“Viés anti-Trump” causa demissões na BBC. Quais as consequências?
- Carla Borges Ferreira
- 10 Novembro 2025
A BBC está a ferro e fogo com as demissões do diretor-geral e da CEO da BBC News, na sequência da alegada deturpação de um discurso de Trump no ataque ao Capitólio. Saiba o que está em causa.
“Viés anti-Trump” causa demissões na BBC. Quais as consequências?
- Carla Borges Ferreira
- 10 Novembro 2025
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Qual é a polémica e como começou?
A polémica começou na semana passada, após Michael Prescott, antigo assessor independente do comité de normas editoriais da BBC, ter acusado a emissora, num memorando, de “viés sistémico” na cobertura de Donald Trump. O caso foi revelado pelo The Telegraph, e o documento interno não se limita a criticar a o tratamento editorial dado ao presidente dos EUA.
Além do “viés anti-Trump”, a BBC é acusada de ter publicado reportagens “mal pesquisadas” sobre racismo, enviar poucas notificações aos leitores sobre migração e requerentes de asilo, fazer uma “cobertura unilateral sobre pessoas transgénero”, possuir “um viés anti-Israel na BBC Árabe” e ainda questões mais amplas na cobertura do conflito em Gaza.
Em resposta, a CEO demissionária, Deborah Turness, afirmou que a BBC “não possui viés institucional”.
Proxima Pergunta: Quem são os diretores demissionários?
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Quem são os diretores demissionários?
Tim Davie é o diretor-geral demissionário da BBC. No cargo desde 2020, foi responsável por todo o grupo, tendo a seu cargo a televisão, rádio e digital. Tim Davie é a 17.ª pessoa a ocupar esse cargo na história do operador público britânico.
Davie trabalhava no grupo há 20 anos. Antes de se tornar diretor-geral, foi, durante sete anos, diretor executivo da BBC Studios. Quando subiu a diretor-geral, afirmou que sua prioridade era “renovar o compromisso com a imparcialidade”.
Deborah Turness é a CEO demissionária da BBC News, função que desempenhava desde 2022, tendo a seu cargo a programação e informação. Era responsável máxima por uma equipa de cerca de 6.000 pessoas e por um serviço global, transmitido em mais de 40 línguas.
Deborah Turness foi CEO da ITN (Independent Television News), presidente da NBC News e da NBC News International, e editora da ITV News (Independent Television News). Na NBC, foi a primeira mulher na história dos EUA a liderar o departamento de informação. Foi também a primeira editora da ITV News, além de ser a editora mais jovem da história do canal.
Proxima Pergunta: O que motivou estas demissões?
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O que motivou estas demissões?
A BBC está a ser acusada de ter deturpado as declarações de Donald Trump na altura do ataque ao Capitólio, num documentário do programa “Panorama”, transmitido em outubro de 2024.
O programa apresentava algumas declarações de um discurso que Trump fez em Washington a 6 de janeiro de 2021, o dia do motim pós-eleitoral no Capitólio. O documentário fez parecer que Trump dizia que os seus apoiantes deveriam “ir até ao Capitólio” e “lutar com todas as forças”. Na realidade, Trump terá dito que deviam “apoiar os nossos corajosos senadores e deputados”. A frase “lutar com todas as forças” pertencia a uma parte diferente do discurso.
Este caso de alegada manipulação do discurso do Presidente dos EUA foi inicialmente divulgado pelo The Telegraph, no passado dia 3 de novembro, e desencadeou fortes reações contra a estação pública britânica.
Numa mensagem aos colaboradores da empresa em que anunciou a decisão de se demitir, transmitida pela BBC, Davie reconheceu que “o debate atual em torno da informação da BBC contribuiu para a decisão”. “Embora a BBC funcione bem no geral, foram cometidos erros e, em última análise, o diretor-geral deve assumir a responsabilidade”, acrescentou.
