Garrett McNamara quer levar Portugal ao resto do mundo

Em Portugal para lançar o livro biográfico "Lobo do Mar", o surfista norte-americano conta ao ECO que alguns dos seus mais ambiciosos objetivos foram conquistados graças ao nosso país.

Quantos anos tem? “49 anos. 49 years young“. Nesta entrevista, quem quebra o gelo é o entrevistado. Sorri enquanto goza o prato. Aos 49 anos, o surfista norte-americano veio a Portugal mais uma vez, desta feita para promover o seu mais recente livro e o primeiro biográfico “Lobo do mar”. Nas páginas como nas ondas, Garrett McNamara acredita que pode ser pelo exemplo e pela inspiração que a mudança acontece. E, por isso, o plano para os próximos três anos passa por ensinar pelo menos 1.000 miúdos por ano a surfar. E descobrir mais três ondas como aquela gigante que surfou na Nazaré, há cinco anos. E que recolocou o mar português na memória do mundo.

 

Qual é a memória que mais guarda?

O dia mais memorável da minha vida foi aquele em que conheci a minha mulher. Estávamos em Porto Rico, eu estava com crianças autistas a surfar e houve um evento de caridade na noite anterior, ela apareceu. Tinha vindo da Florida, eu do Havai, ela competia em stand up padel e estava em casa de um amigo que estava a tomar conta dela. Apaixonei-me à primeira vista. Falei com ela na primeira noite. Nesse dia, perguntei a um amigo: quem é ela? E ele respondeu ‘oh oh ohhhh’ (brinca).

Fomos apresentados por ele, começámos a falar. Ela perguntou o que eu fazia, eu falei do surf. E ela disse: ‘não, o que fazes como trabalho’. De alguma maneira, eu já tinha percebido como fazer do surf o meu trabalho. Ela não sabia quem eu era, nada da minha vida. Começámos a falar naturalmente, de forma orgânica, sem quaisquer filtros. Uma pessoa já nem sabe em que é que os outros estão interessados, se é pela pessoa ou pela personagem do surf.

É sempre assim, amor à primeira vista por tudo?

Sigo sempre o meu coração, sou verdadeiro. Porque assim nunca te arrependes, nem pensas ‘o que fiz eu?’. Segue o teu coração. O coração sabe sempre o que fazer.

Não se arrepende de nada?

Tenho trabalhado no processo de aceitação. Só estar, viver a vida dia a dia, no momento. Tenho muitos objetivos, sou bastante ambicioso, focado. Faço mapas, planos. Todos os dias tenho um mapa.

É uma espécie de gestor do dia-a-dia?

Gosto de ter uma vida com significado. E quando sabemos o que estamos a fazer, quando trabalhamos para algo que tem significado, que tem impacto, é preciso seguir o mapa mas, ao mesmo tempo, não estar completamente colado ao que recebes em troca. Não devemos ser rígidos com o que vem. É preciso traçar o plano — seja ele qual for, surfar, estar em paz — trabalhar para concretizar os objetivos e depois ser flexível. Fazer ioga (risos). Quando eu estou em casa, no Havai, faço ioga todos os dias.

Sente que planeou tudo? Estava tudo no roadmap?

Eu planeio tudo mas depois vou com a maré. Caso contrário, sempre que encontras um obstáculo vais abaixo. Se tens baixas expectativas preparas-te para o falhanço. Planeio muito muito bem mas depois liberto. É o que é. Funciona. Não sou o melhor a fazer isto mas trabalho nesta tarefa todos os dias. Há altos e baixos, foca-te no centro. Feliz ou triste? Equilíbrio, equilíbrio. O meio termo é o objetivo anual.

Quais são os seus planos para os próximos 10 anos?

Eu tenho um plano a três anos, não tenho a 10. Nos próximos três anos quero estar a trabalhar com crianças necessitadas um pouco por todo o mundo, foi assim que eu comecei. E quero dar-lhes a oportunidade de poderem realizar os seus sonhos.

Como é que isso funciona?

