Estado de saúde de José Eduardo dos Santos “é preocupante”, diz Presidente de Angola

  • Lusa e ECO
  • 29 Junho 2022

Presidente angolano, João Lourenço, garante que tem estado em contacto com a família do ex-Chefe de Estado, que esteve 38 anos no poder. Filha do ex-Presidente recusa desligar as máquinas.

O Presidente angolano, João Lourenço, disse nesta quarta-feira que a situação de saúde do seu antecessor “é preocupante” e garantiu que tem estado em contacto com a família de José Eduardo dos Santos para acompanhar o desenvolvimento da situação.

João Lourenço falava no final de uma visita à sede da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), em Lisboa, a primeira que realizou e numa altura em que a Angola assume a presidência rotativa da organização.

Questionado pelos jornalistas sobre a forma como está a acompanhar a evolução do estado de saúde de José Eduardo dos Santos, o Chefe de Estado angolano disse que o está a fazer “muito de perto”. “Podemos dizer que a situação é preocupante. Só as equipas médicas e que poderão dar mais informações”, afirmou.

A este propósito disse que hoje mesmo chega a Barcelona o ministro das Relações Exteriores angolano, Téte António, de forma a acompanhar o estado de saúde do ex-Presidente.

João Lourenço garantiu que “o contacto com a família [de José Eduardo dos Santos] existe”, reagindo a críticas de que não estará em contacto com os familiares.

José Eduardo dos Santos está internado numa clínica em Barcelona e está em coma depois de ter sofrido uma queda e já depois de ter recuperado de uma infeção de Covid-19.

O antigo Presidente encontra-se há alguns dias nos cuidados intensivos, no Centro Médico Teknon, em Barcelona, Espanha, em coma induzido.

O ex-Presidente, de 79 anos (faz 80 em agosto), tem problemas de saúde há vários anos e tem sido acompanhado em Barcelona desde 2006.

Eduardo dos Santos governou Angola entre 1979 e 2017, tendo sido um dos Presidentes a ocupar por mais tempo o poder no mundo e era regularmente acusado por organizações internacionais de corrupção e nepotismo.

Em 2017, renunciou a recandidatar-se e o atual Presidente, João Lourenço, sucedeu-lhe no cargo, tendo sido eleito também pelo Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), que governa no país desde a independência de Portugal, em 1975.

Nesta conferência de imprensa, João Lourenço enalteceu ainda o papel da CPLP e quando questionado sobre a alegada irrelevância da organização em matéria de direitos humanos, afirmou: “Não é justo. A CPLP tem feito muito em matéria de direitos humanos”.

O Chefe de Estado disse ainda esperar que no final da presidência de Angola da organização, dentro de um ano, “a CPLP esteja mais próxima de alcançar os seus objetivos” e se encontre “no lugar que merece”.

Filha recusa desligar as máquinas

Na terça-feira, a filha do antigo Presidente angolano, Tchizé dos Santos, afirmou que “não vai permitir que desliguem as máquinas” a José Eduardo dos Santos e acusou o atual chefe do Executivo, João Lourenço, de estar a fazer uma gestão política do caso.

Num áudio posto a circular nas redes sociais, sob a forma de recado “para quem anda a fazer os preparativos para o funeral do Presidente emérito do MPLA”, Tchizé dos Santos afirma que José Eduardo dos Santos “está vivo”, com “todos os órgãos a funcionar” e o seu estado de saúde é estável.

Acusou ainda o médico João Afonso, que acompanha o ex-Presidente há vários anos e com quem entrou em rota de colisão, de “andar a plantar” informações na comunicação social para preparar a opinião pública para a morte do antigo Presidente, que governou Angola durante 38 anos, enquanto “tentam convencer a família” que deve autorizar os médicos a desligar as máquinas.

“Eu, como filha, nunca irei permitir que desliguem as máquinas de um pai vivo, que tem o coração a bater normalmente, um coração que está bom, não teve ataque cardíaco, não teve AVC”, afirma a empresária e antiga deputada do MPLA, partido no poder em Angola desde a independência, em 1975.

Tchizé dos Santos reforça que visitou o pai e que este, apesar de internado há quatro dias, “está vivo”.

Dirigindo-se a João Lourenço, que orientou o ministro angolano das Relações Exteriores para viajar até Barcelona para acompanhar o estado de saúde do ex-chefe de Estado, aconselhou o Presidente angolano a preparar o seu próprio funeral e avisou que “ninguém vai permitir que se desliguem as máquinas”.

Acusou ainda João Lourenço de querer retirar dividendos políticos, “para aparecer em grande e meterem bandeiras do MPLA em cima do caixão” de José Eduardo dos Santos

Alguém “que está extremamente dececionado consigo e com o MPLA, está extremamente triste e não ia fazer campanha para vocês”, prosseguiu Tchizé dos Santos, aludindo às eleições gerais marcadas para 24 de agosto

“Provavelmente iria mesmo querer ver alternância política”, rematou.

O conflito entre João Lourenço e alguns dos filhos do seu antecessor teve início quase após a tomada de posse, em setembro de 2017, agravando-se com os processos em tribunal que contra a empresária Isabel do Santos, ainda em curso, e Filomeno dos Santos, já julgado e condenado mas aguardando recurso depois de ser condenado a uma pena de prisão no âmbito do caso que ficou conhecido como “500 milhões”

Por seu lado, Tchizé dos Santos saiu do país em 2019 por, alegadamente, correr risco de vida, foi suspensa do comité central e acabou por perder também o seu mandato de deputada na bancada do partido do poder, MPLA.

As duas filhas de José Eduardo dos Santos têm manifestado publicamente as suas divergências com o regime, afirmando ser vítimas de perseguição e acusando o Governo angolano de usar a justiça de forma seletiva para atingir familiares e outras pessoas próximas do seu antecessor.

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