Mulheres na liderança? Saldo é “francamente insatisfatório”

A presidente da bolsa de Lisboa diz que é preciso mais mulheres em cargos de liderança. É preciso que quem decide esteja atento a esta questão, mas também que as mulheres se coloquem no radar.

Maria João Carioca reconhece que o facto de ser mulher a coloca sob os holofotes. Traz mais responsabilidade, mas o “que quero é que no fim do dia fechem os olhos, ajustem o volume, e não consigam de todo distinguir se estão a falar com um homem ou com uma mulher”, diz a presidente da bolsa de Lisboa.

Assumiu este cargo há três meses. Mudou muito porque é uma mulher a liderar a bolsa de Lisboa?

Não sei se muda muito, mas se calhar é insensibilidade da minha parte. Acho que quem se relaciona comigo profissionalmente consegue ter comigo um diálogo, uma resposta, uma abordagem com os problemas que eu quero crer que é tão profissional, que é tão dedicada, tão refletida como a que teria com qualquer um colega. É obvio que traz um holofote forte pelo facto de ser uma mulher, o facto de ser uma mulher numa posição sénior.

Traz mais responsabilidade?

Para mim traz uma responsabilidade acrescida, porque encaro como uma porta que se pode abrir para que mais mulheres tenham posições de responsabilidade e que mais mulheres tenham posições como CEO. Quer queiramos, quer não, há uma luz especial que incide quando é uma mulher que assume esse tipo de funções. Mas espero sinceramente que quem se relaciona comigo, que as empresas que trabalham comigo, e os intermediários financeiros que trabalham comigo, leia-se bolsa, no fim do dia fechem os olhos, ajustem o volume, e não consigam de todo distinguir se estão a falar com um homem ou com uma mulher.

Espera ver mais mulheres na liderança de empresas cotadas? É um caminho fácil?

Não sei se é um caminho fácil. Pelos vistos não é. Se fosse fácil os números teriam uma derivada mais acentuada e hoje em dia nós ainda temos um peso de mulheres em posições de gestão que é francamente curto, particularmente quando olhamos para aquilo que é a a realidade social, para aquilo que são os números mesmo em posições intermédias. O caminho tem de ser feito, o caminho está a ser feito, com uma derivada que eu acho francamente insatisfatória. Não será seguramente um caminho fácil. Agora eu tenho sinais muito positivos.

Quais?

Hoje em dia falo com mulheres que me deixam a absoluta certeza de que o discurso de que não se pode ter mais mulheres em posições de gestão porque não há gente que chegue, porque não há mulheres disponíveis, porque não há recursos disponíveis… Esse discurso não se aplica. Deem-se ao trabalho de conhecer as mulheres que tem dentro de casa e as que estão nas casas do lado a trabalharem, porque no mundo empresarial português hoje em dia há mulheres enormemente qualificadas. Portanto, eu quero crer que parte deste caminho se consegue acelerar se lhes dermos alguma visibilidade.

O que é preciso fazer?

Às vezes é tão simples como isto: eu tenho uma posição para preencher, de quem é que me lembro? Se calhar as três pessoas que me lembro são todos homens porque têm estado mais próximos, porque fazem parte do círculo, por qualquer motivo. Parte do trabalho que há por fazer é um trabalho que não é tão simples assim, que é garantir que quando alguém se tenta lembrar dessas três pessoas que podem fazer esse lugar há também uma mulher que aparece no radar. É um trabalho de colocar no radar. Eu estive na Universidade Nova, numa aula sobre corporate governance, e no fim havia um período de questões temas de corporate governance também falam sobre questões de composição do conselho, e também falaram acerca de diversidade, e deu azo a que, eu sendo mulher, a questão surgisse muito naturalmente. Um dos alunos pôs uma questão da seguinte forma: ‘é muito curioso, mas já reparou que todas as perguntas que foram colocadas nesta aula foram, por alunos, por homens?’ É verdade, as raparigas estavam caladinhas.

Mas porquê?

Não sei, nós tivemos exatamente essa discussão na aula. Por que é que vocês estão tão caladas? Obriguem-se a falar, obriguem-se a estar no radar, tenham consciência de que estar no radar é importante e que se não abrirem a boca ninguém ouve o que vos vai na cabeça. Eu tenho a certeza de que aquelas cabeças estavam a pensar a 300 à hora, e até estavam a pensar em questões, mas estavam a filtrá-las de tal maneira que elas nunca saíam cá para fora. Ninguém ouve o que nos vai na alma, só ouvem aquilo que nós expressamos.

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