El Dorado português: O lítio e a oportunidade perdida?

  • Paulo Monteiro Rosa
  • 9:48

Para maximizar o valor económico, Portugal deve considerar não só a extração de lítio, mas também a refinação e a produção de componentes para baterias e até atrair clusters para a produção automóvel.

O lítio é o metal mais leve da tabela periódica (número atómico 3), o que o torna essencial nos veículos elétricos, ajudando a reduzir o peso dos automóveis. Em termos de massa, é superado apenas pelos gases hidrogénio e hélio, os elementos mais abundantes do universo. Altamente reativo, desempenha um papel fundamental na transição energética, sendo a matéria-prima essencial para baterias de iões de lítio. Estas baterias são amplamente utilizadas em veículos elétricos, armazenamento de energia renovável e dispositivos eletrónicos, como telemóveis e computadores portáteis. A crescente procura global por soluções sustentáveis e a redução da dependência dos combustíveis fósseis tornaram o lítio um recurso estratégico, com impacto direto na economia e na geopolítica.

Os principais produtores mundiais incluem a Austrália, líder na extração de espodumena, e o Chile, que detém as maiores reservas de salmouras no Deserto do Atacama. A Argentina, juntamente com o Chile e a Bolívia, forma o chamado “Triângulo do Lítio”, região que concentra mais de 50% das reservas mundiais. A China e a Argentina desempenham papéis estratégicos, tanto na extração como no processamento. Na Europa, Portugal possui as maiores reservas conhecidas de lítio, principalmente nas regiões de Montalegre e Boticas, com potencial para reforçar a independência energética europeia.

Se devidamente explorado, o lítio pode desempenhar um papel relevante no abastecimento da União Europeia, reduzindo a dependência externa e fortalecendo a indústria local. No entanto, para maximizar o valor económico, Portugal deve considerar não só a extração, mas também a refinação e a produção de componentes para baterias, bem como ser mais ambicioso e atrair, porque não, clusters industriais para a produção automóvel, abastecidos por energia barata – um fator crucial para uma economia robusta – apostando nos mais recentes projetos de produção de eletricidade, que podem incluir pequenos reatores modulares (SMR), tornando-a ainda mais atrativa. Portugal não pode correr o risco de apenas exportar a matéria-prima e deixar o maior valor acrescentado para outros países, como a China e os EUA ou nações europeias.

Porém, Portugal tem adotado uma postura ambígua em relação à exploração do lítio. Embora existam projetos em andamento para a extração, refinamento e produção de baterias, a burocracia e a oposição ambiental – apesar da sua extrema importância para garantir a sustentabilidade e a mitigação de impactos – não podem tornar-se dogmáticas ao ponto de paralisar decisões estratégicas. Se o país não avançar rapidamente, corre o risco de perder esta janela de oportunidade, uma vez que novas tecnologias, como baterias à base de sódio ou hidrogénio, podem reduzir a dependência do lítio no futuro.

Se não houvesse exploração de recursos em nenhuma parte do mundo, não haveria progresso. No entanto, ninguém quer que essa exploração aconteça no seu quintal. Perante esta postura, chega a ser paradoxal a atitude de muitos que se lamentam do infortúnio de Portugal quanto aos recursos naturais, referindo frequentemente que é um ‘azar’ a inexistência de petróleo no país, mas acreditando que, se houvesse, seríamos riquíssimos. A verdade é que há petróleo um pouco por todo o lado, incluindo em Portugal. Ainda assim, se tivéssemos reservas tão abundantes como no Dubai, é provável que entraves dogmáticos impedissem a sua exploração. São as manifestações anti-exploração de recursos, com telemóveis na mão. Não se pode querer sol na eira e chuva no nabal ao mesmo tempo — isso não existe. Ou, quando existe, significa que uns ficam com os benefícios do progresso, sem que a exploração ocorra no seu território, enquanto outros, como muitos países africanos, são os locais da exploração, mas não colhem os frutos desse progresso. As riquezas extraídas vão parar à Europa, aos EUA e à China.

A Quarta Revolução Industrial está em curso, marcada pela integração de tecnologias avançadas como inteligência artificial, automação, robótica, IoT (Internet das Coisas) e energias renováveis. O lítio desempenha um papel crucial, permitindo a eletrificação dos transportes e o armazenamento de energia, fundamentais para a transição energética e digitalização da economia. Ao contrário das revoluções anteriores, impulsionadas pelo vapor, eletricidade e informática, esta destaca-se pela convergência entre os mundos físico, digital e biológico, tornando os processos produtivos mais eficientes e sustentáveis. As baterias de lítio e a inteligência artificial são exemplos claros dessa mudança estrutural.

