Do metal de Águeda às cintas de Arouca. Dez empresas para seguir na cimeira industrial de Hannover

Maquinaria, automação, energia e serviços digitais estão em destaque na comitiva portuguesa. Conheça a história, novidades e expectativas de uma dezena de empresas na maior feira industrial do mundo.

Portugal está (até literalmente) no centro da maior feira industrial do mundo, aproveitando o estatuto de “país parceiro” na edição de 2022 da Hannover Messe, que arranca esta segunda-feira e só termina a 2 de junho. Entre a comitiva nacional que integra um total de 109 empresas, o ECO mostra o histórico, as novidades e as expectativas de dez projetos ligados aos setores da engenharia e maquinaria, automação, energia e serviços digitais.

Fundiven

Presente na Hannover Messe desde 2011, a Fundiven volta a ver nesta feira “uma oportunidade para estar com os clientes do principal mercado”, conta ao ECO o administrador, Joaquin Almeida. Fundada em 1978 por Ricardo Anjos e Vítor Almeida com o objetivo de produzir peças em alumínio por fundição injetada, a empresa familiar de Águeda é gerida atualmente pelas segunda e terceira gerações, emprega 180 pessoas e no ano passado gerou receitas de 13 milhões de euros.

Direta ou indiretamente, a exportação pesa 90% do negócio e a Fundiven – Fundição Venezuela “continua a apostar nos mercados mais desenvolvidos da Europa para crescer”. Além da Alemanha, também Suécia, França, Reino Unido, Bélgica e Espanha se destacam na lista de clientes em setores como a indústria do gás, automóvel, eletrodomésticos, eletricidade e eletrónica, máquinas e equipamentos industriais, e mobilidade suave.

“Hannover Messe já é para nós uma presença tradicional desde 2011. Uma oportunidade para estar com os clientes do nosso principal mercado.

Joaquin Almeida

Administrador da Fundiven

Depois do “forte investimento” realizado nos últimos anos, conta hoje com 30 mil metros quadrados de área edificada, 23 células de injeção e 17 centros de maquinação e equipamentos de primeira linha na área de controlo de qualidade e ambiente. Joaquin Almeida sublinha que a Fundiven continua a “apostar nas feiras como um meio de afirmação perante os clientes tradicionais e como um meio para [se] apresentar a potenciais novos clientes”.

ETMA Metal Parts

O sistema de dez Processos Produtivos Integrados, que a ETMA Metal Parts reclama ser caso único na Europa — e que tem na lista de “benefícios” um maior controlo de processos internos, a redução de custos (logística e qualidade) e maior flexibilidade –, continua a ser a principal aposta da empresa de Braga, pelo que este “será, sem dúvida, um dos motivos de maior atração ao stand” na Hannover Messe. Em declarações ao ECO, o administrador, António Miranda, frisa que esta feira “proporciona o ambiente e as condições ideais para apresentar as suas capacidades, tecnologias, soluções e novidades, não só para manter a relação com os [atuais], mas também numa perspetiva de angariação de novos clientes”.

António Miranda, administrador e diretor comercial da ETMA

Criada em 1940, esta fabricante minhota de peças metálicas de pequena dimensão tem mais de 200 trabalhadores, faturou 13,4 milhões de euros em 2021 e tem como principais mercados Espanha, Polónia, França, Hungria, Holanda, República Checa e Alemanha. Hitachi, Schneider Electric, Aspöck, Bosch, Continental, ABB, Borgwarner, Efapel, Lear Corporation, Novares são os principais clientes. António Miranda, que é também diretor comercial, descreve como “estratégica” a diversificação da atividade em várias áreas de negócio, incluindo as indústrias de componentes automóveis; bicicletas, ciclomotores e motociclos; elétrica; eletrodomésticos; sistemas de fixação; e injeção de plásticos.

