Com o fim das moratórias e do lay-off, “o pior ainda está para vir”premium

Alexandre Meireles, presidente da Anje, teme que o pior ainda está para vir com o final das moratórias e do lay-off e alerta para uma grande vaga de desemprego e falências.

Numa altura que o Governo anunciou um novo pacote de apoios à economia para ajudar as empresas a minimizar os impactos da pandemia, nomeadamente o prolongamento do apoio à retoma progressiva, o alargamento do lay-off simplificado e o reforço dos subsídios a fundo perdido, o presidente da Associação Nacional de Jovens Empresários (Anje) alerta que existem "empresas que ainda não estão a receber os apoios".

Os efeitos da pandemia da Covid-19 foram devastadores para grande parte do tecido empresarial português e Alexandre Meireles prevê que o "pior ainda esteja para vir com o final das moratórias previstas para o final de setembro e do lay-off". Destaca que são "necessárias medidas urgentes e um planeamento bem feito", caso contrário prevê que nessa altura "vamos assistir a uma grande vaga de desemprego e falências" e um "incremento significativo da taxa de desemprego".

O presidente da Anje reconhece a resiliência das empresas e a capacidade de adaptação, mas alerta que "a resiliência tem limites e os empresários estão no seu limite".

Em relação ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), Alexandre Meireles tem esperança que o investimento público da “bazuca” crie externalidades positivas no tecido económico e social, ao mesmo tempo que diz recear que as empresas tenham dificuldades em aceder aos incentivos e ao investimento.

Para fazer face aos prejuízos, o presidente da Anje sugere um plano de compra de dívida por parte do Banco do Fomento, que "se poderia transformar em capital". Por outro lado, sugere a criação de uma linha de apoio à tesouraria para que as empresas possam ter capacidade de investimento e possam estar preparadas para o ciclo de recuperação económica.

Com a pandemia também estamos a assistir a uma aceleração da transição digital. A Associação Nacional de Jovens Empresários está a apostar numa estratégia para a transição digital em que o principal objetivo é "transformar as PME que não têm como base a tecnologia". A Anje pretende apoiar 3.000 empresas através de um investimento de um milhão de euros. Para Alexandre Meireles, a parte digital "está a ser fundamental para a sobrevivência de alguns setores que se tiveram de reinventar", com novos canais de distribuição e de venda.

A Associação Nacional de Jovens Empresários (Anje) está a apostar numa estratégia para a transição digital em parceria com os municípios. Em que consiste essa estratégia? Qual o investimento previsto?

A nossa estratégia digital é ambiciosa e não a poderíamos pôr em prática se não tivéssemos parceiros. Os municípios conhecem bem o tecido empresarial da sua zona de influência e as suas necessidades e, por isso, acreditamos que com eles conseguimos chegar mais longe. O que pretendemos é ajudar a transformar as PME que não tem como base a tecnologia, para isso disponibilizamos mentorias, formações para capacitar as equipas e ajudá-las nesta mudança. Temos um objetivo ambicioso de apoiar 3.000 empresas, 30 municípios e um investimento global de 1 milhão de euros.

A pandemia acelerou a transição digital? É uma das vantagens desta crise?

A pandemia é tão grave que não sei se vantagem é a palavra certa, mas seguramente que tem sido uma das áreas de maior aposta. As empresas sentiram necessidade de se transformar e de forma rápida para responder aos problemas. Passada a pandemia, o mais importante será aproveitar o que de bom foi feito nesta área e continuar a investir, para que não haja regressão e para que haja continuação deste crescimento. É exatamente por isto que a ANJE está a investir, e muito, nesta área. Queremos ser parceiros do Governo e dos municípios na transição digital, para ajudar Portugal na recuperação económica.

A Anje vai investir um milhão de euros na capacitação das pequenas e médias empresas (PME). Quais os principais objetivos?

Como referi anteriormente, o objetivo é ajudar as empresas a modernizar-se e a ter mais ferramentas para ultrapassarem a crise. Nesse sentido, a ANJE tem em curso conversações com os municípios para realizar parcerias que permitam chegar a mais empresas. Queremos inserir tecnologia em empresas do setor mais tradicional para que possam ser mais eficientes, consigam ter uma melhor relação com os seus clientes, otimizem os seus processos internos e aumentem o seu canal de vendas. No final do ano queremos estar a desenvolver este programa em 30 municípios, impactando 3.000 empresas.

Na sua ótica, quais os efeitos da pandemia da Covid-19 nas PME?

Foram devastadores, principalmente em alguns setores que viram as suas empresas fechadas quase na totalidade. Nalguns casos os negócios estão fechados há cerca de um ano. Acrescentando o facto de a maior parte das empresas estarem, antes do Covid, num ciclo de investimento forte, o que acrescentou ainda mais problemas de tesouraria. Não sendo já por si um cenário bom, temo que o pior ainda esteja para vir com o final das moratórias e dos lay-offs e que nessa altura possamos ter uma grande vaga de desemprego e falências.

Os novos apoios que o Governo anunciou, nomeadamente o prolongamento do apoio à retoma progressiva, o alargamento do lay-off simplificado e o reforço dos subsídios a fundo perdido, são suficientes para minimizar o impacto? Essas verbas estão efetivamente a chegar às empresas?