O carbonato de lítio é uma das principais cotações dos compostos de lítio (Li₂CO₃) a nível global, mas o hidróxido de lítio (LiOH), outra forma de lítio muito importante, especialmente para baterias de iões de lítio de maior desempenho, também tem grande relevância.

O mercado do lítio tem registado grandes oscilações nos últimos anos. Entre 2020 e o início de 2021, os preços do carbonato de lítio mantiveram-se baixos devido à fraca procura ditada pela pandemia de Covid-19 e a uma oferta estável. Após uma forte subida entre 2021 e 2022, impulsionada pelo crescimento da mobilidade elétrica, os preços caíram 80% em 2023, devido ao aumento da oferta e à desaceleração da procura, especialmente na China, onde alterações aos incentivos fiscais afetaram a dinâmica do setor. Em 2024 e 2025, os preços estabilizaram nos 75.000 CNY/T.

O carbonato de lítio (Li₂CO₃) contém cerca de 18,8% de lítio puro (Li). Para obter 1 kg de lítio, são necessários aproximadamente 5,3 kg de carbonato de lítio. Por exemplo, a bateria do BYD Seal (82,5 kWh) utiliza 8,8 kg de lítio, o que corresponde a 46,7 kg de carbonato de lítio, de acordo com a Fastmarkets, plataforma especializada na análise de mercados de commodities, incluindo metais industriais, nomeadamente para baterias (como lítio, níquel e cobalto). Aos preços atuais do carbonato de lítio no mercado chinês, o custo aproximado seria de 3.500 yuans (cerca de 500 dólares). Esses valores são importantes para entender os custos na produção de baterias de veículos elétricos e outros dispositivos.

Em Boticas e Montalegre, o lítio é extraído principalmente da espodumena, o minério de lítio mais comum, e é processado para produzir carbonato de lítio ou hidróxido de lítio, dependendo do processo de refinação utilizado. O carbonato de lítio, quando destinado diretamente à indústria de baterias, já está pronto para algumas aplicações, mas pode ser necessário convertê-lo em hidróxido de lítio para outras. Caso um país apenas extraia espodumena sem a refinar, estará a vender uma matéria-prima bruta, o que resulta em menor valor acrescentado. No entanto, se refinar até ao estágio de carbonato ou hidróxido, poderá lucrar mais e atrair fábricas de baterias.

Segundo as estimativas da Savannah Resources de junho de 2023, publicadas no seu site, as reservas de espodumena em Boticas têm um potencial de 28 milhões de toneladas, que podem ser transformadas em carbonato de lítio. A espodumena é um mineral que contém lítio em forma de silicato de lítio (LiAlSi₂O₆) e pode conter até 3,73% de lítio puro (Li), o que equivale até 8,03% de Li₂O (óxido de lítio). Além disso, 18,8% do peso do carbonato de lítio é lítio puro (Li), ou seja, 5,3 kg de carbonato de lítio contêm 1 kg de lítio puro. Assim, 1 kg de espodumena pode conter até 37,3 gramas de lítio puro, o que corresponderia a quase 200 gramas de carbonato de lítio. Portanto, 28 milhões de toneladas de espodumena representariam cerca de 5,6 milhões de toneladas de carbonato de lítio, com um valor de mercado atual de cerca de 10.000 euros por tonelada, o que significaria que as reservas de Boticas poderiam valer aproximadamente 56 mil milhões de euros.

No entanto, de acordo com as estimativas de junho de 2023, o teor de lítio nas reservas de espodumena em Boticas é muito inferior a 3,73%. Na realidade, o teor de lítio puro é de apenas cerca de 0,49% (equivalente a 1,05% de óxido de lítio, Li₂O), o que resulta em 293.400 toneladas de óxido de lítio, correspondendo a 725.521 toneladas de carbonato de lítio, totalizando um valor de cerca de 7,2 mil milhões de euros. Ainda assim, continua a ser uma grande oportunidade — um verdadeiro El Dorado branco — e não pode ser desperdiçada, com grande potencial para o desenvolvimento de um cluster industrial.

No entanto, é essencial garantir uma proteção responsável, minimizando os impactos ambientais e, não só respeitando as comunidades locais, mas também fomentando o crescimento económico. O objetivo é transformar a região, como um ‘Silicon Valley’ do Barroso, garantindo que os estágios de maior valor acrescentado permaneçam na região, equilibrando o crescimento económico com a sustentabilidade.

 

  • Paulo Monteiro Rosa
  • Economista Sénior, Banco Carregosa

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

El Dorado português: O lítio e a oportunidade perdida?

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião