Reuniões e sanções. Os próximos passos dos aliados para responder à invasão russa da Ucrânia

Líderes da UE e da NATO vão reunir hoje e amanhã para aprovar medidas contra a Rússia. O dia trouxe uma nova ronda, mais pesada, de sanções. Biden diz que são aplicadas por metade da economia global.

A Europa acordou esta quinta-feira com a terrível notícia do início de um ataque em larga escala da Rússia contra a Ucrânia e a invasão do território pelas tropas de Putin. O dia 24 de fevereiro de 2022 ficará na história como o início daquela que, nas palavras de Boris Johnson, será a maior guerra no Velho Continente desde 1945. Das várias capitais europeias e de Washington chegaram palavras de condenação e a promessa de mais sanções. Saiba quais os próximos passos dos aliados.

Primeiro aquilo que não vai acontecer: forças da NATO na Ucrânia, como Volodymyr Zelensky, o presidente do país, chegou a apelar. “Que fique claro que a NATO não vai intervir na Ucrânia, apenas poderá levar a cabo de missões de dissuasão em países da NATO que fazem fronteira com a Ucrânia e Portugal vai participar nessas ações”, afirmou o primeiro-ministro, António Costa, esta quinta-feira de manhã. A mesma mensagem foi deixada, horas mais tarde, pelo Presidente norte-americano no seu discurso: “As nossas forças não vão para a Europa para lutar na Ucrânia, mas para defender os nossos aliados da Nato”.

Logo pela manhã aconteceu uma reunião de emergência da Aliança Atlântica. Durante a reunião, vários países, incluindo os do Báltico, como a Estónia, Letónia e Lituânia, invocaram o artigo 4º do Tratado da NATO, que impõe uma consulta urgente entre todos.

"As Partes consultar-se-ão sempre que, na opinião de qualquer delas, estiver ameaçada a integridade territorial, a independência política ou a segurança de uma das Partes.”

Artigo 4.º do Tratado da Aliança Atlântica

Por ora, ficou decidido que os aliados vão reforçar as forças terrestres, aéreas e navais na fronteira leste da NATO, junto à Ucrânia e à Rússia. A Aliança Atlântica tem atualmente cerca de cinco mil tropas na região, presença que foi alargada nos últimos meses. O primeiro-ministro português já manifestou a disponibilidade para a integrar esse reforço, até porque Portugal integra este ano as forças de reação rápida.

Após o encontro, o secretário-geral, Jens Stoltenberg, deixou palavras graves: “A paz no nosso continente foi abalada. Temos agora uma guerra na Europa, numa escala e de um tipo que pensávamos pertencer à história.” Stoltenberg apelou ainda à realização de uma cimeira de líderes na sexta-feira, para decidir as próximas ações.

Sanções, sanções, sanções

Posta de parte a participação militar, o ataque da União Europeia passa pela aplicação de sanções sem precedentes, em cima das que já vinham a ser aplicadas desde 2014, quando a Rússia anexou a Crimeia.

Na quarta-feira, Bruxelas já tinha visado três bancos e o círculo próximo de Vladimir Putin, com o congelamento de ativos e a interdição de entrada no espaço da UE de membros do Governo (como o ministro da defesa Sergei Shoigu) e vários generais.

A Casa Branca também avançou com sanções do mesmo género, incluindo sobre o fundo soberano russo, mas menos abrangentes. Assim como o Reino Unido, numa versão ainda mais restrita, direcionada sobretudo aos bancos.

União Europeia e Washington proibiram também a transação de obrigações russas no mercado secundário (os empréstimos diretos já estavam restritos), o que implicará custos mais elevados para o refinanciamento da dívida pública.

Os aliados não quiseram gastar as armas todas, esperando para ver se a invasão se limitaria às repúblicas separatistas no leste da Ucrânia. Com o ataque em larga escala, o cerco vai apertar-se. A cimeira de líderes da União Europeia, marcada para as 19h, terá sobre a mesa um reforço das sanções.

Na calha está a interdição dos mercados financeiros europeus aos bancos russos, impedir a troca de rublos para dólares e o congelamento de mais ativos, tendo como alvo “interesses do Kremlin”. Prevista está também a interdição de exportação de produtos de alta tecnologia para a Rússia, como semicondutores, atingindo setores considerados críticos.

