Em tempo de tarifas, setor da metalomecânica aposta na descarbonização para se diferenciar
O aumento das taxas aduaneiras dos EUA sobre o aço e alumínio e a incerteza regulatória sobre as normas europeias de sustentabilidade foram o tema do quarto think tank sobre inovação energética.
Os últimos cinco anos têm sido particularmente desafiantes para a sociedade, mas em particular para as empresas que tentam navegar entre a maré brava que tem sido a política e a economia mundiais. Depois de uma pandemia e duas guerras, a Europa enfrenta agora as consequências de uma guerra comercial iniciada em Washington, que nas últimas semanas confirmou a intenção de impor tarifas a parte das exportações com origem na União Europeia.
O sector metalomecânico é um dos mais afetados pelo agravamento aduaneiro e foi o tema central do quarto e último episódio do Think Tank da Helexia Portugal, com a Deloitte e a PLMJ, que teve o ECO como media partner. A conversa moderada por André Veríssimo, subdiretor do ECO, contou com a participação de Inês Costa, associate partner da Deloitte, Madalena Perestrelo de Oliveira, consultora sénior da PLMJ, Luís Pinho, diretor-geral da Helexia Portugal, e Pedro Teixeira, partner e CEO do Fapricela Group.
Há mais de 25 anos que o Fapricela Group exporta para os Estados Unidos, o que torna esta questão das tarifas “um tema que nos preocupa pelo impacto que pode ter”, explica o líder empresarial. Para Pedro Teixeira, esta realidade acrescenta um desafio à competitividade da empresa portuguesa, desde logo pelo aumento de preços. “Os EUA, de uma semana para a outra, subiram mais de 20% o preço destes produtos”, aponta.
Com início em abril, os EUA vão aplicar uma taxa de 25% sobre o aço, o alumínio e produtos derivados importados, afetando diretamente empresas portuguesas como a Fapricela. “Obviamente este é um tema que nos preocupa pelo impacto que pode ter no setor”, reconhece.
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O sector metalomecânico é um dos mais afetados pelo agravamento aduaneiro e tema central do quarto e último episódio do Think Tank da Helexia Portugal -
Pedro Teixeira, Partner & CEO da FAPRICELA GROUP -
Inês Costa, Associate Partner na Deloitte -
Madalena Perestrelo de Oliveira, Consultora Sénior PLMJ -
Luis Pinho, Helexia Country Director Portugal
Por outro lado, o recuo norte-americano nas políticas de sustentabilidade é sinal de preocupação para o mundo e, em particular, para a Europa. “O que as empresas mais temem é a instabilidade”, acrescenta Inês Costa. A consultora da Deloitte refere-se não apenas às tarifas e ao negacionismo institucional nos EUA, mas também à “revisão da regulação ao nível da UE”, que fazem com que as empresas “se retraiam”. “O risco financeiro é real” para as organizações que esqueçam a sustentabilidade como parte essencial do seu modelo de negócio.
Em território comunitário, a Comissão Europeia anunciou, no início do ano, uma reformulação das regras de reporte de sustentabilidade corporativa para tornar o mercado interno mais competitivo e para aliviar a carga burocrática sobre as empresas. Os especialistas concordam que a regulação europeia pode mudar, mas o caminho da sustentabilidade é irreversível. Madalena Perestrelo de Oliveira, da PLMJ, alerta para o risco de retrocessos. “Quando retiramos 80% das empresas da obrigação de reporte, não estamos a simplificar, estamos a isentar”, lamenta.
Sustentabilidade como mais-valia
O sector metalomecânico enfrenta desafios complexos, mas a inovação e a sustentabilidade não ficam para trás. Pedro Teixeira acredita que quem agir primeiro terá vantagem mais à frente no percurso. “Trabalhando antecipadamente, vamos diferenciar-nos no mercado”, acredita.
As empresas procuram reduzir custos energéticos e baixar as emissões de carbono, mas há barreiras burocráticas que continuam a dificultar maiores avanços. “Temos muitos projetos prontos, mas que ficam meses à espera de certificação”, critica Luís Pinho. Para o responsável da Helexia Portugal, “eficiência energética, eletrificação e monitorização do consumo” devem ser os três pilares do caminho traçado pelas organizações.
A Fapricela já implementou medidas como a instalação da maior central fotovoltaica em cobertura em Portugal, com capacidade de 6,3 MW. “Representa entre 17% a 20% do nosso consumo total. É um ganho tremendo”, afirma Pedro Teixeira. A alimentar a competitividade está ainda o desenvolvimento de “produtos com taxa carbónica reduzida”, acrescenta.
Inês Costa relembra que o sistema financeiro já reconhece a importância deste caminho, que será cada vez mais importante para o financiamento dos negócios. “Empresas que não apostem na descarbonização serão preteridas pelo sistema financeiro”, diz.
Veja o episódio completo aqui:
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