Já a presidente executiva da BBC News, Deborah Turness, que também se demitiu, explicou numa carta aos funcionários que “a atual controvérsia em torno da reportagem Panorama sobre o Presidente Trump chegou a um ponto em que prejudica a BBC“.
As demissões acontecem num contexto conturbado para a BBC, que já este ano foi criticada por transmitir um documentário sobre Gaza sem revelar ligações do protagonista ao Hamas, e pela saída de Gary Lineker, o apresentador mais bem pago da estação, devido a publicações nas redes sociais que violaram as diretrizes de neutralidade.
O presidente da BBC, Samir Shah, deverá apresentar um pedido de desculpas por escrito a uma comissão parlamentar esta segunda-feira.
Proxima Pergunta: Quais têm sido as reações a este caso?
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Quais têm sido as reações a este caso?
“É um dia triste para a BBC”, começou desde logo por afirmar o presidente da estação pública britânica, Samir Shah, em comunicado, no domingo. Samir Shah referiu que “Tim foi um excelente diretor-geral nos últimos cinco anos”, mas enfrentou “uma pressão persistente”, que o levou a tomar a decisão de se demitir. Já, esta segunda-feira, na carta ao presidente da comissão parlamentar de Cultura e Media e tornada pública, o responsável pedia desculpa. “Reconhecemos que a forma como o discurso foi editado deu a impressão de um apelo direto à ação violenta. A BBC deseja pedir desculpas por este erro de julgamento“
A ministra britânica da Cultura, Lisa Nandy, considerou hoje o caso “extremamente grave”, e o presidente da BBC, Samir Shah, foi chamado a prestar esclarecimentos perante uma comissão parlamentar, já esta segunda-feira. Em declarações na manhã desta segunda-feira à BBC News, Lisa Nandy expressou preocupação com as decisões editoriais da BBC, que “nem sempre respondem aos mais elevados padrões”.
“Não se trata apenas do programa Panorama, embora seja extremamente grave, mas de uma série de alegações muito graves, sendo a mais grave delas a existência de um preconceito sistémico na forma como os temas difíceis são tratados pela BBC”, afirmou a ministra da Cultura.
Citada no Telegraph, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, denunciou uma montagem “deliberadamente desonesta”, criticando “informações 100% falsas”.
Quem também se apressou a reagir foi Donald Trump. “As pessoas mais importantes da BBC, incluindo Tim Davie, o chefe, estão todas se demitindo/foram demitidas porque foram apanhadas a adulterar o meu ótimo (PERFEITO!) discurso de 6 de janeiro”, escreveu na rede Truth Social. “Agradeço ao The Telegraph por expor esses ‘jornalistas’ corruptos. São pessoas muito desonestas que tentaram interferir numa eleição presidencial. Além de tudo, são de um país estrangeiro, um país que muitos consideram nosso principal aliado. Que coisa terrível.”
O Sindicato Nacional dos Jornalistas também já se pronunciou, com Laura Davison, secretária-geral, a afirmar que o próximo diretor-geral deve ser “politicamente independente” e capaz de enfrentar pressões, incluindo “notícias falsas potencializadas por inteligência artificial”.
Proxima Pergunta: Pode ter consequências no financiamento da BBC?
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Pode ter consequências no financiamento da BBC?
Sim, pode vir a ter, pois esta polémica antecede o arranque das negociações sobre o financiamento da BBC.
As famílias britânicas pagam atualmente uma taxa anual, mas o modelo começa a ser contestado. A “Royal Charter”, que define os objetivos, a missão e os propósitos públicos da BBC, para além da governança e mecanismos regulatórios, está em vigor desde 1 de janeiro de 2017.
O governo britânico já anunciou uma revisão do método de financiamento do operador para o futuro, sendo que o atual acordo em vigor expira no final do ano de 2027.
O futuro da BBC dependerá agora de não apenas da escolha de novos líderes, mas também da sua capacidade de restaurar a confiança de cidadãos e reguladores, num contexto em que os media estão cada vez mais pressionados e o consumo se dispersa para outras plataformas.