• Entrevista por:
  • António Ferreira

M. Kreuzer (Munich Re): Como garantir melhor acesso a seguros ciber

Sinistros cibernéticos continuam a crescer com a digitalização, expondo igualmente pequenas e grandes empresas. Especialista de risco da Munich Re aponta as prioridades para a ciber-defesa.

Martin Kreuzer, Senior Risk Manager na Munich Re, foi o orador convidado para o painel dedicado a ciber risco no XVIII Encontro de Resseguros da APS. Antes de se dirigir à audiência do congresso, o especialista de Cyber Risk da resseguradora alemã falou, em exclusivo a ECOseguros, sobre o que preocupa as seguradoras e responsáveis de gestão de risco.

Martin Kreuzer, Senior Risk Manager (Munich Re), foi keynote speaker no 18º Encontro de Resseguros da Associação Portuguesa de Seguradores.APS

Num relatório, baseado em inquérito junto de cerca de 7 mil participantes em 14 países, a Munich Re identifica ransomware, incidentes em cadeias de abastecimento e infraestruturas básicas (por exemplo energia, utilities, serviços públicos e telecomunicações) como sendo os elementos para as principais ameaças em 2022. À margem do evento da APS, ECOseguros questionou o especialista sobre o que devem esperar as empresas, “os ciber riscos não diferem muito, quer se trate de grandes ou pequenas e médias empresas. O mesmo pode dizer-se das infraestruturas fundamentais e dos riscos que afetam as cadeias de abastecimento,” avançou o coautor do relatório sobre o “Global Cyber Risk and Insurance Survey 2022,” publicado em maio pelo grupo sediado em Munique.

"No futuro, os maiores e principais conflitos geopolíticos tornar-se-ão totalmente digitalizados. Esta tendência supõe também um incremento dos requisitos regulatórios de cibersegurança para numerosos setores”

Martin Kreuzer

Senior Risk Manager-Cyber, Munich Re

Na referência às criticalinfrastructures e indiferentemente de se tratar de sinistros causados por cibercriminosos ou eventos com origem em atores ligados a Estados-nação, Martin Kreuzer inclui ataques a companhias aéreas, portos e terminais logísticos. “Existem incidentes reais, como vimos em 2021.”

Face ao atual contexto de guerra na Europa, num mundo cada vez mais dependente do ciberespaço, o especialista da Munich Re disse, minutos depois, ao público que acompanhou o evento organizado pela Associação Portuguesa de Seguradores: “No futuro, os maiores e principais conflitos geopolíticos tornar-se-ão totalmente digitalizados.” Esta tendência supõe também um incremento dos requisitos regulatórios de cibersegurança para numerosos setores.

Sabendo-se que o cibercrime se popularizou e qualquer delinquente amador pode aceder, através da internet, a ferramentas e expertise de que precisa pagando algumas dezenas de euros, “o ransomware tornou-se uma indústria muito sofisticada que envolve muito dinheiro.” Na Munich Re, particulariza Kreuzer, “não prevemos que o ransomware termine tão cedo. É, com certeza, uma tendência real.”

O gap de cobertura seguradora contra ameaças do espaço cibernético é outro aspeto realçado no relatório da companhia alemã. Dos cerca de 9,2 mil milhões de dólares estimados atualmente em montante anual (prémios seguro cyber), perspetiva-se que o mercado global alcance 22 mil milhões em 2025. Considerando gravidade e frequência crescente dos incidentes, a previsão mostra a lacuna de cobertura existente no mercado, nota a resseguradora.

Preocupações das seguradoras e dos profissionais que gerem riscos

Discorrendo sobre segurabilidade do risco, capacidade de oferta do lado segurador e necessidades do segmento corporate em coberturas de ciber risco, Kreuzer esclarece: “A Munich Re tem um apetite pelo risco bem definido e ainda temos alguma capacidade de oferta, mas também sabemos que este mercado deve ser sustentável.” Este objetivo, que deve ter presente a natureza (extremamente volátil) do risco que estamos a (re)segurar e como o devemos abordar, não exclui a necessidade “também importante de os operadores mais relutantes incluírem nas suas carteiras as coberturas de ciber risco”.

"É importante ter medidas adequadas de cibersegurança. Isto foi o que aprendemos nos últimos dois ou 3 anos e é também um efeito que permanecerá além do hard market e vai durar (…)”

Martin Kreuzer

Senior Risk Manager - Cyber, Munich Re

Com a sustentabilidade do negócio a exigir envolvimento de todas as partes do mercado, incluindo os tomadores de risco …[(re)seguradoras) e as entidades potenciais vítimas do cibercrime, o inquérito que conduziu ao relatório da Munich Re destapa outra preocupação: mais de 80% dos inquiridos (profissionais de nível C, representando as chefias de departamento que gerem riscos) assumem que as suas empresas/organizações não estão devidamente protegidas contra o ciber risco.

Para o especialista em subscrição de risco Corporate Cyber, este é outro fator que condicionará o acesso ao mercado de seguros. Emprestando sentido pedagógico à conversa com ECOseguros, Martin Kreuzer fixa-se em certezas: “É importante ter medidas adequadas de cibersegurança. Isto foi o que aprendemos nos últimos dois ou 3 anos e é também um efeito que permanecerá além do hard market e vai durar, o que também é positivo, pois de outra forma o produto (de seguro) não será sustentável.”

A recomendação de Kreuzer sublinha orientação evidenciada no relatório da Munich Re: as organizações que implementem sistemas de resposta e resiliência contra ciberataques poderão melhor satisfazer requisitos que lhes garantem acesso ao mercado de seguros cyber.

Em relação ao endurecimento tarifário (price hardening), para o qual outras fontes apontam tendência de normalização, atalhou: “Não se sabe quando termina, será daqui a dois, ou três meses. Ou até se já teremos saído do pico. É como ler numa bola de cristal. Ninguém sabe…,” concluiu.

  • António Ferreira

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