Fábrica da ETMA Metal Parts, em Braga

Celoplás

Com unidade industrial de 41 mil metros quadrados de área total instalada a poucos quilómetros, em Grimancelos, no concelho vizinho de Barcelos — onde tem um parque com cerca de uma centena de máquinas de injeção e uma equipa com mais de 200 pessoas que trabalha 24 horas por dia e sete dias por semana –, a Celoplás, fundada em 1989, exporta também mais de 95% da produção para a Europa e para a Ásia (sendo o alemão o principal destino), num total de vendas próximo dos 30 milhões de euros.

Fábrica da Celoplás, em Barcelos

O que faz? Projeta, desenvolve e fabrica – através do processo de moldação por injeção e microinjeção – mais de 200 milhões de componentes de engenharia de elevada precisão por ano. Além disso, desenvolve e produz componentes à escala micro, utilizando tecnologias de micromaquinação e micromoldação. Está em Hannover para mostrar as competências em “produtos tecnicamente exigentes, envolvendo processos complexos”. O presidente, João Cortez, diz ao ECO que vê nesta feira “mais uma oportunidade para reforçar a sua posição competitiva (…) em especial no mercado alemão, caracterizada pela capacitação para a inovação e ainda para aceitar novos desafios tecnológicos situados na vanguarda da tecnologia”.

Artefita

De Barcelos para Escariz, freguesia de Arouca cujo nome deriva até do germânico “Aschari”. É lá que mora desde 1995 a Artefita, atualmente com 115 funcionários e receitas anuais de nove milhões de euros conseguidas sobretudo em França, Suécia, Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra. Repete-se o objetivo, verbalizado ao ECO pelo diretor-geral, Gonzaga Oliveira, de mostrar na Hannover Messe 2022 “a verticalização do processo produtivo, a capacidade de adaptação ao desenvolvimento de novos produtos e a forma cada vez mais sustentável como os produz”. Expondo, por exemplo, alguns produtos reciclados e diversos acessórios em plástico e metal 100% produzidos localmente.

É possível encontrar os nossos produtos na embalagem, no desporto, na logística, nos cuidados de saúde, na organização de eventos, na construção ou em cadeiras de bebé.

Gonzaga Oliveira

Diretor-geral da Artefita

A Artefita produz cintas de fixação, de segurança e multiusos, que desenvolve à medida de cada cliente OEM (Original Equipment Manufacturer) e à escala global. A partir das fitas têxteis produzidas dentro de portas ou em parceria com os clientes em 35 países, desenvolve, testa e adapta diversos tipos de soluções que podem ser encontradas em embalagens, no desporto, na logística, nos cuidados de saúde, na organização de eventos, na construção ou em cadeiras de bebé. “Esperamos com esta participação, que é a 40ª num evento fora de Portugal, poder trazer vários desafios para posteriormente, com a nossa fantástica equipa, os convertermos em negócios”, acrescenta o gestor.

Do iT Lean

No Hall 5 da Hannover Messe, numa área dedicada aos ecossistemas digitais, estará durante quatro dias a Do iT Lean, sediada em Leiria e com perto de 300 colaboradores, que é uma empresa de desenvolvimento de aplicações web e mobile baseadas em exclusivo na plataforma low-code do “unicórnio” português OutSystems. Fundada em novembro de 2009 por Frederico Ferreira e Pedro Delgado, no ano passado fez no estrangeiro quase 80% das vendas totais de 15 milhões de euros, com destaque para EUA, Canadá, França, Espanha, Reino Unido, Países Baixos, Hong Kong, Malásia, Austrália e Singapura.

Em declarações ao ECO, o fundador e presidente, Frederico Ferreira, relata que aceitou o convite da associação dos industriais do metal (AIMMAP) para integrar a delegação portuguesa nesta feira “com o objetivo de demonstrar o portefólio de projetos de transformação digital para empresas de todas as dimensões, diferentes setores de atividade e de diferentes países”. Expandir a presença na Europa, conquistar novos clientes para entregar estas “soluções ‘lean’ fáceis de usar e manter”, aumentar o alcance e o reconhecimento da marca, e “ter a oportunidade de interagir diretamente” com os milhares de visitantes. Estas são as metas do responsável da Do iT Lean para a participação de estreia nesta feira.

