Investimento recorde de 100 mil milhões na Europa cria 98 unicórnios num só ano

  • Joana Abrantes Gomes
  • 7 Dezembro 2021

Graças a um investimento que ultrapassará os 100 mil milhões de dólares, há mais 98 unicórnios na Europa face a 2020. O valor total do ecossistema tecnológico europeu ultrapassa agora os três biliões.

O ecossistema da tecnologia europeia está a crescer mais depressa do que nunca. Pela primeira vez, a Europa prepara-se para ultrapassar um recorde de 100 mil milhões de dólares (cerca de 88 mil milhões de euros) investidos num único ano na indústria tecnológica, aumentando para 321 o mero de empresas com estatuto de unicórnio, mais 98 do que em 2020, revela o estudo “Estado da Tecnologia Europeia 2021”, publicado pelo fundo de capital de risco Atomico.

Este investimento representa um crescimento de cerca do triplo registado no ano passado e de 10 vezes face a 2015, altura em que este relatório foi lançado pela primeira vez, sendo que a totalidade de empresas do setor tecnológico, avaliadas em mais de mil milhões de dólares na Europa, aumentou de 223 no ano passado para 321 em 2021. O valor total do ecossistema tecnológico europeu ultrapassa agora os três biliões de dólares.

O estudo revela que as grandes rondas de financiamento são, atualmente, a norma na Europa, com o crescimento do investimento em 2021 a ser largamente impulsionado por valores superiores a 250 milhões de dólares (cerca de 220 milhões de euros). Em média, o valor é dez vezes superior face a 2020 e representa 40% do capital total investido na região. Contudo, o relatório ressalva que estas grandes rondas tendem a ser um indicador de atraso, dado que normalmente alimentam o crescimento para empresas em fases mais avançadas.

Já as rondas de financiamento inferiores a cinco milhões de dólares (cerca de quatro milhões de euros), para as empresas europeias em fase inicial (fundadas nos últimos cinco anos), representaram um montante relativamente semelhante ao do ano passado. Mas, como o valor total do financiamento disparou, passaram a representar apenas 5% do financiamento global (contra 12% em 2020).

Porém, o estudo denota que o financiamento de startups na Europa está em pé de igualdade com os Estados Unidos, representando 33% de todo o capital investido globalmente em rondas até cinco milhões de dólares, em comparação com 35% nos EUA. Neste momento, a Europa conta com o seu pipeline mais forte neste segmento.

Entre as cidades com uma população superior a um milhão de habitantes, a cidade de Munique, na Alemanha, destaca-se como tendo a mais alta densidade global de unicórnios, ranking no qual Lisboa surge no 13.º lugar. Estocolmo, na Suécia, é a primeira entre as cidades de tamanho médio (entre 500 mil e um milhão de habitantes), com 19 empresas de valor superior a mil milhões de dólares por milhão de habitantes. Mas o destaque maior vai para Cambridge, no Reino Unido, já que, embora pequena em tamanho, produziu um grande número de unicórnios, devido à elevada concentração de talento.

As empresas com estatuto de decacórnio (avaliadas em mais de 10 mil milhões de dólares) duplicaram e são agora um total de 26 na Europa, sendo que a holandesa Adyen está prestes a tornar-se a primeira tecnológica europeia apoiada por capital de risco e fundada após 2000 a atingir uma avaliação de 100 mil milhões de dólares, o que lhe concederá o estatuto de hectocórnio. O futuro dos decacórnios na região adivinha-se promissor: há 30 empresas atualmente avaliadas entre cinco e 10 mil milhões de dólares, e outras 54 avaliadas entre dois e cinco mil milhões de dólares.

11% do financiamento global de 2021 para tecnológicas com objetivos sustentáveis

O estudo do Atomico mostra também que a expectativa de investimento contínuo nas empresas “Planeta Positivo” é uma tendência de longa data. Só nos primeiros nove meses do ano foram investidos 10 mil milhões de dólares em empresas tecnológicas europeias alinhadas com este tema, sobretudo na área da energia limpa e do clima, um investimento que aumentou perto de seis vezes o nível registado em 2017.

Analisando a afetação de capital a empresas com objetivos mais amplamente definidos, o investimento cresceu para mais de 12 mil milhões de dólares, um crescimento de 3,8 vezes face a 2017.

Acesso a financiamento e talento são os principais desafios para fundadores de tecnológicas na Europa

No que diz respeito ao financiamento, os mais queixosos são os países do sul da Europa. Portugal destaca-se com 54% dos inquiridos do estudo a considerar o financiamento como um desafio especial para a tecnologia europeia no próximo ano, enquanto 20% dos italianos e 29% dos espanhóis concordam que a angariação de fundos ainda é um desafio.

Ainda em Espanha, 59% dos fundadores indicam que têm maior dificuldade em adquirir novo talento do que antigamente, o que marca a terceira maior pontuação neste segmento, ficando apenas atrás do Reino Unido (61%) e dos Países Baixos (60%).

Os italianos, por seu lado, optaram por adquirir experiência no estrangeiro. Aliás, a Itália tem a maior parcela de fundadores ‘migrantes’, sendo que 64% dos fundadores trabalharam previamente para uma empresa valorizada em mais de 881 milhões de euros fora do país. A Suécia e a Alemanha são os países com o índice mais reduzido nesta categoria.

Portugal e Irlanda destacam-se na Europa pela igualdade de género

As mulheres e minorias étnicas continuam a sentir maior dificuldade na angariação de investimento em comparação com os homens brancos. Apesar das evidências de que as equipas mistas e diversificadas apresentam um melhor desempenho, as mulheres angariaram apenas 9% do capital investido em 2021.

Com base numa análise da Extend Ventures, que parte de uma amostra de 4.684 empresas de tecnologia sediadas na Europa que angariaram mais de um milhão de euros em financiamento total desde 1 de janeiro de 2020, apenas 0,7% do capital total foi angariado por fundadoras negras, 1,1% por fundadores homens negros e 22,7% por fundadoras brancas.

Embora a diversidade de género nas equipas criadoras permaneça baixa em toda a região, existem algumas variações entre os países. Portugal tem a taxa mais baixa de equipas fundadoras exclusivamente masculinas, que representam 75%, enquanto a Irlanda tem a taxa mais alta de equipas fundadoras exclusivamente femininas, com 10%.

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