Sondagens: “Falar mal de umas é falar mal da atividade em si”
As sondagens ainda fazem sentido? António Salvador, managing director da Intercampus, e Almeida Ribeiro, diretor-geral da Aximage, desmistificam os mitos à volta deste tipo de medição da opinião.

A primeira volta das presidenciais de 2026 terminou com António José Seguro e André Ventura como vencedores. Nem todas as sondagens lançadas neste mês previam este cenário, que não parecia estar em cima da mesa antes do início da campanha eleitoral. Nas posições seguintes, os dados também não pareciam facilitar o tão falado ‘voto útil’. As sondagens ainda são importantes tendo em conta este cenário?
António Salvador, managing director da Intercampus e presidente do conselho de administração do Grupo GfK Portugal, e Almeida Ribeiro, diretor-geral da Aximage, são rápidos a lembrar que as sondagens são apenas um instrumento de análise.
“As sondagens do meu ponto de vista são sempre importantes porque dão informação ao cidadão. Pessoalmente como cidadão, prefiro ter informação do que não ter, naturalmente. É importante que o cidadão perceba se o que pensa tem uma difusão ampla ou não. Pode nem lhe interessar, mas isso ele relevará se é importante ou não. Se não houver, é um défice”, aponta António Salvador.
Ao mesmo tempo, o managing director da Intercampus alerta que o mundo das sondagens não se cinge apenas às eleitorais, que ocupam apenas cerca de 20% da faturação anual de determinadas empresas do setor. “O resto da nossa atividade, pelo menos naquilo que genericamente se designa por estudos ad hoc, é baseada nos mesmos princípios metodológicos, na mesma lógica profissional, é tudo feito da mesma forma. Falar mal de umas é falar mal da atividade em si“.
Aponta ainda que, no geral, “as sondagens fazem parte do dia-a-dia“, sendo utilizadas por governos, como o australiano, para perceber a cor menos agradável possível para os maços de tabaco, mas também em bancos que querem perceber as condições de sucesso de um produto.
Por sua vez, Almeida Ribeiro, nota que as sondagens “são importantes porque as campanhas também continuam a ser importantes. E são um elemento de informação aos eleitores”. “Permitem ao cidadão sair do domínio da opinião subjetiva. Passam a ter uma noção objetiva de qual é o movimento de opinião”, acrescenta.
O responsável pela Aximage considera que a influência das sondagens nos votos são uma não questão. “A escolaridade, a simpatia partidária também influenciam”, exemplifica. Na sua opinião, existem “pessoas que descredibilizam porque não gostam das sondagens que lhes dizem respeito”.
A mesma ideia de ‘descredibilização’ é apontada por António Salvador da Intercampus. “Quem fica bem no filme diz que elas são interessantes. Quem não fica bem, diz que não. Também há quem fique bem e tente apelar ao voto, porque uma das consequências potenciais de uma sondagem é a abstenção por certeza de vitória“, explica o managing director da Intercampus.
Nos últimos dias da campanha, as três sondagens divulgadas apontavam todas para a passagem de André Ventura à segunda volta, mas divergiam em relação à passagem de António José Seguro, João Cotrim de Figueiredo e Luís Marques Mendes. Como explicar estas discrepâncias?
António Salvador nota que numa sondagem, falando em sentido geral, questões como o tipo de metodologia escolhida — com as entrevistas telefónicas a serem mais rápidas e uma maior dispersão nacional e a entrevista presencial com mais taxa de participação — e o próprio questionário — “quando fazemos perguntas de forma universal elas têm de ser feitas com especial cuidado”– podem influenciar os dados.
No caso concreto destas eleições, considera que a principal razão “foi a grande dificuldade em tomar uma decisão”, isto é, os indecisos. “Houve muita indecisão. Na sondagem que fizemos em dezembro, tínhamos 11,6% de indecisos. Na que fizemos em janeiro, tínhamos 19,6%. Aumentou 8%. A indecisão diminui com o aproximar do ato natural, da data do momento, do ato natural. Aqui foi ao contrário”, explica. No inquérito à boca das urnas da SIC e da TVI, realizada pela ICS/ISCTE, GkK-Metris e pela Pitagórica, foi revelado que um terço dos eleitores só decidiram o seu voto na semana final. 14% decidiram mesmo no próprio dia da eleição.
