Chineses recusam pagar prestação da casa. Saiba porquê em 5 respostas

Proprietários com casas em construção recusam-se a pagar empréstimos em mais de 90 cidades. Em causa está incumprimento das imobiliárias e desconfiança dos investidores com o setor.

O presidente da República Popular da China, Xi Jinping, prepara-se para assegurar o seu terceiro mandato, em linha com as celebrações do 20.º Congresso do Partido Comunista. Caso tal aconteça, este terceiro mandato irá ocorrer pela primeira vez desde a liderança de Mao Zedong, cuja presidência durou 27 anos. Uma recente alteração à constituição chinesa, que consagrava um máximo de dois mandatos, bem como a falta de uma oposição, parecem indicar que este cenário irá acontecer.

No entanto, o que deveria ser um ano politicamente estável para o Partido Comunista está a evoluir para uma crise sem precedentes. Os preços da habitação aumentaram em seis vezes nos últimos 15 anos, agravando a especulação imobiliária. Agora, cerca de 400 mil pessoas estão impedidas de aceder aos seus próprios depósitos bancários, no valor de 40 mil milhões de yuans, ou cerca de 5,7 mil milhões de euros, na província de Henan, avança o The Economist. O motivo? Uma imobiliária, que detinha o banco, apropriou-se dos fundos e desapareceu.

No final de maio os lesados dirigiram-se a Zhengzhou, capital de Henan, exigindo aos bancos a devolução das suas poupanças, e embora os protestos tenham sido violentamente reprimidos ainda não terminaram. De momento existem relatos e imagens em como as autoridades chinesas estão a recorrer a tanques para dissuadir novos protestos. Embora ainda não esteja 100% confirmado se os tanques efetivamente estão nas ruas de Henan, ou na província oriental de Shandong, cerca de 460 km ao lado, as redes sociais continuam a reunir novos relatos.

Cerca de 87% dos mais de 1.400 bancos comerciais na China rural são privados, sendo que estes ainda são alvo de uma fraca supervisão pelo regulador, avança o The Economist. Contudo, estes são apenas os mais recentes sintomas de uma crise mais profunda no setor imobiliário.

1. O que se está a passar?

Com a torneira de financiamento de um conjunto de imobiliárias na China a secar, os proprietários estão agora a recusar-se a pagar pelos respetivos empréstimos à habitação. No seio da disputa estão várias casas cuja construção está ora interrompida, ora totalmente paralisada. Como resultado, até 20 de julho, foram interrompidos o pagamento de empréstimos à habitação de 300 projetos imobiliários, distribuídos por mais de 90 cidades, avança a Bloomberg.

No entanto, também alguns empreiteiros das imobiliárias em questão estão a recusar-se a liquidar os seus empréstimos. Já vão nas centenas o número de empreiteiros a alegar que não conseguem saldar as suas dívidas, dado que imobiliárias como a Evergrande ainda estão em dívida para com eles, segundo avançam meios de comunicação social locais.

Adicionalmente, o CEO da Evergrande, Xia Haijun, e o seu diretor financeiro (CFO), Pan Darong, foram esta sexta-feira, dia 22 de julho, forçados a renunciar aos seus respetivos cargos, após uma investigação comprovar o seu envolvimento no desvio de empréstimos, avançou a agência Reuters. O que começou como um movimento localizado está agora a evoluir para um boicote geral.

2. Porque começou esta crise?

A queda no setor imobiliário chinês começou no ano passado quando o presidente da República Popular da China, Xi Jinping, procurou conter os preços imobiliários em alta do país. Para isto, Xi Jinping procurou reduzir o risco ao conter o crescimento das prestações de crédito à habitação, bem como o financiamento das imobiliárias. Com o crescimento limitado e a Covid-19 ainda em força, coube, em seguida, aos sucessivos confinamentos de várias cidades chinesas a tarefa de empurrar ainda mais a queda na venda de imobiliário naquele país.

Com os preços dos imóveis em queda e um financiamento limitado, uma série de imobiliárias ficaram em situação precária e em incumprimento, como a Sunac ou a Shimao, algumas das maiores no seu setor. Segundo analistas citados pela Bloomberg, até recentemente, a dívida imobiliária era considerada um dos ativos mais seguros na China. De momento, o país tem 46 biliões de yuans (ou cerca de 6,6 biliões de euros) em hipotecas e 13 biliões de yuans (ou cerca de 1,8 biliões de euros) em empréstimos às imobiliárias.

3. Quais as implicações?

A evolução na crise imobiliária chinesa representa um dilema para o Governo de Xi Jinping. Por um lado, aliviar as obrigações dos devedores pode incentivar novos boicotes noutros pontos do país, agravando o atual ciclo económico e pressionando ainda mais a economia; por outro lado, ignorar estes protestos pode levar a um número crescente de falências à medida que mais devedores se recusam a cumprir com as suas obrigações.

As imobiliárias chinesas finalizaram cerca de 60% das casas em pré-venda entre 2013 e 2020, ao passo que os empréstimos hipotecários pendentes aumentaram 26,3 biliões de yuans, ou cerca de 3,8 biliões de euros, segundo analistas da Nomura. Até 2 biliões de yuans em hipotecas, ou cerca de 291 mil milhões de euros, podem ficar em causa graças aos boicotes atuais, embora os credores chineses se mostrem otimistas e avancem que o valor em causa representa menos de 1% da carteira total de hipotecas

4. O que está a ser feito?

Numa tentativa de devolver a confiança a este mercado, a entidade reguladora bancária da China já pediu aos bancos para oferecerem crédito às imobiliárias elegíveis, de modo a concluírem os seus projetos residenciais inacabados. Também neste sentido, o regulador pediu aos bancos para apoiarem os processos de fusão e aquisição entre imobiliárias, numa tentativa de estabilizar o mercado e salvaguardar os direitos dos proprietários.

Em paralelo, e correndo o risco de agravar o movimento de boicotes, a China está também a considerar uma moratória no pagamento do crédito à habitação dos proprietários, sem qualquer risco de penalização, avança a Bloomberg. Já em Zhengzhou na província central de Henan, a cidade com o maior número de boicotes em registo, está a ser planeado um resgate às imobiliárias em situação de insolvência.

5. Pode a crise alastrar para fora da China?

É estimado que o setor imobiliário e da construção na China representem, conjuntamente, mais de um quarto do seu produto interno bruto (PIB), sendo uma das suas maiores fontes de crescimento económico. Tal como os confinamentos na China afetaram cadeias de abastecimento por todo o mundo, nomeadamente nos semicondutores, também uma crise do imobiliário poderá provocar um eco num mundo globalizado.

A China representa a segunda maior economia no mundo, mas os investidores já começaram a abandonar as ações financeiras daquele país. O índice CSI 300 Financials Index registou na passada quinta-feira, 14 de julho, a décima queda consecutiva desde a sua criação em 2005, segundo a Bloomberg. Desde então, o índice já reagiu aos apelos do regulador bancário da China, embora se mantenha longe de recuperar as perdas das últimas semanas; um reflexo do sentimento de declínio na qualidade dos empréstimos à habitação na China.

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