Jerome Haegeli: Swiss Re está a falar com Governos sobre resposta a pandemias

O economista chefe da maior resseguradora do mundo acredita que só uma parceria pública-privada em larga escala pode permitir cobertura de riscos de pandemia a preços razoáveis.

Schweizerische Rückversicherungs-Gesellschaft AG é o verdadeiro nome da Swiss Re, a maior resseguradora do Mundo, com 157 anos de vida, escritórios em 25 países, 32 mil milhões de euros de prémios (o triplo de todo o mercado nacional) e parceiro incontornável das seguradoras portuguesas para atividades de resseguro. Para além do negócio segurador, a companhia com sede no lago Léman é conhecida pela Swiss Re Institute, gabinete de estudos e de análise de riscos de excelência para o setor segurador e pelas suas publicações Sigma e Sonar, guias obrigatórios para acompanhar o que de importante se vai passar na indústria seguradora. Jérôme Jean Haegeli é o economista chefe da companhia, responsável pela investigação económica e do mercado segurador que inclui previsão macroeconómica, de taxas de juro e de preços cobrados na atividade seguradora. Divulgou um trabalho recente sobre o futuro da economia mundial e do setor segurador em época pós Covid-19 e concedeu uma entrevista exclusiva a ECOseguros.

Jerome Haegeli, Chief Economist Officer da Swiss Re: “Seguradores e resseguradores estão bem capitalizados, com suficiente capacidade para aguentar quebras temporárias do mercado e aumentos moderados de sinistros”.

Prevê que a Covid-19 vai gerar muitos sinistros. A indústria seguradora/resseguradora não está protegida para este tipo de eventos raros?

As resseguradoras podem modelar o risco pandémico, mas a elevada escala de uma pandemia global como esta e suas correlações associadas a risco, limitam claramente a capacidade de absorção da indústria seguradora. Uma solução em que se devia trabalhar seria uma pool pandémica, um acordo prévio de partilha de risco entre o setor público e a indústria dos seguros para cobrir prejuízos causados por uma pandemia global como a Covid-19. Essa pool poderia trazer clareza aos clientes sobre o que está ou não coberto e ao mesmo tempo, permitir uma oferta dessa cobertura a preços razoáveis que, sem essa parceira, as seguradoras não estão em condições de oferecer.

Essa pool está a ser concretizada?

A Swiss Re está atualmente envolvida em discutir esse plano com representantes governamentais em vários países. Uma abordagem de colaboração fortaleceria muito a resiliência das diferentes nações.

Um stress financeiro visível no balanço e no cash flow das seguradoras é outro desafio que prevê. Há quem fale em intervenção do Estado ou mesmo nacionalizações de grandes companhias. Não existe capital privado disponível para o futuro da Indústria?

Não há razão nenhuma para pensar que grandes companhias possam ser nacionalizadas e sim, há amplos capitais disponíveis para financiar a indústria no futuro.

Então o stress é controlável?

Seguradores e resseguradores estão bem capitalizados, com suficiente capacidade para aguentar quebras temporárias do mercado e aumentos moderados de sinistros. Por exemplo, 85% das seguradoras norte-americanas tem um valor de rácio RBC (risk-based capital) de 500% e o valor mínimo para despoletar uma intervenção do regulador é 200%.

Outro aspeto a considerar é a exposição do portfolio de ativos das seguradoras – essencialmente composto de obrigações e empréstimos – a baixas taxas de juro e crescentes spreads no crédito e a defaults – a falhas de cumprimento por parte de devedores. Os spreads alargaram em março e logo estreitaram após massivas intervenções dos bancos centrais. Os spreads estão agora em níveis comparáveis aos de 2016, mas muito abaixo do verificados na Grande Crise global de 2008, e assim ficarão através de uma ativa intervenção dos bancos centrais.

A crise Covid-19 expôs a dependência do ocidente em relação à China. Fala mesmo em oportunidades que passam pela necessidade de estabelecer cadeias logísticas paralelas às atuais. É um regresso ao protecionismo?

