Juan Carlos aterrou em Espanha depois de dois anos em “exílio dourado”

  • Lusa
  • 19 Maio 2022

O rei emérito pisa o solo espanhol depois de ter passado 655 dias nos Emirados Árabes Unidos. Juan Carlos regressa aos Emirados Árabes Unidos na próxima segunda.

O rei emérito espanhol, Juan Carlos I, chegou esta tarde ao aeroporto de Vigo (Galiza), para uma breve visita a Espanha, depois de quase dois anos de um “exílio dourado” em Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos).

O antigo soberano tinha à sua espera a sua filha Elena, que o vai acompanhar nos próximos dias, em que ficará alojado na casa de um amigo que é empresário e presidente de um clube náutico onde Juan Carlos conta assistir, talvez participar, numa regata de barcos à vela durante o fim de semana.

O rei emérito pisa o solo espanhol depois de ter passado 655 dias nos Emirados Árabes Unidos, país para onde se mudou naquela que foi uma decisão histórica, na sequência da controvérsia causada pelos relatos dos seus negócios no estrangeiro e da decisão da Procuradoria do Supremo Tribunal de Justiça de abrir uma investigação.

A expectativa é muito grande no município de Sanxenxo (Pontevedra), principalmente à volta da marina da cidade, a base da regata a que o monarca irá assistir, havendo mais de 100 meios de comunicação social que já se acreditaram para cobrir a visita de Juan Carlos I.

Depois da decisão em 2 de março passado do Ministério Público de encerrar os casos pendentes, o rei emérito escreveu ao filho, Felipe VI, cinco dias depois, para expressar o seu desejo de regressar a Espanha e “lamentar sinceramente” a forma como conduziu a sua vida privada.

Juan Carlos irá a Madrid na segunda-feira para se encontrar com o seu filho, a sua mulher, Rainha Sofia, e outros membros da sua família no Palácio da Zarzuela, nos arredores da capital espanhola, e no mesmo dia está previsto o seu regresso a Abu Dhabi, onde “fixou residência de forma permanente e estável”.

O regresso a Espanha faz parte do desejo do rei emérito de “viajar frequentemente a Espanha para visitar a família e amigos, e organizar a sua vida pessoal e o seu local de residência em âmbito de caráter privado”, segundo um comunicado da Casa Real publicado na quarta-feira.

Juan Carlos vive em Abu Dhabi depois de um escândalo financeiro relacionado com o recebimento de alegadas comissões milionárias, sendo um dos casos ligado ao alegado recebimento de 65 milhões de euros em comissões para a construção do comboio de alta velocidade Medina-Meca, outro a alegadas doações não declaradas e um terceiro a suspeitas de ter escondido fundos em paraísos fiscais.

Apesar de o antigo monarca de 84 anos ter visto as investigações judiciais contra si encerradas, as revelações sobre a origem duvidosa da sua fortuna minaram a imagem desta personalidade, durante décadas foi muito respeitada e de uma grande popularidade, devido ao seu papel essencial durante a transição democrática de Espanha, após a morte do ditador Franco em 1975.

“A informação que temos tido nos últimos anos” sobre Juan Carlos “é muito preocupante […] para a instituição [monárquica]” e “penso que ele terá de dar explicações sem qualquer dúvida”, insistiu esta quinta a ministra da Economia e número dois do governo, a socialista Nadia Calviño.

Mas a voz mais crítica no Governo espanhol liderado pelo Partido Socialista espanhol (PSOE) vem do seu parceiro minoritário na coligação, o Unidas Podemos, de extrema—esquerda, que não poupa críticas a Juan Carlos nem à monarquia espanhola. “Qualquer pessoa que regressasse ao nosso país com a história do rei Juan Carlos I seria detida na fronteira e levada à justiça”, denunciou hoje o Unidas podemos através da rede social Twitter.

À direita, o líder do Partido Popular Alberto Núñez Feijóo defendeu o “direito” de Juan Carlos a “regressar a Espanha” depois de os tribunais terem encerrado as suas investigações.

Numa tentativa para tentar restaurar a imagem da monarquia espanhola desde a sua ascensão ao trono em 2014, Felipe VI tem-se distanciado do seu pai, tendo mesmo, em março de 2020, anunciado que renunciava à herança de Juan Carlos e retirava-lhe o seu subsídio anual de quase 200.000 euros.

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