Este cenário já se tinha verificado aquando da maioria absoluta de António Costa “em que 24% das pessoas disseram que tinham decidido apenas na última semana e dessas 50% (12% do total) nos últimos dois dias, ou seja, já após a campanha ter terminado, no período de reflexão”.
Desde 20 de janeiro de 2025 até 13 de janeiro de 2026 foram lançadas 32 sondagens, de acordo com uma compilação do jornal Público. Só em campanha, foram pelo menos quatro, mais os 12 dias de tracking poll da CNN Portugal e da TVI.
Para António Salvador da Intercampus foram divulgadas essa quantidade de sondagens “porque os órgãos de comunicação social exibiram interesse. Porque de alguma forma estão a fazer um investimento. Essa pergunta quase que devia ser dirigida a esses órgãos de comunicação social, que acham que é interessante e importante que elas existam“.
Almeida Ribeiro da Aximage considera que esta quantidade não baralha os eleitores. “Os eleitores sabem perfeitamente escolher a informação relevante. Partir do princípio que eles não são capazes de fazer isso é realmente mais um daqueles mitos urbanos que as pessoas que têm maus resultados nas sondagens tendem sempre a dizer”.
Em relação à tracking poll da CNN Portugal e da TVI, ambos concordam em dizer que elas também tem validade. António Salvador explica que enquanto “uma sondagem é uma fotografia do momento“, “uma tracking poll são várias fotografias em dias sucessivos, que é como se fosse um filme”.
“Os princípios em que se baseia, a forma como é realizada, são exatamente iguais a uma sondagem. Com a particularidade que sai o dia mais antigo e entra o dia mais recente”, isto é, todos os dias são realizadas novas entrevistas que são adicionadas às entrevistas dos dois dias anteriores. Já os dados do terceiro dia anterior são retirados da sondagem. O que é publicado em cada dia é assim soma das novas entrevistas com a dos dois dias anteriores.
Apesar disso, nota que, por a amostra ser pequena “não se pode intuir por um dia só que há um significado. Não se pode exagerar o significado da informação obtida”. “Se quiser, em vez de se analisar todos os dias, podia-se analisar, por exemplo, de três a três dias, quando houver uma renovação total da amostra em estudo”, sugere.
Mesmo as amostras são semelhantes no seu conjunto. “A amostra diária é muito mais pequena. A amostra apresentada, embora não seja uma amostra muito robusta em regra, é uma amostra com a mesma dimensão de uma sondagem – 600 entrevistas em regra. Ninguém faz menos com isso”, aponta.
Analisando as fichas técnicas das tracking poll, é possível verificar que as amostras rondavam cerca de 200 entrevistas diárias — num total de cerca de 600 –, até ser aumentado as entrevistas diárias para 350 nos dias 13 e 14 de janeiro, com o último dia — 15 de janeiro — com 500. Sendo assim, o último dos 12 dias de tracking poll reuniu 1200 entrevistas. Em comparação, a sondagem da Universidade Católica para a RTP, Antena 1 e Público, revela a 14 de janeiro, possuiu uma amostra de 1770 inquiridos. Mas houve sondagens para todos os gostos, com o mínimo em janeiro a rondar os 600.
Com base neste contexto, as sondagens ainda têm uma boa reputação? Ambos são perentórios a considerar que sim. “A reputação das sondagens não desceu para patamares diferentes daqueles que tinha anteriormente com este ato eleitoral. A profusão das sondagens provavelmente parte por um maior interesse mediático que havia das mesmas. E isso obviamente tem a ver com os órgãos de comunicação social e o seu interesse em ter essa informação”, conclui António Salvador.
Almeida Ribeiro lembra que as sondagens assentem na estatística — “são ciência de manual” e que descredibilizá-las é “discutir a validade da matemática”. Lembra também que muitas críticas são feitas são aos títulos das notícias. “As empresas de sondagens não fazem títulos de jornal. Medem a opinião pública. As pessoas avaliam as sondagens a partir dos títulos.”
(artigo corrigido às 9h37 em relação ao número de sondagens publicadas em campanha eleitoral)
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