Da agricultura à tecnologia, estas são as profissões à prova do futuro

Trabalhadores agrícolas, condutores de camiões ligeiros e de entregas, e os software e app developers são profissões que mais vão crescer nos próximos cinco anos, segundo o Fórum Económico Mundial.

O mercado de trabalho está em transformação profunda, à boleia dos avanços tecnológicos, da transição verde, das mudanças demográficas e da incerteza económica. O quadro é traçado pelo Fórum Económico Mundial, que identifica os trabalhadores agrícolas, os condutores de camiões ligeiros e de entregas, e os informáticos como os empregos que mais vão crescer nesta década. Já os funcionários de bilheteiras e os assistentes administrativos estão sob ameaça.

Comecemos pelas boas notícias. De acordo com um estudo publicado no início do ano pelo Fórum Económico Mundial, serão criados, nesta década, 170 milhões de novos empregos por efeito dos referidos setores.

No lugar cimeiro das profissões que mais vão crescer até 2030 estão os trabalhadores agrícolas. “O crescimento previsto nos empregos agrícolas pode parecer inesperado, mas é justificado por várias tendências“, assinala a professora Priscila Ferreira, da Universidade do Minho, em declarações ao ECO.

O próprio Fórum Económico Mundial justifica-o com a transição verde, incluindo os esforços para reduzir as emissões de dióxido de carbono e de adaptação à crise climática. “Apesar da automatização no setor, há uma procura crescente por práticas agrícolas sustentáveis e de precisão“, confirma Priscila Ferreira.

A professora da Universidade do Minho salienta ainda que a segurança alimentar e a valorização da produção local estão também a ganhar relevância, impulsionando a necessidade de trabalhadores qualificados neste setor. Na visão da docente, a transição verde está, assim, não só a promover a criação de novos empregos verdes na agricultura, como a tornar necessárias novas competências e qualificações.

A transição verde está a transformar significativamente o mercado de trabalho agrícola.

Priscila Ferreira

Professora da Universidade do Minho

“A adoção de tecnologias verdes, a gestão eficiente dos recursos naturais e a implementação de práticas agrícolas ecológicas exigem trabalhadores mais qualificados e preparados para esta nova realidade“, sublinha Priscila Ferreira, que apela a um investimento na educação e formação profissional e a políticas que facilitem a adaptação da força de trabalho aos novos desafios do setor.

No top cinco das profissões que mais crescerão nos próximos cinco anos estão ainda os condutores de camiões ligeiros e de entrega, os software e app developers, alguns trabalhadores da construção e os funcionários de vendas das lojas.

Já no top 15 aparecem também profissionais de enfermagem e profissionais que ajudam com cuidados pessoais, o que é relevante numa altura em que vários países (incluindo, Portugal) têm assistido a um envelhecimento da sua população. “O envelhecimento das populações incentiva o crescimento de empregos na área da saúde, como profissionais de enfermagem”, sublinha o Fórum Económico Mundial.

Profissões em perigo

Trabalhadores das bilheteiras são dos mais ameaçados.Unsplash

O outro lado da moeda é ocupado pelas profissões que mais vão encolher nos próximos anos, sendo que o Fórum Económico Mundial estima que 92 milhões de empregos serão eliminados nesta década à boleia dos fatores já mencionados.

Em maior perigo estão os trabalhadores de bilheteiras, os assistentes administrativos e secretários executivos, os trabalhadores da limpeza e da manutenção de edifícios e os contabilistas e auditores.

Em respostas enviadas ao ECO, a professora Priscila Ferreira explica que este decréscimo “resulta, em grande medida, da crescente digitalização e automação dos serviços, com sistemas de atendimento automático, software de gestão e inteligência artificial a assumirem muitas das tarefas anteriormente desempenhadas por pessoas”.

Na visão da especialista, a automação e a digitalização vão afetar, sobretudo, tarefas rotineiras e repetitivas, libertando, assim, os trabalhadores para atividades que exigem competências humanas, da criatividade à tomada de decisões complexas.

“Ao substituir processos mecânicos por soluções automatizadas, a tecnologia aumenta a eficiência e a produtividade das empresas, mas também impõe desafios, exigindo a requalificação dos trabalhadores para adquirirem competências mais especializadas e adaptativas“, alerta ainda a professora da Universidade do Minho.

