Centeno revê crescimento em alta, mas preços disparam 5,9%

No boletim económico de junho, o banco central reviu em alta a previsão de crescimento para 2022 de 4,9% para 6,3%. A taxa de inflação acelera para 5,9%, em vez dos 4% estimados anteriormente.

O Banco de Portugal reviu em alta a previsão para o crescimento da economia portuguesa este ano de 4,9% para 6,3%. As novas projeções constam do boletim económico de junho divulgado esta quarta-feira pelo banco central. Também a taxa de inflação é revista em alta de 4% para 5,9% em 2022.

É uma previsão conservadora“, disse Mário Centeno, governador do Banco de Portugal, na conferência de imprensa de apresentação do boletim económico de junho, explicando que as novas projeções para 2022 a 2024 “refletem a continuação da recuperação da economia portuguesa após o choque pandémico, num enquadramento externo agravado pela injustificada invasão russa da Ucrânia”.

A expectativa do banco central é que a economia portuguesa desacelere a partir do segundo trimestre deste ano e até ao final de 2022. Assim, em 2023, a previsão de crescimento é revista em baixa para 2,6% (2,9% no boletim económico de março). Em 2024, a economia portuguesa deverá crescer 2%.

Porém, “este cenário aparentemente benigno tem desafios“, alertou Mário Centeno, dando ênfase aos impactos diretos e indiretos da invasão russa na Ucrânia, assim como o acentuar das disrupções nas cadeias de produção globais e, claro, a aceleração da taxa de inflação a nível mundial.

Se o PIB é revisto significativamente em alta, a taxa de inflação sofre uma revisão ainda maior, passando de uma projeção de 4% para 5,9% em 2022. Mais relevante ainda é que, apesar de travar, a taxa de inflação em Portugal continuará acima de 2% em 2023 (2,7%) e será de exatamente 2% em 2024, de acordo com as novas projeções do banco central.

Este perfil reflete a evolução das pressões externas sobre os preços“, explicam os economistas do Banco de Portugal, notando que “ao longo do horizonte de projeção, estas vão-se dissipando, sendo parcialmente compensadas por um aumento das pressões internas“.

No seu discurso, Centeno especificou que, desde o fecho do exercício de previsões há cerca de um mês, as surpresas em alta nos dados da inflação, nomeadamente a taxa registada em maio, implicaria uma revisão em alta desta projeção em cinco décimas. Ou seja, a projeção para a taxa de inflação passaria a ser de 6,4%.

À atual projeção estão associados riscos descendentes para a atividade e ascendentes para a inflação, em particular no ano de 2022“, alerta o Banco de Portugal, acrescentando que a “possibilidade de agravamento do impacto da invasão da Ucrânia constitui o principal foco de incerteza e riscos”.

Praticamente alheio a estes problemas está o mercado de trabalho em Portugal. Apesar de o crescimento do emprego abrandar até 2024, a taxa de desemprego continuará a diminuir para 5,6% em 2022 e 5,4% em 2023 e 2024.

Porém, nos salários a evolução não é tão benigna: os salários reais por trabalhador no setor privado vão encolher 1% em 2022 por causa da aceleração da taxa de inflação. Em 2023 e 2024 deverão aumentar 2% em média, “aproximadamente em linha com a produtividade”.

Economia estagna em 2023 no cenário adverso

Tal como em março, também o boletim económico de junho traz um cenário adverso. “A elevada incerteza gerada pela invasão da Ucrânia e os seus potenciais impactos macroeconómicos justifica a apresentação de um cenário adverso para a economia portuguesa“, explica o banco central, referindo que “este cenário de maior duração e de repercussões económicas mais gravosas da invasão assenta em hipóteses de enquadramento internacional comuns ao cenário adverso apresentado pelo Eurosistema nas projeções de junho”.

Nesse cenário adverso, a economia portuguesa irá crescer 4,8%, em vez dos 6,3%, mas a grande novidade está no ano seguinte. Em 2023, o PIB poderá estagnar, com um crescimento nulo, em vez de expandir 2,6% como prevê no cenário base. A concretizar-se, esse cenário adverso levaria a uma revisão em alta do crescimento do PIB em 2023 para 2,7%, em vez de 2%.

Quanto à taxa de inflação, esta poderá agravar-se até 6,8% em 2022, em vez de 5,9%, e travar para 4,3% em 2023, em vez de 2,7%. Em 2024, a taxa de inflação é revista em baixa para 1,7% (2% no cenário base).

“O cenário assume que a invasão se prolonga, com um agravamento das tensões geopolíticas e a imposição de novas sanções económicas, o que se traduz em subidas mais acentuadas dos preços das matérias-primas, disrupções adicionais nas cadeias de valor global, maior incerteza e amplificação das fricções financeiras“, detalha o boletim económico de junho, acrescentando que assume “uma interrupção abrupta das importações de petróleo e gás da Rússia para a Europa na segunda metade de 2022”.

(Notícia atualizada às 13h32 com mais informação)

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