Aforrador conservador perde 3% do poder de compra em 20 anos

  • Filipe Maria
  • 12 Maio 2022

Depósito a prazo de 100 mil euros feito em 2002 e indexado à Euribor a 12 meses encolheu para 97 mil euros em 2022 em termos reais. Abanca ainda vê formas de proteger o poder de compra.

Os aforradores portugueses mais conservadores que tiveram a Euribor a 12 meses no seu depósito a prazo perderam o equivalente a quase 3% do seu poder real de compra ao longo dos últimos 20 anos, segundo as contas do Abanca.

Um tradicional investidor português que tenha colocado 100 mil euros num depósito a prazo em 31 de março de 2002, com uma remuneração indexada à Euribor a 12 meses, ficou com 123.206 euros passados 20 anos. À primeira vista, esta rentabilização atinge quase 24%. Mas deduzidos os efeitos da inflação e dos impostos, o valor real do investimento caiu para 97.184,36 euros.

Posto de outra forma, se quisesse fazer um cabaz de bens de consumo, hoje “teria de abdicar de 3% dos bens de consumo”, ou mais precisamente 2,82%, garante Hugo Freitas.

Na origem desta perda de poder de compra estão vários fatores, desde o movimento da inflação, já em força ainda antes da guerra na Ucrânia, à perturbação nas cadeias de abastecimento provocada pela Covid-19 e significativamente agravada pela guerra na Europa, assim como a expectativa do mercado quanto à subida das taxas de juro pelo Banco Central Europeu (BCE) ainda este ano.

No ar continua a dúvida sobre se o BCE conseguirá ou não evitar uma recessão, diz Hugo Freitas. Mas, para os aforradores portugueses com dinheiro parado ou em depósitos a prazo, a grande questão é saber se será possível manter o poder de compra com um perfil de risco conservador. Basta olhar para as últimas duas décadas para verificar como isto foi um desafio.

O diferencial da Euribor a 12 meses ficou marcado pelo prémio baixo e a inflação alta, e tendo este indicador uma “correlação muito elevada com as taxas dos depósitos” mesmo a nível histórico, é possível verificar que em 61% do tempo a Euribor a 12 meses esteve abaixo da inflação no período de 20 anos em análise, segundo o Abanca.

Em termos líquidos, a situação “ainda é pior”, com um ganho real (isto é, acima da inflação) presente em apenas 18% do tempo analisado, avança Hugo Freitas. Ou seja, em 82% houve perda para o aforrador.

Hugo Freitas considera que aforradores portugueses estão a viver “o pior momento” atualmente, com o “pico da inflação a acontecer algures entre três e quatro meses”.

É possível, ainda assim, manter o poder de compra, segundo o responsável. Sem contar com o efeito da inflação, um investimento de 100 euros num depósito a prazo indexado à taxa Euribor 12 meses, constituído em outubro de 2014, cresceu 0,24% até março de 2022, para 100,24 euros.

Em alternativa, um investimento, nos mesmos moldes, em obrigações de curto prazo atingiria, ao fim desse período, os 106,48 euros (um crescimento de 6,48%) e um mesmo investimento em obrigações indexadas à inflação, o investimento, depois desses anos, seria de 110,67 euros (+10,67%). Na estratégia mista defensiva em ações, o capital acumulado poderia ser de 112,34 euros (+12,34%), isto assumindo uma valorização das unidades de participação e cupões brutos mensais pagos pelo fundo.

Considerando agora o impacto da inflação sobre esses retornos, a estratégia da taxa de juro sem risco da Euribor representa uma perda de 5,68% do poder real de compra no período em análise. Pelo contrário, no caso das obrigações de curto prazo, o ganho bruto real corresponde a 0,56% — portanto, uma ligeira defesa do poder real de compra, de acordo com o banco.

Aplicando o mesmo cálculo no retorno das obrigações indexadas à inflação, existe uma defesa e rentabilização “marginal” de 4,75%, segundo Hugo Freitas. E é possível verificar o mesmo resultado ao avaliar o retorno da estratégia mista defensiva em ações, com um ganho bruto real de +6,42%, nas contas do Abanca.

A conclusão é a de que existem estratégias defensivas que permitem reter o poder de compra, embora seja necessário aumentar a exposição ao risco. Neste aspeto, Hugo Freitas destaca que o “risco compensa face ao aforrador tradicional”.

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