O problema da burocracia continua. Continuamos a receber muitas queixas de empresas que ainda não estão a receber os apoios. Este é e continua a ser o grande tema. É preciso celeridade, transparência e muito menos burocracia. A situação é de emergência.

Identifica também casos em que os apoios tardam em chegar às empresas?

Sim, o que vemos junto dos nossos associados é que o processo é complexo e não responde de forma célere às suas necessidades, porque estão a precisar no imediato e não sabem quando é que os recursos chegarão.

Como é que a pandemia está a afetar a dinâmica das empresas?

Para alguns setores implicou quebras de quase 100%, o que obrigou a um esforço redobrado de adaptação. A parte digital está a ser fundamental para a sobrevivência de alguns setores que se tiveram de reinventar, com novos canais de distribuição e de venda. Não posso deixar de dar os parabéns aos empresários portugueses pela sua resiliência, está a ser notável.

Quais os setores mais afetados pela pandemia?

O setor do turismo e tudo o que o envolve, o setor da restauração e bebidas, o comércio e serviços, bem como o setor dos eventos.

A Covid-19 veio provar a resiliência das pequenas e médias empresas portuguesas?

Está a ser notável. A capacidade de adaptação é um fator surpreendente, mas a resiliência tem limites e os empresários estão no seu limite. É preciso uma solução urgente para o tema das moratórias que permita uma transição mais suave a partir de setembro. Sem isto temo uma grande vaga de falências.

Alguns empresários ouvidos pelo ECO estão desiludidos com o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Consideram que é muito mais amigo do Estado do que do setor privado. Qual é a sua opinião?

Preferia que o investimento realizado fosse direcionado às empresas, pois delas depende, em larga medida, a criação de riqueza, investimento, emprego, inovação e desenvolvimento. De resto, as empresas portuguesas já provaram que em momentos difíceis, como a última crise económica de 2009-2013, são capazes de promover, com resiliência, iniciativa e ambição, a recuperação sustentada do país. Feita esta ressalva, estou esperançado que o investimento público da “bazuca” crie externalidades positivas no tecido económico e social, sobretudo se for aplicado de forma inteligente, responsável e transparente na transição digital e climática, na mobilidade, na I&D, na coesão territorial e na eficiência da Administração Pública.

Este último ponto, a eficiência da Administração Pública, é de crucial importância para a boa aplicação do novo pacote de fundos europeus. Se a máquina do Estado não for ágil, eficiente e proativa na gestão dos fundos, as empresas vão ter dificuldades em aceder aos incentivos e o investimento pode perder-se nas malhas da burocracia. É preciso que, nesta matéria, se aprenda com os erros do passado.

Teme uma onda de falência? E prevê que quando a retoma chegar várias empresas já não estarão para aproveitar a mesma?

Em setembro, com o fim das moratórias, caso nada seja feito para suavizar este momento, temo que tenhamos uma grande vaga de falências. São necessárias medidas urgentes e um planeamento bem feito para que em setembro não estejamos perante o encerramento de muitas empresas e com isso um incremento significativo da taxa de desemprego.

Deveria caminhar-se para um movimento de concentração de PME para que ganhem músculo e resiliência? O que impede que isso seja feito?

Como em todos os ciclos da economia esses movimentos vão existir e até são positivos. No entanto, para que sejam uma mais-valia para a economia, é importante que assegurem o emprego e melhorem as condições salariais dos seus recursos humanos. Mas para que a consolidação seja uma mais-valia, não a poderemos encarar apenas como forma de corte de custos e otimização de negócio, ela tem de trazer valor para a nova empresa e para o mercado. Para que tal seja possível, é importante que tenhamos um tecido empresarial dinâmico e inovador e mais colaborativo, mais moderno e que consiga encontrar caminhos diferenciadores para os seus negócios. Além disso precisamos de regras mais claras, apoios mais ágeis, mais formação por forma a construir um futuro melhor, com negócios prósperos.

Que tipos de instrumentos de capitalização seriam mais importantes para as PME?

Por um lado, um plano de compra de dívida por parte do Banco do Fomento, que se poderia transformar em capital para um plano mais longo de pagamento de dívida por parte das já muito endividadas PME. Por outro, uma linha de apoio a tesouraria para que as empresas possam ter capacidade de investimento e possam estar preparadas o ciclo de recuperação económica.

O facto de as grandes empresas à partida estarem excluídas de apoios no âmbito do Portugal 2030 será uma oportunidade para as PME? Elas vão ter capacidade para absorver esses apoios?

A ser confirmado será uma grande oportunidade para as PME portuguesas. O problema não está na capacidade das PME, mas sim na capacidade do Estado cumprir prazos, de ser transparente, de garantir que os fundos chegam a tempo e horas às empresas. Tendo isto assegurado, as PME terão capacidade para absorver a totalidade dos fundos.

Acredita que Portugal vai ter capacidade de executar todos os fundos que vão chegar no próximo ano ou há risco de se devolver verbas a Bruxelas?

Claro que há riscos, até porque temos exemplos de outros fundos que não soubemos executar. Tendo em conta o contexto, é da responsabilidade do Estado assegurar que erros do passado não se voltem a repetir. O Governo mostrou vontade através do Plano de Recuperação e Resiliência, agora resta saber se o conseguem pôr em prática. Infelizmente, devido ao histórico, os empresários têm muitas reservas. Mas é uma oportunidade única para o Estado provar que vai fazer diferente, os empresários ficam à espera que seja possível fazer diferente.

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