Não será o Brexit mas a tecnologia que vai mudar a indústria dos serviços financeiros na City, diz Vincent Keavenypremium

"Não tenho dúvida de que as empresas portuguesas vão continuar a recorrer a Londres porque oferece uma porta de entrada para o mercado de capitais mundial", diz o recém-empossado Lord Mayor da City.

"O Brexit não será o grande acontecimento que vai mudar a indústria dos serviços financeiros na City", garante, em entrevista ao ECO, o Lord Mayor da City of London. Essa mudança decorrerá da tecnologia, explica o recém-empossado Vincent Keaveny. "Estamos a assistir à criação de um número significativo", "dezenas de milhares", de novos postos de trabalho na City "no setor dos serviços financeiros na área tecnológica", frisa.

Menos de um mês após assumir funções como o 693.º Lord Mayor, um cargo sem funções executivas que serve essencialmente como embaixador do centro financeiro londrino, Vincent Keaveny passou por Lisboa -- porque muitos bancos e instituições financeiras portuguesas escolheram Londres para levantar dinheiro nos mercados de capitais internacionais, mas também por razões pessoais -- e falou com o ECO sobre os desafios que o Brexit coloca à City, que quer continuar a manter o estatuto de principal praça financeira mundial. A City é a grande responsável por o Reino Unido ser líder mundial na exportação de serviços financeiros, à frente dos Estados Unidos e Suíça, movimentando anualmente 64.000 milhões de libras (75.600 milhões de euros).

Vincent Keaveny lamenta a perceção que se criou de que o Brexit provocou uma sangria de recursos humanos para outros centros financeiros europeus, como Paris, Frankfurt ou Amesterdão, e garante que muitos dos postos de trabalho criados noutras praças não o foram às custas da City, que até acabou por assistir a uma entrada de pessoas, tendo em conta que muitas empresas se estabeleceram pela primeira vez em Londres para ter acesso direto a este mercado. O Lord Mayor garante que a City terá perdido sete a oito mil trabalhadores.

"Não tenho a certeza de que tenhamos assistido à saída de milhares de pessoas. Neste momento é muito difícil de identificar o que é atribuível à pandemia e o que poderá ser atribuído a quaisquer mudanças regulatórias ou legais", diz o 693.º Lord Mayor da City de Londres. Um cargo eleito anualmente.

O Lord Mayor da City of London, bairro londrino também conhecido por Square Mile, por ter apenas uma milha quadrada de área -- que não deve ser confundido com o presidente da Câmara Municipal, o Mayor de Londres, Sadiq Khan --, defende ainda a rápida conclusão das negociações entre a União Europeia e o Reino Unido e recorda que a "instabilidade política não é boa para ninguém". Isto depois de o primeiro-ministro ter ameaçado acionar o artigo 16 do protocolo -- uma espécie de travão de emergência que permite a ambos os lados implementar medidas de salvaguarda unilateralmente. Boris Johnson considera que o Protocolo da Irlanda do Norte não está a funcionar como deveria. Este protocolo permite que a Irlanda do Norte se mantenha no mercado, evitando que uma fronteira física com a República da Irlanda que é um Estado membro da União Europeia. "Como alguém que viveu na Irlanda, percebo a questão política. Creio que é algo que exige pragmatismo de ambos os lados", diz. Na City, "gostaríamos mesmo de ver uma resolução pragmática e sensata destas questões o mais depressa possível porque, francamente, a alternativa não seria boa para nenhum dos lados", conclui.

A Comissão Europeia recusou conceder ao Reino Unido o estatuto de equivalência para o comércio de derivados financeiros. Mas concedeu autorização temporária, até junho de 2022. O que vão fazer depois, caso não se chegue a acordo?

