Fecho da manutenção e engenharia no Brasil empurra TAP para prejuízo recorde de 1.600 milhões em 2021

Receitas melhoraram face ao ano anterior, mas o custo com o encerramento da manutenção e engenharia no Brasil ditou um aumento dos prejuízos. Companhia termina o ano com capitais próprios negativos.

O aumento no número de passageiros transportados e de receitas não evitou um crescimento dos prejuízos da TAP, que somaram uns inéditos 1.599,1 milhões de euros em 2021, ultrapassando os 1.230 milhões de 2020. Um número que fica, ainda assim, abaixo dos 1.750 milhões previstos no plano de reestruturação.

Este agravamento deve-se ao custos não recorrentes de 1.024,9 milhões com o encerramento da Manutenção e Engenharia no Brasil no quarto trimestre. A TAP informa, em comunicado, que o resultado líquido ajustado de itens não recorrentes (incluindo ajustes fiscais) seria de negativo em 760,14 milhões.

A companhia liderada por Christine Ourmières-Widener transportou 5,83 milhões de passageiros no ano passado, mais 25% do que em 2020, ficando a cerca de 34% do número de 2019, o último ano antes da pandemia. As receitas de passageiros da TAP cresceram 25,8%, somando 1.067,2 milhões. Um número que, diz a transportadora, fica “acima do crescimento global das receitas de passageiros previsto pela indústria de 20,1% (de acordo com a IATA)”.

A evolução mais significativa aconteceu na carga e correio, segmento onde as vendas subiram 88% par 236,1 milhões. Já na manutenção ocorreu um decréscimo de 20,1% para 54,2 milhões. Tudo somado, os rendimentos operacionais melhoraram 31% em 2021 para os 1.388,5 milhões.

Os gastos operacionais subiram 42%, para 2.877 milhões, sobretudo devido à contabilização dos 1024,9 milhões relativos ao custo com a reestruturação e o encerramento da Manutenção & Engenharia Brasil. Sem este impacto extraordinário, os gastos operacionais recorrentes foram de 1.866,5 milhões em 2021, menos 2,7% do que no ano anterior.

A TAP sublinha no comunicado que “a maioria das rubricas de custos operacionais recorrentes aumentou a um ritmo mais lento do que as receitas operacionais, começando a refletir as medidas de reestruturação implementadas pela empresa”.

EBITDA recorrente positivo de 11,7 milhões

Os encargos com pessoal baixaram 46,3 milhões ou 11%, refletindo a saída de 1.480 colaboradores ao longo do ano passado e os cortes salariais iniciados em março de 2021.

O EBITDA (resultando antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) recorrente foi negativo em 999 milhões, mas se for excluído o custo extraordinário da M&E Brasil, então o ano terminou com sinal mais: 11,7 milhões positivos, o que compara com os 380,1 milhões negativos do ano anterior.

Os prejuízos, de 1.599,1 milhões (não recorrente de 760,14 milhões) foram também penalizados em 175,5 milhões pelas diferenças cambiais relacionadas com a depreciação do euro face ao dólar e do real face ao euro. Já as operações de cobertura do jet fuel tiveram um impacto positivo de 8,7 milhões.

O quarto trimestre ficou marcado pela tendência de recuperação no número de passageiros transportados, apesar da pandemia, com um crescimento de 13,8% face aos três meses anteriores, para 2,4 milhões. As receitas aumentaram 26,6% para 561,7 milhões.

O EBITDA Recorrente registou um valor positivo de 110,8 milhões, o que representa um aumento de 45,2 milhões (+69.0%) em relação ao trimestre anterior.

A capacidade de transporte, medida em lugares disponíveis por quilómetro (ASK), aumentou 16,8% face ao trimestre anterior, situando-se em 69,4% do nível de 2019. A TAP terminou o ano com menos duas aeronaves, totalizando agora 94, com o phase-out de sete modelos Airbus e a entrada em operação de cinco de nova geração (A321neo LR e A320neo)

Capitais próprios negativos de 468 milhões

O resultado negativo de 1600 milhões, devido em grande parte aos custos extraordinários com a reestruturação, em particular o encerramento da M&E Brasil, impediram a TAP de terminar o ano com capitais próprios positivos.

A transportadora aérea fechou 2021 com uma situação líquida negativa de 468,1 milhões de euros, ainda assim bem melhor do que os 1.154,3 milhões contabilizados no fim do ano anterior.

Recorde-se que no final de 2021 o Estado fez um aumento de capital de 1.736 milhões de euros na companhia, através da injeção de 536 milhões e a conversão em capital de um empréstimo de 1.200 milhões. Em maio, já tinham entrado 462 milhões, a título de compensações pelos prejuízos da covid-19, o que perfaz um total de 2.198 milhões.

Graças a estas injeções, a dívida financeira da TAP encolheu 42,8% para os 1.480,9 euros. A companhia terminou o ano com 812,6 milhões em caixa (+57% do que no início do ano). A dívida financeira líquida é agora de 668,3 milhões. Este ano está prevista a entrada de mais 990 milhões do Estado. Parte deste dinheiro será colocado na transportadora aérea através de um empréstimo com garantia do Estado, no valor de 360 milhões, que será depois convertido em capital.

Olhando para o futuro, a transportadora assinala que a invasão russa da Ucrânia “tem originado impactos macroeconómicos relevantes, em particular ao nível dos mercados de financiamento internacionais, nomeadamente de subida das taxas de juro, bem como do aumento do preço dos combustíveis, incluindo do jet fuel, que registou um crescimento de mais de 30% desde o início do conflito, e de um conjunto de bens e serviços o que tem originado uma crescente inflação”.

“O conflito reveste-se de elevada incerteza quanto à sua duração, extensão e impacto e das respetivas sanções impostas, não sendo possível prever os eventuais efeitos que dele resultem e por quanto tempo, incluindo dos impactos na inflação e no preço dos combustíveis nos próximos meses e anos”, acrescenta.

(notícia atualizada pela última vez às 8h50)

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