O protecionismo económico e a Covid-19 aceleraram as tendências principais que moldam as cadeias logísticas globais, mas provavelmente, não o contrário. Seguindo uma tendência de há dez anos, as cadeias logísticas globais (ou a divisão global do trabalho) baseia-se em procurar vantagens de custos e isso fez da China a maior fornecedora de bens intermédios do mundo. No entanto, os custos de trabalho na China estão a subir, porque a força disponível está em declínio depois de um pico de 941 milhões de pessoas em 2011. Outra tendência clara, é uma abordagem de gestão de risco que aconselha à diversificação. Assim, muitas multinacionais procuram uma alternativa, ou uma segunda fonte na região asiática, diversificando e procurando baixos custos de mão de obra nesse processo.

O conflito comercial EUA/China tem influência nesta tendência?

Tem, e a pandemia também. Muitos governos lançaram proativamente programas de atração para cativar produções que estavam offshore. Taiwan, por exemplo, lançou um programa para apelar ao regresso de indústrias de Taiwan baseadas na China. A Flexium que faz placas de circuitos eletrónicos e a Quanta de computadores estão a fazer regressar a produção a casa e a Mitsubishi Electric está a deslocar produção da cidade chinesa de Dalian para Nagoya, no Japão.

O surgir de linhas paralelas na cadeia logística, que na prática é relocalizar fora da China, vai criar bolsas de crescimento e oportunidades de negócio (incluindo seguros) nos países que vão beneficiar da relocalização. Esta tendência será mais visível depois do choque pandémico, com Vietname, Taiwan, Malásia e Tailândia como prováveis vencedores e, fora da Ásia, o México.

Fala igualmente de que esta crise levou uma maior consciencialização sobre risco. Isso poderá significar mais vendas de produtos e serviços seguradores a empresas e famílias? Pode esperar-se maior apetência por cobrir cibersegurança e interrupção de negócios?

Sim, maior noção de risco leva a maior procura. No plano individual e famílias, a proteção saúde está atualmente no top of the mind dos consumidores. Na Swiss Re fizemos um inquérito a 2500 segurados em mercados chave como a Austrália, China, Hong-Kong e Singapura e verificámos que o interesse em Vida & Saúde, cresceu após o surto Covid-19, com a prioridade em manter os seguros de saúde mesmo à custa de um sacrifício financeiro. No entanto, é preciso compreender melhor as preferências dos consumidores para transformar essa procura potencial em vendas. Segundo o inquérito, e em primeiro lugar, os canais online são os preferidos, este inquérito indica que os segurados valorizam muito a capacidade de online processar apólices e levar a gestão de sinistros até ao fim. Depois, consideram que cuidados de saúde virtuais e prioridade no acesso a prestadores de serviços é mais importante que devolução de pagamentos.

Em cibersegurança ou interrupção de negócios a solução passa pela parceria público privada que é chave para se traduzir numa solução trabalhável.

A digitalização acelerou nestes meses de crise. E depois? Voltará ao que era? Os investimentos poderão refrear por menor disponibilidade financeira da indústria seguradora?

Depois da pandemia o mundo vai operar segundo um novo normal, de que fará parte uma digitalização acelerada nos seguros e em outros setores.

Do ponto de vista operacional vai ser acelerada a inovação digital para se conseguir maior subscrições mais automatizadas de seguros e assim evitar riscos de continuidade de negócio. Também muda a maneira de trabalharmos, com mais trabalho remoto. A Nationwide Mutual, por exemplo, uma das principais seguradoras americanas, quer fechar cinco edifícios em novembro, todos os colaboradores destes escritórios passarão a trabalhar de casa. No que respeita a produtos, sairão novas linhas comerciais e mais coberturas para produtos atuais. Por último, na distribuição esta crise trará mais e-commerce e o distanciamento social vai beneficiar definitivamente os canais de venda totalmente digitais.

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