Estamos esperançados de que o memorando de entendimento sobre os serviços financeiros, sobre o qual em grande parte já existe acordo, será finalizado e publicado em breve. Entretanto, a City tem continuado a fazer o que melhor sabe: prosseguir com a situação tal como está o terreno. Ajustámo-nos amplamente à situação que existe presentemente. A City está muito bem, com muita atividade, a indústria dos serviços financeiros do Reino Unido ainda continua a prestar serviços aos seus clientes tanto no Reino Unido como em todo o mundo. Em muitos casos, o Brexit exigiu adaptações, mas já foram amplamente implementadas e estamos a continuar com a agenda de negócios pós-Brexit.

Em que ponto estão as negociações? O que está a ser discutido agora em concreto?

Não estou diretamente envolvido nas negociações, mas o ponto de vista da City é que gostaríamos que o memorando de entendimento fosse concluído o mais depressa possível. Mas, em última análise, esta é uma discussão política entra a UE e o Reino Unido e nós, na City, não estamos em posição de determinar o resultado dessas negociações políticas. Mas, claro, gostaríamos muito que o memorando de entendimento fosse aplicado assim que possível.

Disse que a City está bem. Mas fala-se em perdas de milhões de euros e de milhares de postos de trabalho com a saída de instituições financeiras que optam por outras praças, como Paris ou Frankfurt. Pode facultar valores exatos dessas perdas?

Muitas empresas tiveram de agir e estabelecer novas filiais na Europa para continuar a servir os seus clientes em áreas em cumprimento com as regulamentações europeias. Isso aconteceu e, em alguns casos, implicou a deslocação de pessoas, poucas, de Londres para esses novos destinos. Na maior parte dos casos, realmente foram criados postos de trabalho nesses novos pontos e não necessariamente às custas de Londres. Em termos globais, pensamos que a perda de postos de trabalho na sequência dos ajustamentos necessários ao pós-Brexit foi de pouco menos de dez mil, em torno dos sete a oito mil. Antes da pandemia, tínhamos 445 mil pessoas a trabalhar na City, no setor britânico dos serviços financeiros. Estamos a falar de um número muito muito pequeno de postos de trabalho diretamente afetados pelo Brexit. Creio que, infelizmente, globalmente não é essa a perceção. Provavelmente foram criados mais novos postos de trabalho noutros locais.

Em termos globais, pensamos que a perda de postos de trabalho na sequência dos ajustamentos necessários ao pós-Brexit foi um pouco menos de dez mil. Em torno dos sete a oito mil.

Também assistimos à entrada de pessoas porque um conjunto de empresas financeiras europeias estabeleceram operações em Londres pela primeira vez, solicitando autorização para aceder diretamente ao Reino Unido. E muitas, pela primeira vez, estabeleceram escritórios em Londres. Também estão a ser criados postos de trabalho graças à entrada de empresas europeias de serviços financeiros.

O último ponto que também gostaria de frisar em relação aos postos de trabalho tem a ver com a tecnologia, que é dos principais motores das mudanças de longo prazo que já estamos a assistir no setor dos serviços financeiros. O Brexit não será o grande acontecimento que vai mudar a indústria dos serviços financeiros na City, em Londres ou no Reino Unido. Será o impacto que a tecnologia tem em tudo o que fazemos como clientes, consumidores, empresas. Estamos a assistir à criação de um número significativo de postos de trabalho no setor tecnológico no Reino Unido, tal como estão a ser criados em Portugal. Dezenas de milhares de novos postos de trabalho chegaram à City ao setor dos serviços financeiros na área tecnológica.

O Brexit tornou mais difícil reter os talentos de que efetivamente necessitam na City, tendo em conta que muitos dos postos de trabalho eram assegurados por europeus que acabaram por sair com o Brexit?