Frederico Ferreira, CEO da Do iT Lean

Bresimar Automação

Soluções nacionais com inovação de ponta é também o que traz à Hannover Messe o grupo Bresimar, presença habitual na feira desde 2013 e que dedica o stand às novidades desenvolvidas “dentro de portas” pela Tekon Eletronics. Uma marca que criou em 2011 para consolidar o investimento em Investigação & Desenvolvimento (I&D), especializada em tecnologia de sensores sem fios para recolha de variáveis como temperatura, humidade, pressão, qualidade do ar ou CO2. Também na Alemanha está a Selmatron, empresa do grupo que fornece soluções especializadas de automação industrial e máquinas especiais para a Indústria 4.0.

Para João Breda, administrador do grupo especializada em equipamentos, sistemas e soluções para automação industrial, esta feira visitada por centenas de milhares de pessoas abre “uma oportunidade com um alcance de nível global”. Citado em comunicado, mostra-se “otimista pelo potencial tremendo em gerar clientes”. No stand, nas conferências ou nos showcases, vai apresentar as “valências, experiência e criação de valor para o cliente”, completa o gestor da empresa de Aveiro. Fundada em 1983, emprega 110 pessoas e em 2022 espera crescer 10% em relação aos 13 milhões de euros com que fechou o exercício do ano passado.

Energest

A energia é um dos temas quentes do momento e as soluções nesta área merecem um espaço próprio na participação portuguesa. Entre as 13 empresas, incluindo as gigantes EDP, Galp, REN ou Efacec, está a estreante Energest, localizada na Maia, que se dedica à conceção, projeto, construção e montagem de equipamentos e instalações térmicas industriais para vários setores: alimentar e bebidas, cimento, embalagens, fabricantes de equipamentos, farmacêutica, papel, madeiras, produção de energia, química e têxtil. Vocacionada para a consultoria em engenharia, tem 46 colaboradores e uma faturação anual de 7,2 milhões de euros.

Dos projetos em exibição na feira destacam-se as caldeiras de recuperação que aproveitam a energia contida nos gases de escape de turbinas e motores; e uma caldeira de vapor a gás natural / hidrogénio desenvolvida para a Navigator, em Setúbal, que apresenta como “a caldeira de maior potência construída em Portugal”. Um equipamento que diz permitir reduzir as emissões de CO2, aumentar a eficiência através da utilização de Best Available Technologies e elevar a eficiência na preparação e no transporte de combustível, diminuindo os riscos ambientais.

“A experiência adquirida ao longo de mais de três décadas pela equipa de engenharia multidisciplinar tem sido reconhecida, em vários projetos, por várias multinacionais de referência no setor da transformação de energia. Em Hannover, pretendemos dar a conhecer às empresas alemãs e de outras geografias as fortes competências da Energest no desenvolvimento de sistemas de transformação de energia”, resume ao ECO o administrador e fundador, José Guedes.

Cleanwatts

Outra empresa nacional em evidência na “ilha” da energia é o de uma cleantechdigital sediada em Coimbra e com operações espalhadas pela Europa, EUA, Brasil e Japão, que no ano passado instalou a primeira comunidade de energia renovável (CER) em Portugal e que lidera o projeto de empreendedorismo social “100 Aldeias”, que está a implementar comunidades de energia em zonas rurais e interiores. Fundada em 2014, a Cleanwatts mostra em Hannover sistemas de otimização energética e o seu sistema operativo para a gestão das CER, que a cofundadora e diretora de tecnologias (CIO) apresenta ao ECO como “uma resposta aos grandes desafios da transição energética”.

