão possíveis com parcerias entre todos os agentes de mobilidade.

Esta colaboração, admite Paulo Humanes, “será a concretização do conceito de ‘Mobility as a Serviece’, que significa ter o veículo certo, no momento certo, para o tipo de viagem que vamos fazer”. Uma opinião partilhada por Manuel Pina, da Uber. “As parcerias e a colaboração são a única resposta para estes desafios”.

A concretização do conceito de ‘Mobility as a Serviece’ significa ter o veículo certo, no momento certo, para o tipo de viagem que vamos fazer.

Paulo Humanes

Diretor de mobilidade do CEiiA

Convidado para o mesmo painel, João Ricardo Moreira, acrescenta: “o 5G será a tecnologia que vai materializar e concretizar muitas das ideias e expectativas que alimentamos há vários anos”. Mas, para o administrador da NOS, o desafio dos dados, e a informação que deles se retirar, será determinante e o fator verdadeiramente diferenciador entre países. “Responder a estes desafios, com sentido de urgência, é obrigatório”, reforça. Na sua opinião, Portugal tem uma oportunidade de curto prazo e precisa de tomar decisões rápidas e certeiras.

Descarbonização altera comportamentos

A consciência crescente de que a qualidade do ar nas cidades é fundamental para que os cidadãos possam ter melhor qualidade de vida está a provocar uma onda de alteração de comportamentos. A utilização de bicicletas para as deslocações nos centros urbanos já estava a crescer antes da pandemia, e cresceu mais ainda durante os períodos de confinamento. Atualmente, a tendência mantém-se com o regresso das pessoas aos escritórios, mas esta forma de mobilidade continua a não ser, por si só, uma solução abrangente. “É preciso integrar esta forma de mobilidade com os transportes públicos, e também com o automóvel, mesmo que em sistema de partilha”, defende Faustino Gomes, responsável dos Transportes Metropolitanos de Lisboa, entidade que gere 1900 autocarros. “A micromobilidade pode trazer pessoas para os transportes públicos, desde que o ecossistema de mobilidade como serviço seja completo e funcional”.

Por outro lado, a descarbonização dos transportes é um tema essencial na estratégia de mobilidade sustentável das cidades. O tema, em debate esta tarde na Smart Cities Summit, reuniu um conjunto de especialistas do setor dos transportes, um investigador e uma tecnológica, unânimes na opinião de que o uso excessivo do automóvel continua a ser um enorme obstáculo às metas de descarbonização nos centros urbanos.

O automóvel continua a ter um peso de 60% nas deslocações em Lisboa, quando os transportes públicos representam apenas 11%.

Paulo Ribeiro

Professor da Universidade do Minho

Em Lisboa, diz Paulo Ribeiro, da Universidade do Minho, “o automóvel continua a ter um peso de 60% nas deslocações, quando os transportes públicos representam apenas 11%”. É preciso mudar comportamentos e mentalidades, mas também oferecer alternativas aos cidadãos porque faltam transportes atrativos e uma frota menos poluente. “É preciso investir mais no transporte público e levar as pessoas a utilizá-lo”, reforça.

Para Paulo Marques, da Caetano Bus, as tecnologias que permitem oferecer opções alternativas de transporte, menos poluentes, já existem, mas ainda há poucos operadores a investir na sua adoção. Além das alternativas elétricas, mais divulgadas, o responsável da Caetano Bus aponta os veículos a hidrogénio como uma solução interessante. “Um autocarro a hidrogénio pode ser carregado em poucos minutos (entre 9 e 15) e podem ser usados para deslocações fora das cidades”, explica. Um ponto a favor face à opção elétrica, mais adequada para a mobilidade urbana.

Novo Bauhaus é tema central para a economia europeia

Em tempo de recuperação pós-pandemia está criada a oportunidade de dar um passo atrás e “repensar a forma como vivemos, consumimos, nos deslocamos ou aquecemos as nossas casas”. A opinião é de Elisa Ferreira, Comissária Europeia, que participou esta manhã no Smart Cities Summit através de uma mensagem gravada. “As smart cities permitem fazer estas mudanças”, reforçou.

Trata-se de centrar as iniciativas nas pessoas e mostrar de que forma as suas vidas podem ser melhores através da inovação sustentável.

Elisa Ferreira

Comissária europeia responsável pela pasta da Coesão e Reformas

Iniciativa da UE, o ‘Novo Bauhaus Europeu’ procura aliviar os constrangimentos e limitações, impostos pelo Green Deal que, diz a comissária, “tendemos a achar que são apenas negativos”. Mas porque não inverter esta lógica e transformar as dificuldades em oportunidades? “Trata-se de centrar as iniciativas nas pessoas e mostrar de que forma as suas vidas podem ser melhores através da inovação sustentável”, acrescenta Elisa Ferreira.

O objetivo passa por garantir que todos os projetos são bonitos, sustentáveis e inclusivos, e por começar um movimento que junta arquitetos, engenheiros, designers, etc, na Europa e não só. “A co-criação é o princípio base do novo Bauhaus”. O projeto conta com 85 milhões de euros de orçamento para o biénio 2021-2022.

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