Trabalhamos com fundações, como a da Mercedes, e temos muitos outros apoios de outras empresas. Grupos de turismo, governos de países. Estamos a pôr tudo em andamento neste momento, a ativar contactos e parcerias. Queremos trabalhar na fase pré-olímpicos 2020. Vamos para os países, falamos com as equipas olímpicas — eu falo japonês, conheço bem os sítios onde vão ser os Jogos — e sobretudo vamos trabalhar com a equipa olímpica portuguesa. Acredito que podemos ganhar uma medalha de ouro.

Vamos trabalhar com Cuba no processo de criar uma equipa — pode não ser para estes Jogos mas para os seguintes. Mas o meu objetivo principal é trabalhar com crianças sem acesso a determinadas realidades, e fazer o que fiz aqui em Portugal, com a Nazaré, com o trabalho com a Boundi na McNamara Surf Trip. Basicamente, pegar no que aqui fizemos e usar o processo para mostrar como se faz em redor do mundo. Usar Portugal como exemplo, e demonstrar como o surf pode mudar uma cidade, a Nazaré, um país, Portugal, e uma criança, eu. Vamos usar sempre essa fórmula e demonstrar, partilhar isso com diferentes países do mundo que tenham a possibilidade de desenvolver uma cultura de surf para o crescimento económico.

A relação que tem com Portugal vai continuar?

A minha relação com Portugal é para o resto da vida, é mais do que isso… Eu tenho objetivos e sonhos e o que aconteceu aqui excedeu em muito aquilo que eu tinha planeado. Consegui cumprir todos os meus objetivos para me sentir seguro: quando eu era miúdo mudei-me imensas vezes, a minha mãe mudava-se muito, eu nunca tive muito. E só queria sentir-me seguro, ter uma casa em que eu soubesse que podia pagar as contas. E consegui todos esses objetivos através de Portugal. Os meus objetivos de sustentabilidade foram todos cumpridos. Eu posso ir para casa, estar sem fazer nada, de forma confortável. Mas sinto uma certa responsabilidade de ajudar o país como posso porque tive a partir de Portugal tudo aquilo com que sempre sonhei.

É como pagar em troca?

Pagar para a frente. E a juventude, inspirá-los e empoderá-los, dar-lhes ferramentas, é esse o meu objetivo: empoderar a juventude, que é o nosso futuro. Foi como o campeonato, quando ganhámos o campeonato europeu. Toda a gente duvidava, e eu só dizia “vamos ganhar”. Porque não? Foi mais um ‘check’ de que tudo é possível. E isso deu-nos tanta inspiração: check após check temos a Nazaré, o Marcelo como Presidente, o campeonato Europeu de futebol, o Web Summit, é incrível, é enorme. E depois, a cimeira de founders a seguir, a secreta. Tudo é possível. E este país é melhor do que os Estados Unidos, ainda por cima depois disto do Trump. É assustador, para toda a economia. E acho que, por pior que seja, vai haver pessoas a vir para aqui. É um país pacífico, sem inimigos. Se eu não vivesse no Havai já me teria mudado para Portugal. Já sou cidadão, e ter-me-ia mudado para cá. Tenho de falar com a minha mulher acerca disso, talvez me mude para a Madeira, que é mais parecida com o Havai. A Madeira é mais estável, é bonito, o tempo é melhor, o vento é bom para as ondas. Durante toda esta missão, a melhor parte é trabalhar com os miúdos, a parte menos egoísta. Estão pelo menos 1000 miúdos por ano, envolvidos no projeto. Na equipa estão cinco monitores que andam sempre comigo.

O que sente em relação ao que fez na Nazaré?

Estou muito mais do que orgulhoso. Portugal tem tanta história, tradição, cultura, tantas pessoas incríveis. Basta caminhar, nunca se sabe o que vem a seguir. Os portugueses foram quem deu cartas no mar e no mundo durante muitos anos. E passou tanto tempo desde que os portugueses tiveram realmente muito orgulho naquilo que fizeram e que fazem. E para realmente perceberem que têm um país espantoso. Agora, com a onda, que pôs Portugal no mapa, é quase… eu sinto que é de alguma maneira um filho meu. E que, ao mesmo tempo, foi como se D. Sebastião regressasse noutra forma para mudar o que a Nazaré é, o que Portugal é.

