Taxa de subutilização do trabalho nunca foi tão baixa em Portugal

Subutilização do trabalho está em mínimos históricos. Com menos trabalhadores disponíveis, economistas relacionam a falta de mão-de-obra com as competências e um desalinhamento geográfico.

A taxa de subutilização do trabalho recuou no segundo trimestre e atingiu o valor mais baixo desde o início da série, iniciada em 2011. Este indicador está relacionado com a queda do desemprego e mostra a margem do crescimento do emprego, que é agora mais reduzida, indica o economista João Cerejeira. Portugal aproxima-se de uma situação de pleno emprego, sendo que a falta de mão-de-obra reportada por alguns setores está relacionada com o tipo de competências e com a localização dos trabalhadores disponíveis.

A subutilização é um indicador que agrega a população desempregada, o subemprego de trabalhadores a tempo parcial, os inativos à procura de emprego, mas não disponíveis, e ainda os inativos disponíveis, mas que não procuram emprego. Abrangeu mais de 600 mil pessoas, sendo a taxa correspondente de 11,2%. “A subutilização do trabalho teve um decréscimo de 2,8% (17,5 mil) em relação ao trimestre anterior e de 8,2% (53,5 mil) relativamente ao trimestre homólogo”, contabiliza o INE. Tendência também verificada com a taxa.

João Cerejeira, professor da Universidade do Minho, explica ao ECO que este indicador “tende a ser relacionado com taxa de desemprego”. Pelo que “quando o desemprego desce, há mais pessoas que conseguem ter trabalho a tempo inteiro”. É uma “outra medida mais alargada para perceber a margem de crescimento do emprego“, acrescenta o académico.

Olhando para as várias componentes deste indicador, é possível verificar que a população desempregada diminuiu 3,1% (9,6 mil) em relação ao trimestre anterior e 13,6% (46,9 mil) relativamente ao trimestre homólogo de 2021. Já o subemprego de trabalhadores a tempo parcial abrangeu 141,6 mil pessoas, tendo diminuído 1,7% (2,4 mil) em relação ao trimestre anterior e aumentado 4,3% (5,8 mil) relativamente ao mesmo período do ano anterior.

Quanto ao número de inativos à procura de emprego, mas não disponíveis para trabalhar, este contrariou a tendência, sendo “estimado em 31,1 mil, mais 9,9% (2,8 mil) do que no trimestre anterior e mais 28,5% (6,9 mil) do que no homólogo”. Por outro lado, o número de inativos disponíveis para trabalhar, mas que não procuraram emprego, caiu 6,1% em relação ao trimestre anterior e 13,0% relativamente ao período homólogo.

Os dados do INE revelam ainda que o desemprego no segundo trimestre caiu para 5,7%. O gabinete de estatísticas destaca que metade da população desempregada se encontra numa situação de desemprego de longa duração (há 12 ou mais meses). João Cerejeira sublinha que “quando o desemprego desce, aqueles que estão em desemprego de curta duração tendem a ser aqueles que encontram mais rapidamente emprego”.

Assim, o desemprego de longa duração está “associado a desemprego estrutural”, nomeadamente relacionado com o tipo das competências ou o sítio onde a pessoa se encontra. “Se o mercado está mais forte e reduz o desemprego de curta duração, é natural que a proporção daqueles com mais dificuldade se torne maior”.

Uma nota informativa do BPI salienta, por outro lado, que o emprego em Portugal “recupera sem o impacto dos ventos de leste”, em referência à guerra na Ucrânia. Tendo em conta estes números, a Unidade de Estudos Económicos e Financeiros do banco considera que osriscos para a previsão para a taxa de desemprego (de 5,9% para o conjunto do ano) estão equilibrados, não obstante a elevada incerteza, dado o arrastamento do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, a persistência de pressões inflacionistas e o aumento dos custos de financiamento na Zona Euro”.

Competências e desalinhamento geográfico

Muito se tem discutido sobre se Portugal está numa situação de “pleno emprego”, com grande parte da população empregada. O desemprego tem rondado os 6%, mas em vários setores há falta de mão-de-obra. E os empresários começam a virar-se para outros países para encontrar trabalhadores.

Estar em pleno emprego quer dizer que o nível de desemprego que temos é o correspondente ao nível estrutural, como explica o economista João Cerejeira. É “friccional, desemprego que corresponde de pessoas que saíram do emprego e estão a procura de outro”, estando num processo de transição, aponta ainda.

Quando se atinge um certo ponto, o “desemprego é muito difícil de diminuir, é a taxa de desemprego natural”. Em Portugal, a taxa já esteve abaixo dos 4%. Mesmo assim, o economista admite que “efetivamente para a economia portuguesa das últimas duas décadas, estas taxas são bastante baixas”.

As confederações patronais têm-se queixado de falta de mão-de-obra. Francisco Calheiros, presidente da Confederação do Turismo Português (CTP), salienta que esta “é uma necessidade grande, não só do turismo mas de todo o país”, que está praticamente em situação de “pleno emprego”.

A falta de mão-de-obra indica que os trabalhadores [disponíveis] podem não ter competências ou qualificações para os empregos em aberto.

João Cerejeira

Economista

Sobre esta questão da falta de mão-de-obra, João Cerejeira aponta que tal “quer dizer que os trabalhadores podem não ter competências ou qualificações para os empregos em aberto”. Pode até existir um desalinhamento geográfico. Por exemplo, o desempregado estar em Trás-os-Montes e a oferta de emprego no Algarve.

“Quando é difícil a mobilidade entre regiões e os custos de transporte são caros — por exemplo com o aumento dos preços dos combustíveis, transportes públicos que deixam muito a desejar e até rendas altas –, a mobilidade geográfica é mais difícil, sinaliza o economista.

Para responder a estas queixas de falta de trabalhadores, o Governo tem avançado com algumas iniciativas. Já anunciou que vai organizar uma feira de emprego em Cabo Verde, por exemplo, tendo em vista o recrutamento de trabalhadores. Ana Mendes Godinho adiantou que “há muitos países interessados” neste tipo de mobilidade, indicando, ainda assim, que a prioridade são os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Foi também aprovada uma nova lei, que veio introduzir “alterações muitíssimo relevantes e substanciais na emissão de vistos, designadamente no âmbito dos países que ratificaram o acordo da CPLP”, como sinalizou a a secretária de Estado do Turismo.

O turismo é mesmo uma das áreas com mais necessidade de mão-de-obra. No início deste mês, Rita Marques estimou que Portugal precisa de 45 mil a 50 mil trabalhadores neste setor. Vagas que poderão ser preenchidas por trabalhadores de países de língua portuguesa, ao abrigo deste regime recentemente aprovado.

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