“Com este pacote, visaremos setores estratégicos da economia russa, bloqueando o seu acesso a tecnologias e mercados que são fundamentais para a Rússia”, acrescentou. “Vamos enfraquecer a base económica da Rússia e sua capacidade de modernização”, afirmou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. A Bielorrússia, de onde saíram parte das tropas russas que participaram na invasão, também enfrentará sanções, como já foi defendido pelo chefe da diplomacia do bloco, Josep Borrell.

SWIFT, a “opção nuclear”

A medida mais punitiva — bloquear o acesso das instituições financeiras russas ao sistema de pagamentos internacional (SWIFT) — não será aplicada, pelo menos para já. Foi discutida em 2014, após a invasão da Crimeia, e estimativas do próprio governo russo apontavam para uma perda de 5% do PIB nesta eventualidade.

Joe Biden afirmou numa conferência de imprensa, ao final da tarde em Lisboa, que o bloqueio não aconteceria, mas a hipótese não estava descartada. Anuncio um reforço das medidas contra os bancos, com o congelamento dos ativos de mais instituições, considerando que o impacto “excedia o provocado” pela exclusão do SWIFT

O Financial Times noticiou que os líderes ocidentais estão divididos em relação a este passo. Enquanto Boris Johnson, criticado por ter imposto sanções tímidas, está a fazer pressão para que avance, o chanceler alemão, Olaf Sholz, já avisou que nem a Alemanha, nem a UE apoiarão a medida.

As sanções têm sido adotadas de forma coordenada entre os aliados e mesmo nos EUA a “opção nuclear”, como já é referido o bloqueio do SWIFT, enfrenta reticências, por poder comprometer o papel do dólar no mundo, empurrando alguns países para a divisa chinesa e moedas virtuais. Mas não seria a primeira vez. A UE retirou o acesso das instituições financeiras iranianas a esta rede global de 11 mil bancos em 2012, com graves consequências económicas.

O primeiro-ministro britânico foi o primeiro a anunciar esta tarde o novo pacote de medidas, visando mais de 100 indivíduos, incluindo oligarcas russos, e entidades, com a proibição de voos da Aeroflot para o Reino Unido ou de negócios com a empresa de desefa Rostec. Numa declaração no Parlamento, Johnson disse que as novas sanções vão “excluir totalmente os bancos russos do sistema financeiro britânico”, impedindo que os pagamentos passem pelo Reino Unido. As empresas e o Estado russo também não poderão financiar-se nos mercados financeiros do Reino Unido.

O Presidente dos EUA esteve numa reunião remota com os líderes do G7, que disse terem chegado a acordo para um “pacote devastador de sanções e outras medidas económicas” contra a Rússia.

Biden promete um “golpe nas ambições de Putin”

Ao final da tarde chegou a sua vez de anunciar o pacote sancionatório, contra o que chamou de “ataque premeditado”, “sem provocação, sem justificação e sem necessidade”. “Putin é o agressor, Putin escolheu esta guerra”, sublinhou.

Além da dívida pública russa, o financiamento de entidades detidas pelo Estado também passará a ser proibido. Deixa também de ser possível exportar alta tecnologia: “Entre nós e os nossos aliados, vamos cortar cerca de metade das importações de tecnologia russas“, contabilizou Putin.

“Com o tempo vamos apertar o acesso da Rússia a financiamento e tecnologia para setores estratégicos da economia, reduzindo a sua capacidade industrial nos próximos anos”, afirmou Biden, salientando que as medidas estavam a ser impostas por “parceiros que representam mais de metade da economia mundial”.

“Desenhámos as sanções para maximizar o impacto a longo prazo na Rússia e minimizar o impacto nos EUA e aliados”, garantiu. “Será um forte golpe para as ambições estratégicas de Putin”.

Se as primeiras medidas não impediram uma invasão em larga escala, é improvável que mesmo uma versão mais dura convença Putin a retirar as tropas da Ucrânia sem antes ter atingido os seus objetivos. Até porque a China poderá ajudar a aliviar o impacto, nomeadamente sobre o sistema financeiro. Questionado sobre se já falou Pequim, Joe Biden disse que, de momento, “não estava preparado para comentar”.

(Artigo atualizado às 20h com discurso de Joe Biden)

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