Competências tecnológicas são as mais desejadas

Competências tecnológicas são as mais desejadas nesta década.FreePik

Para fazer as previsões já mencionadas, o Fórum Económico Mundial ouviu mais de mil empregadores em todo o mundo (que têm sob a sua alçada 14 milhões de trabalhadores), e quase quatro em cada dez destes apontaram que as competências desejadas mudarão até 2030, em linha com o alerta deixado ao ECO pela professora Priscila Ferreira.

As competências tecnológicas são das mais importantes, estimando-se que a sua relevância crescerá mais rapidamente nos próximos cinco anos do que as demais. “A inteligência artificial (IA) e a big data estão no topo da lista, seguindo-se as redes, a cibersegurança e a literacia tecnológica“, detalha o Fórum Económico Mundial.

Competências tecnológicas deverão crescer em importância mais rapidamente que as demais nos próximos cinco anos. Inteligência artificial e big data estão no topo da lista.

Fórum Económico Mundial

Perante estas previsões, Rui Ferrão, CTO da Code for All_, considera que a maioria das funções — “ainda que em distintos graus” — exigirão competências de IA nos próximos anos.

“Profissões que incluem tarefas repetitivas ou que exigem processamento e análise extensiva de dados são especialmente suscetíveis a uma adoção rápida de soluções baseadas em inteligência artificial. Profissionais de saúde, marketing, comunicação ou educação, por exemplo, inserem-se neste grupo”, sublinha Rui Ferrão.

Em contraste, profissões onde a criatividade, inteligência emocional ou a componente relacional são predominantes “vão ser alvo de um impacto mais reduzido“, diz o mesmo, apontando, como exemplo, os artistas, cuidadores, terapeutas e cozinheiros. Neste caso, as ferramentas de IA serão usadas, sobretudo, para fins administrativos.

Já no que diz respeito à big data, o CTO da Code for All_ frisa que a relação entre esta tecnologia e a IA é “simbiótica”. “A inteligência artificial depende de grandes volumes de dados para treinar e melhorar modelos, enquanto as técnicas de big data beneficiam de algoritmos de IA para análise e processamento de informação“, esclarece.

Parece-me urgente formar mais profissionais em cibersegurança, uma vez que a procura em muito supera a oferta atual.

Rui Ferrão

CTO da Code for All_

Esta dinâmica faz, portanto, um “crescimento substancial” também da procura de competências em big data, sendo fundamental reforçar as competências técnicas, nomeadamente, em análise e visualização de dados, business intelligence, e plataformas cloud.

Já no que diz respeito à cibersegurança, Rui Ferrão considera que “numa economia cada vez mais digital, a relevância da cibersegurança tende a aumentar consideravelmente. O número crescente de dispositivos ligados à Internet e o correspondente aumento exponencial do volume de dados está a expor todas as áreas de negócio a riscos significativos de ataques. Parece-me, por isso, urgente formar mais profissionais em cibersegurança, uma vez que a procura em muito supera a oferta atual“.

Saldo positivo

Agricultores trabalham num campo recém-plantado com couves numa produção agrícola na zona da Lourinhã.TIAGO PETINGA/LUSA

Com 170 milhões de empregos a serem criados nesta década e 92 milhões de empregos a serem eliminados, haverá um saldo positivo de cerca de 78 milhões de empregos, de acordo com estimativas do Fórum Económico Mundial. “Ajudar os trabalhadores atingir o equilíbrio certo de competências técnicas e humanas será vital à medida que o futuro do trabalho evoluí”, comenta essa entidade, no referido relatório.

No caso específico português, a baixa flexibilidade e mobilidade do mercado de trabalho “são preocupantes” num cenário de transformação acelerada, entende a professora Priscila Ferreira. “Estas limitações dificultam a adaptação às mudanças tecnológicas e económicas, tornando a transição dos trabalhadores para novos setores ou funções mais desafiantes. Como consequência, pode aumentar o desemprego estrutural e agravar o desajuste entre as competências disponíveis e as exigências do mercado“, prevê.

Deste modo, e para maximizar os benefícios e mitigar os riscos, a especialista da Universidade do Minho defende políticas que conciliem a flexibilidade laboral com proteção social e investimento em formação contínua. “Um mercado de trabalho mais dinâmico e resiliente permitirá uma melhor adaptação às transformações tecnológicas e económicas, promovendo uma economia mais competitiva e sustentável”, remata.

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