A Nazaré, o país?

A Nazaré, a onda, o país. Acho que sim, até o país inteiro, porque acredito que a onda pôs a atenção no país. Todo o mundo agora está muito interessado em Portugal porque o país sai muitas vezes nas redes sociais e nos meios de comunicação, como a BBC ou a CNN. E isso pôs o foco no meu bebé. Agora só consigo pensar no que vem a seguir, no que posso fazer mais para melhorar. A Nazaré e Portugal como um todo têm agora um brilho que só pode crescer de forma mais forte, sobretudo porque agora toda a gente acredita que Portugal é incrível…

"Quero espalhar a mensagem de que tudo é possível, quero que os portugueses acreditem nisso e se envolvam.”

Garrett McNamara

E não tenham de sair do país para conseguirem concretizar os seus objetivos. Está tudo aqui. É o melhor país onde estive, entre todos os países: é seguro, a comida é ótima, as pessoas…

Então qual é o problema?

Nenhum problema. Não sou muito bom com história nem um economista mas o que acho que aconteceu foi que Portugal esteve muito tempo sob o regime monárquico. Isso exerceu uma grande pressão sobre as pessoas. E depois veio o regime ditatorial. Tão mau como o anterior. Só há 40 anos foi permitido aos portugueses pensar livremente, e demora gerações a retreinar o mindset. Com a onda dá-se um corte. E acredito que pode ser uma ferramenta importante para mudar as coisas. Com este novo Presidente, que é tão à frente, tudo é possível. Adoro o Marcelo. É a altura ideal para ele ter sido eleito. É preciso que todos trabalhemos juntos para tomar decisões agora, para mudar agora, para implementar coisas agora.

E qual é o papel da educação nesse processo?

A educação é uma das coisas mais importantes, é a única coisa de que quase me arrependo: de não ter estudado mais e com mais afinco. Só não me arrependo porque, se tivesse ido à escola não teria investido no surf. E agora o surf é a minha vida. Mas a educação é a chave. Não é só escola, é pôr as mãos na massa. Muitas das coisas que nos ensinam na escola não nos preparam para a vida. Não nos ensinam a pagar as contas, a ser boas pessoas, a ter filhos apenas quando queremos. Muitas dessas coisas temos de as aprender a bater com a cabeça nas paredes, cometendo erros.

O meu objetivo com os social media e a educação é fazer com que as pessoas não estejam tão dependentes, que estejam off. Descobrir formas de implementar uma ou duas horas de social media por dia, e todo o resto focado noutras coisas. Descobrir uma plataforma que ensine as crianças a serem parte disso, empoderar com uma plataforma que usem uma hora por dia e que depois as ensine e as inspire a fazerem as coisas por si. Para que não acordem e vão diretas ao Facebook. Nunca tinha pensado nisto nestes termos mas é isso mesmo. Estou a trabalhar com a Deloitte Digital e a desenvolver a plataforma com eles. Para ligar todas as crianças que participam no programa, no mundo inteiro, como uma rede. Quero empoderar as pessoas a passarem menos tempo na rede.

Estou a planear para procurar outras novas três grandes ondas. À volta do mundo há muitos sítios, mas nos Açores e na Madeira também. Quero encontrar pelo menos três novas Nazarés. Vou focar-me em Portugal mas talvez encontre também lá fora. Há um sítio entre Washington e o Canadá. Chile, Japão, Taiwan. China. Quem sabe?

Garrett McNamara

De que maneira é que o surf pode ser um modelo para a vida?

Tudo na vida é como uma onda. Tens de ser flexível e ir com ela porque está sempre a mudar, nunca é igual e temos de nos adaptar e aceitar.

  • Paula Nunes
  • Fotojornalista

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