Não tenho a certeza de que tenhamos assistido à saída de milhares de pessoas. Neste momento é muito difícil de identificar o que é atribuível à pandemia e o que poderá ser atribuído a quaisquer mudanças regulatórias ou legais. Na realidade, os europeus no Reino Unido podem registar-se ao abrigo de vários estatutos, um esquema bastante interessante, e até a embaixada portuguesa em Londres ficou espantada com o número de portugueses que se registaram. Não tinham ideia de que havia tantos portugueses a viver no Reino Unido, tal como se veio a revelar em virtude deste registo. Não creio que tenha havia uma saída maciça de pessoas devido ao Brexit. A pandemia talvez tenha tido um impacto, mas teve impactos de múltiplas formas na forma como as pessoas trabalham. Há muitos cidadãos britânicos a viver aqui em Portugal a trabalhar efetivamente em Londres, sentados à frente do computador como se estivessem nos seus escritórios em Londres. Esse é um outro grande conjunto de mudanças que está relacionado com a pandemia e que afetou a forma como as pessoas trabalham que também teremos de trabalhar. A razão pela qual estou otimista é porque todos os fatores criam uma espécie de cluster: a língua, o fuso horário, o facto de ter todas as aptidões no mesmo local, uma grande profundidade em termos de contabilidade, seguros, advocacia, banca tudo com grande proximidade na City, para além do estado de direito, o nível de confiança na lei e nos tribunais britânicos sustenta muitos dos negócios que são feitos. E tem todo o dinheiro, o capital. Tudo em conjunto é muito coeso.

É difícil encontrar esse conjunto de fatores noutras praças financeiras?

Totalmente.

Nem em Frankfurt, por exemplo?

Leva muito tempo a criar estas condições, se é que alguma vez seja possível. É um grande desafio conseguir juntar todas.

"Não creio que tenha havia uma saída maciça de pessoas devido ao Brexit. A pandemia talvez tenha tido um impacto", diz Vincent KeavenyD.R. 3 dezembro, 2021

Está confiante que se as coisas correrem mal nas negociações com a Comissão Europeias -- o Reino Unido não obtenha o chamado estatuto de equivalência para o comércio de derivados financeiros -- essas condições manter-se-ão para que a City mantenha o seu estatuto de uma das praças financeiras mais atrativas?

Não só é o sítio onde investir, como o sítio onde obter financiamento e acesso ao capital. Não tenho dúvida de que as empresas portuguesas vão continuar a recorrer a Londres, porque oferece uma porta de entrada para o mercado de capitais mundial, que não acredito que outros centros financeiros na Europa poderão oferecer com a mesma magnitude, durante muito muitos anos. Por isso, uma grande empresa portuguesa que precise de lançar uma emissão obrigacionista ou de obter um grande empréstimo nos mercados de capitais internacionais ainda o faz através de Londres, porque é a escolha natural. As alternativas seriam ir para Nova Iorque ou Singapura, mas não os vejo fazerem isso com a mesma prontidão como ir a Londres, até tendo em conta os fortes laços que existem entre os dois países.

Mas porque não ir a Paris ou Frankfurt?

Porque não têm a mesma escala ou o mesmo acesso aos mercados internacionais tal como se tem em Londres. É essa a grande diferença.

Já mencionou a pandemia, acredita que ajudou a mascarar alguns dos efeitos nefastos do Brexit sobre a City?

Em muitas áreas da vida, e não apenas a financeira, a pandemia mudou as coisas. Não relacionaria o Brexit e a pandemia de forma alguma. Tal como disse, a pandemia complicou a forma como vemos as coisas, tornou mais difícil de perceber onde é que as pessoas estão a trabalhar, a forma como trabalham, todos esses fatores que não compreendemos completamente e que provavelmente levará um par de anos até percebermos tudo isso. Há aqui uma questão mais vasta. A pandemia mudou verdadeiramente as coisas. Não acredito que as pessoas vão regressar ao escritório cinco vezes por semana. Essa é uma mudança permanente que estava a surgir e que acabaria por se instaurar, mas em cerca de 12 a 18 meses fizemos uma mudança que seria de esperar em dez a 15 anos. Estas são mudanças mais vastas que apenas estamos a começar a perceber.

A pandemia ajudou o Reino Unido porque desviou as atenções da Comissão Europeia das negociações do Brexit -- havia questões mais prementes -- dando mais tempo a resolução dos diferentes dossiês?