Luísa Matos, CIO e cofundadora da Cleanwatts

“A proposta das CER é a promoção de uma comunidade sustentável, com centrais de produção partilhadas, onde todos os membros consomem energia verde, limpa, produzida localmente e a custos reduzidos. Em Portugal, a Cleanwatts é pioneira na implementação das CER, assegurando todas as etapas do processo: organiza, gere, financia e constrói as soluções, projetando-as à medida dos modelos mais adequados para cada comunidade. (…) Vamos procurar demonstrar [nesta feira] os nossos casos de sucesso e alargar conhecimento de mercado, assim como criar awareness nesta área tão importante para a Europa, no contexto atual de uma maior independência energética, e obter novos leads comerciais”, resume Luísa Matos.

ISQ

É também no Hall 13 que está “estacionada” por estes dias o ISQ, que nesta terceira presença consecutiva em Hannover, como destaca ao ECO o presidente, Pedro Matias, vem mostrar soluções inovadoras na área do hidrogénio, assim como o desenvolvimento de algoritmos para a utilização de drones em inspeções técnicas industriais avançadas, nomeadamente em espaços confinados. Foi em 2004 que iniciou atividade nesta área, quando num projeto europeu investigou os efeitos da introdução de mistura de hidrogénio na rede europeia de gás natural. Hoje reclama ter know-how para avaliar a conversão de processos ou equipamentos para a utilização de hidrogénio, desde a fase de produção até ao transporte e distribuição.

Outro “projeto absolutamente disruptivo” em que participou e que está em exibição na Alemanha é o da cápsula espacial com revestimento de cortiça que foi desenvolvida para a agência espacial europeia (ESA). Será a primeira vez na história que uma sonda vai a Marte recolher amostras do solo e trazer qualquer coisa de volta ao planeta Terra. “Estes projetos demonstram que hoje em dia a indústria portuguesa e a engenharia portuguesa subiram na cadeia de valor e estão a um nível bastante elevado. As empresas portuguesas são cada vez mais procuradas para o desenvolvimento de soluções integradas de engenharia, nomeadamente em termos das necessidades da Indústria 4.0”, sustenta Pedro Matias.

A indústria portuguesa e a engenharia portuguesa subiram na cadeia de valor e estão a um nível bastante elevado.

Pedro Matias

Presidente do ISQ

Critical Manufacturing

Quem conhece os cantos ao recinto de Hannover é a Critical Manufacturing, que marca presença desde 2013 e que este ano está presente com o stand habitual (Hall 4) e integrado na delegação portuguesa dos ecossistemas digitais. “Por um lado, queremos manter o nosso espaço junto das maiores empresas mundiais com soluções para a indústria, como a Microsoft, Google e SAP. Por outro, queremos aproveitar o facto de Portugal ser o país parceiro e todas as oportunidades que essa chancela nos podem trazer”, resume Francisco Almada Lobo, CEO e um dos fundadores em 2009 da companhia instalada no Tecmaia – Parque de Ciência e Tecnologia da Maia.

Fabricante de produtos de software de gestão da produção, automação e analítica para várias indústrias de base tecnológica, emprega atualmente mais de 300 pessoas – e está à procura de mais 200 engenheiros -, faturou 33 milhões de euros em 2021 e é detida desde 2018 pela gigante de Singapura ASM, cotada na Bolsa de Hong Kong e líder mundial em equipamentos para semicondutores. Em evidência na Alemanha está o sistema de gestão de operações (MES) que disponibiliza através da cloud, nas instalações do cliente ou de forma híbrida.

“Estando o mundo em constante mudança devido a pandemias, guerras e novas aquisições, a Critical Manufacturing acredita que é necessário haver um software que seja rápido de implementar, em qualquer lado e a qualquer hora”, conclui o empresário, que trabalhava na mega fábrica de componentes eletrónicos da Qimonda em Vila do Conde quando a multinacional de origem alemã entrou em processo de insolvência.

(O jornalista viajou para Hannover a convite da Siemens)

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