Stressados e “desligados” da empresa e dos líderes. Um retrato dos trabalhadores da linha da frente

Os níveis de stress são altos, a desconexão com a empresa é sentida pela maioria e a comunicação não é eficaz. Estes problemas agigantam-se entre os profissionais da frontline em cargos de gestão.

Se, no ano passado, os trabalhadores da linha da frente — da saúde, passando pelo retalho ou fábricas — já lidaram com altos níveis de stress e ansiedade, muitas vezes prejudicando a sua saúde mental, este ano as previsões ao nível do bem-estar não são melhores: 58% antecipa os mesmos níveis de stress ou até mais altos em 2022. E em termos de criação de cultura empresarial e comunicação o cenário não é muito melhor, sendo o sentimento de descontentamento transversal à estrutura. 68% dos profissionais na linha da frente em cargos de gestão sente-se desconectado da sua organização e liderança, revela a Microsoft.

“Com a pandemia a persistir, níveis de stress elevados e um recorde de 4,5 milhões de americanos a abandonarem os seus empregos em novembro, é evidente que os trabalhadores se encontram num ponto de inflexão”, lê-se no relatório da Microsoft “Technology Can Help Unlock a New Future for Frontline Workers“, divulgado esta quarta-feira.

“No nosso inquérito, os trabalhadores da linha da frente a nível mundial citaram as cinco principais razões para considerarem uma mudança de emprego: ganhar mais dinheiro, ter um melhor equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, não receber aumentos salariais, trabalhar para uma empresa com melhores benefícios e procurar uma maior flexibilidade na forma como trabalham”, revelam as conclusões dos inquéritos aos profissionais “que foram obrigados a trabalhar presencialmente, no local de trabalho, sem possibilidade de trabalho remoto”.

Quando se trata dos gestores da linha da frente, os dados sugerem que estes profissionais estão num cenário de maior pressão no trabalho. São os que se sentem mais desligados da organização para a qual trabalham e também os que apontam maiores lacunas ao nível da comunicação, apontada pela maioria dos gestores portugueses como o principal desafio das lideranças no pós-pandemia.

A pandemia tem dois efeitos nos colaboradores. Por um lado, a pandemia da Covid-19 fortaleceu os laços entre os colegas de trabalho. Entre os trabalhadores que não ocupam cargos de gestão, 56% admite sentir-se “muito ligado aos colegas de trabalho”, e o valor dispara entre aqueles que ocupam posições de gestão (68%), que estão agora mais ligados aos seus pares.

Fonte: MicrosoftMicrosoft

Contudo, nem todas as relações laborais saíram reforçadas. As ligações à liderança e até à cultura empresarial são agora mais fracas: 56% dos trabalhadores não-gestores da linha da frente afirmam que os seus líderes não dão prioridade à construção de uma cultura de organização. E a percentagem aumenta para 68% entre aqueles que ocupam cargos de gestão na frontline, como chefes de departamento, gerentes de loja ou supervisores em fábricas, por exemplo.

Além disso, a comunicação não tem sido muito eficaz. Cerca de 58% dos trabalhadores não gestores dizem que as mensagens da liderança não chegam até eles e, mais uma vez, a percentagem piora quando olhamos para a opinião dos gestores da linha da frente, com 69% a queixar-se do mesmo, considerando que a comunicação dos seus superiores não é eficaz.

3.º ano de pandemia. Os mesmos níveis de stress?

À medida que as empresas tentam equilibrar as necessidades do negócio com as dos funcionários, a investigação mostra que há uma oportunidade de as companhias se concentrarem mais no bem-estar dos seus trabalhadores da linha da frente. Metade deles (dos que não têm cargos de gestão) admite que não se sente valorizado como profissional, e 60% desejava mesmo que a companhia assumisse um papal mais ativo no combate à exaustão física dos colaboradores e no apoio da saúde mental (57%).

E, apesar de embarcarmos já no terceiro ano da pandemia, 58% dos trabalhadores da linha da frente acreditam que o stress laboral permanecerá o mesmo ou piorará no próximo ano. Para além dos desafios económicos, estes profissionais destacam a carga de trabalho (45%), os baixos salários (44%), os longos dias de trabalho (41%), a gestão das necessidades dos clientes (35%) e os protocolos Covid-19 (33%) como as principais razões para o seu stress relacionado com o trabalho.

“A pandemia criou uma tensão extraordinária sobre os indivíduos na linha da frente. Para além dos efeitos muito reais da Covid-19 sobre a vida das pessoas e meios de subsistência, há a carga administrativa de base, que têm de suportar. E a força de trabalho está a diminuir, por isso há cada vez mais trabalho a ser colocado em cima deles. Isto criou uma quantidade extraordinária de pressão e stress”, afirma David Rhew, global chief medical officer da Microsoft.

Os funcionários da frontline no Japão, Reino Unido e Alemanha, assim como os que operam nas indústrias transformadoras, automóvel/transporte e de energia, são os mais preocupados com o stress no trabalho, que permanecerá o mesmo ou ficará pior. Na ponta oposta está o México, com 39% dos colaboradores a mostrarem-se preocupados com o stress laboral, seguido da Índia (41%) e do Brasil (46%).

Já no que toca à tipo de atividade, as que demonstram uma preocupação menor — mas ainda assim alta — são as telecomunicações (51%), os serviços financeiros e os media, entretenimento e comunicação (ambas com 55%).

Questionados sobre o que poderia reduzir o stress na frontline, os profissionais apontam o aumento salarial, os dias férias e a melhoria da tecnologia como as três principais soluções, com 64%, 50% e 46, respetivamente.

Recomendações

A pressão que a realidade económica e pandémica está a colocar nos ombros destes profissionais faz com que seja urgente que as lideranças tomem medidas. Com base na investigação realizada, estas são as três áreas em que as empresas devem concentrar-se primeiramente, segundo a Microsoft:

  1. Reconstruir a cultura: “A cultura do local de trabalho é construída sobre uma forte ligação à missão e ao objetivo da empresa, transparência, comunicação, reconhecimento e relações no local de trabalho. Os nossos dados mostram que muitos trabalhadores da linha da frente têm construído relações fundacionais entre si, mas mais pode ser feito para fomentar a ligação e cultura de topo, especialmente para gestores. Os líderes devem arranjar tempo para se ligarem aos trabalhadores e gestores da linha da frente de forma proativa.”
  2. Capacitar os trabalhadores da linha da frente com a mais recente tecnologia: “Desde o onboarding até à automatização de tarefas e gestão de compromissos, as empresas podem aliviar os encargos diários, fornecendo as ferramentas tecnológicas adequadas. Capacitar os trabalhadores da linha da frente com a tecnologia certa não só torna o seu trabalho mais fácil como permite uma comunicação mais eficaz e segura.”
  3. Priorizar e modernizar a formação: “Os trabalhadores da frontline estão ansiosos por receber a formação de que necessitam para adotar novas tecnologias que irão ajudá-los a fazer o seu melhor trabalho. Eles precisam de líderes para dar prioridade e criar espaço para a aprendizagem à escala.”

O estudo da Microsoft, “Technology Can Help Unlock a New Future for Frontline Workers”, inquiriu 9.600 trabalhadores da linha da frente a tempo inteiro ou tempo parcial em nove indústria e oito mercados a nível mundial (Austrália, Brasil, Alemanha, Índia, Japão, México, Reino Unido e Estados Unidos), entre 28 de outubro e 19 de novembro de 2021.

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