Creio que não. Todo o mundo financeiro, os bancos, estavam a trabalhar com um calendário muito apertado. Os bancos tinham de assumir que um Brexit sem acordo era uma forte possibilidade no final de 2018 para 2019. Perante o tórrido ambiente político britânico nas eleições legislativas de 2018, o mundo financeiro e os bancos no Reino Unido estavam a trabalhar em contra relógio, de forma a estarem preparados para o pior cenário. E tudo isso aconteceu antes da pandemia. A pandemia apenas complicou as coisas. Inicialmente abrandou as coisas, mas depois acabaram por acelerar. Não creio que a pandemia tenha sido um travão. Se recuarmos dois anos a grande questão era o risco de um hard Brexit.

Parece muito otimista tendo em conta que, há umas semanas, o primeiro-ministro Boris Johnson ameaçou acionar o artigo 16 do Protocolo da Irlanda do Norte. Acredita que esta arma será usada ou trata-se apenas de retórica política?

Está no Acordo de Comércio e Cooperação, não pode ser ignorado e já vimos ser superficialmente aflorado pela Comissão Europeia em dezembro do ano passado. Foi imediatamente retirado, mas foi evocado. É algo que não pode ser ignorado enquanto possibilidade. Estou certo que a City gostaria que as questões em torno do Protocolo da Irlanda do Norte fossem resolvidas de forma pragmática. Como alguém que viveu na Irlanda, percebo a questão política em torno da questão. Creio que é algo que exige pragmatismo de ambos os lados.

Mas acredita que as negociações vão chegar a bom porto?

Não estou presente nas negociações e é muito difícil quando não se está sentado à mesa das negociações… Estou certo que todos são pragmáticos e querem alcançar um resultado satisfatório e é isso que esperamos na City.

Este tipo de instabilidade política afeta a atividade da City, ou conseguem estar acima disso?

A instabilidade política não é boa para ninguém. Do ponto de vista dos serviços financeiros não é bom para os mercados, afeta a Europa, o Reino Unido e os mercados e isso não é bom para ninguém. E por isso gostaríamos mesmo de ver uma resolução pragmática e sensata destas questões o mais depressa possível porque, francamente, a alternativa não seria boa para nenhum dos lados.

Gostaríamos mesmo de ver uma resolução pragmática e sensata destas questões o mais depressa possível porque, francamente, a alternativa não seria boa para nenhum dos lados.

Como justifica a sua passagem por Lisboa? Somos assim tão relevantes para a City, tendo em conta a nossa pequena dimensão?

Estou em Lisboa por duas razões. Uma é muito pessoal. Como advogado, fiz muitos trabalhos em Portugal ao longo dos anos. Trabalhei com muitos bancos portugueses e empresas portuguesas nas suas transações no mercado de capitais. É um país que profissionalmente foi muito bom para mim e tratou-me bem. Tenho muitos amigos na comunidade legal portuguesa e nos bancos portugueses. Queria muito visitar Portugal enquanto Lord Mayor devido a essas ligações pessoais. Mas também porque Portugal, apesar de não ser nem de perto uma das maiores economias europeias como diz, tem uma relação muito importante e duradoura com o Reino Unido. É o aliado mais antigo e o tratado internacional sobrevivente mais antigo. Há todas essas razões históricas que são reforçadas pelas relações atuais que incluem grandes ligações ao mercado financeiro. A razão pela qual estou aqui é porque muitos bancos e instituições financeiras portuguesas vieram a Londres e usaram operações regidas pela lei britânica para levantar dinheiro nos mercados de capitais internacionais.

Está a analisar alguma transação em particular agora?

Enquanto Lord Mayor, simplesmente não tenho tempo para fazer qualquer trabalho legal. Tive de pôr de lado a vertente legal este ano.

Não me estava a referir a si em particular, mas se o seu papel de Lord Mayor estaria a promover alguma operação de um banco ou de uma empresa, por exemplo?

Não estou a analisar nenhuma operação em particular. Estou apenas a falar do setor em geral, que é forte e há muitas coisas boas a acontecer entre Lisboa e Londres no mundo financeiro.

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