Maria João Carioca: “A bolsa terá de ser um produto na oferta da banca”

A presidente da Euronext Lisboa diz que o mercado de capitais passou por "momentos de desequilíbrio" face à banca. Mas que não há antagonismo entre a banca e o mercado. São parceiros.

Maria João Carioca diz que as baixas taxas de juro permitem à banca oferecer condições de financiamento que o mercado de capitais não consegue. Um desequilíbrio complicado de gerir mas que a presidente da bolsa de Lisboa diz que pode ser resolvido. E a banca está cada vez mais aberta a ser parceira da Euronext Lisboa. Até porque a banca precisa de deixar de estar assente na “margem financeira para passar a estar assente em estruturas de comissionamento”.

A banca continua a travar os intentos da bolsa? Ou é um parceiro?

A banca tem sempre de ser vista como um parceiro. Quando estamos a falar de banca e de mercados, estamos a falar da estrutura financeira das empresas. Uma empresa que não tenha na sua estrutura financeira em qualquer dado momento uma convivência saudável entre dívida bancária, capital próprio e capital disperso ou não, é uma empresa que está desequilibrada. Passámos por momentos de desequilíbrios… Acho que temos estado a passar por momentos de desequilíbrio. Das condições de funcionamento da banca, de emissão de dívida bancária, as condições de níveis de taxas a que estamos a assistir no mercado, são claramente condições de desequilíbrio – numa linguagem muito financeira, muito económica, chamar desequilíbrio é uma afirmação séria. Em termos de referenciais de crédito, temos hoje indexantes negativos. Pode passar a ser o novo normal, mas ninguém, hoje em dia, está mentalmente equipado para que isso seja um novo normal. Assim, parte do nosso trabalho é o de ter conversas com as empresas que trazem estas questões para cima da mesa.

Ainda há?

Sabemos que hoje em dia as empresas conseguem aceder a crédito bancários com flutuações em termos de disponibilidade, com flutuações de prazo e de crivo de análise de risco, mas estão a aceder a crédito relativamente barato. Mas também precisamos ter visibilidade com as empresas e a própria banca quanto ao horizonte temporal. Estamos a falar de financiamento a sete ou a 10 anos, o que não é o mesmo discurso em termos bancários de alguém que está a fazer um financiamento de conta-corrente. Não vale a pena criar um discurso de antagonismo entre a banca e o mercado porque essa não é a realidade da vida de uma empresa.

A banca precisa de negócio. Há mais diálogo com a bolsa?

Temos esse diálogo aberto. A experiência que tenho, nestes meses que cá estou, tem sido a de me sentar com vários bancos da praça e de termos olhado objetivamente para uma lista de empresas que fazem parte da carteira deles e do nosso. São empresas que em algum momento manifestaram interesse ou que têm indicadores que nos levam a acreditar que podem estar perto de mercado, seja de ações ou obrigações. Essa abertura para termos esse diálogo, essa abertura para olharmos em conjunto para essa carteira de empresas, e o momento de solução de problema da empresa, tudo isso está lá. Está num universo que eu gostava de poder alargar, está com uma capacidade de efetivar ainda a precisar de ser energizado.

Mas não tenho uma situação de não conseguir falar com a banca. Não tenho uma situação de a banca não ter presente que, por exemplo, o próprio modelo da banca está a ser repensado para em vez de estar apenas assente inteiramente em margem financeira passar a precisar de estar assente em estruturas de comissionamento. Uma ida a mercado gera comissões. Uma colocação obrigacionista gera comissões. Em vez de estar a tentar fazer margem financeira com um spread negativo que pode correr mal eu apoio uma colocação obrigacionista. E em termos de relação de longo prazo com o cliente ela está preservada. Os bancos têm relações com milhares de clientes. A Euronext nunca se vai substituir aos bancos nessa relação. Eu não me importo de pensar na bolsa como mais um produto que a banca tem no seu portefólio de oferta aos clientes.

E banca já vê a bolsa assim?

A banca é uma entidade muito abstrata. Mas tenho bancos com os quais já consigo começar a ter esta conversa. E tenho bancos que percebem que gerir a sua conta de resultados pode passar por ter este canal aberto e pode ser interessante esta fonte e comissões.

Há mais facilidade em falar com a banca por ter vindo da banca? Tem a porta mais aberta?

Não sei, mas eu tenho por feitio tentar abrir todas as portas que preciso. Não sei se é mais fácil ou mais difícil, sei que as que precisarem de ser abertas vou fazer por isso.

A CGD, como banco público, tem um papel no fomento da vinda de empresas para o mercado?

Tem seguramente. A CGD, mesmo antes de eu estar cá -– a minha experiência foi muito positiva e mantenho uma afetividade grande com a casa -–, já era uma relação positiva. Temos de nos lembrar que a CGD tem o CaixaBI, banco de investimento com o qual mantemos uma relação próxima. Nesse aspeto, continua a ser um parceiro numa lógica muito aberta. A dimensão que a CGD tem é sempre muito impactante no mercado. Por isso, ter esta atitude positiva por parte da CGD, conseguir dar-lhe mais visibilidade, conseguir alargá-la dentro do portefólio de empresas que são servidas pela CGD, e ter a própria CGD a ter um discurso equilibrado acerca de como o mercado pode ser promovido junto da sua base de clientes. Isso é um ativo.

Uma CGD com mais fulgor ajudará?

Espero que sim.

Como vê o valor da recapitalização da CGD? E o tamanho do buraco?

Não me vou pronunciar acerca da dimensão… Preferia não me pronunciar acerca da questão da CGD. A preocupação de fundo tem de ser a mesma, e acho que é partilhada independentemente da dimensão e de adjetivos como buraco que não tenho a certeza que descrevam corretamente a natureza da situação. É uma conversa longa, é uma conversa que tida a título de macroeconomia se percebe com outra luz. Eu, tendo estado lá, vejo com outros olhos. A preocupação de fundo é partilhada por todos: a CGD é um banco profundamente sistémico pela dimensão que tem, pela carteira de clientes que tem, pelo peso institucional que tem. Por isso, tudo o que se possa fazer para garantir que é um ativo bem gerido – e a CGD, sendo do Estado, é, ainda assim, um ativo bem gerido…

Tem sido bem gerido?

É um ativo que pode ser melhor gerido. Pode sempre, por definição.

Como é que a bolsa pode ajudar com o malparado dos bancos?

A resolução da questão do malparado é importante. Ela própria requer capital. Quer queiramos, quer não, das duas uma: reanima as teses de investimento que lá estavam por trás e, portanto, criam valor suficiente para diluir a dívida. Ou, já não havendo condições para isso, passa por se absorver essas perdas e essas consomem capital. É, por isso, muito normal que numa solução global de resolução de malparado haja a necessidade de em determinado momento, reestruturados os portefólios e assumida a devida proporção do que é perda, ir a mercado. Aquilo que nós vemos é esse percurso de gestão de malparado, mas depois há ali muitos ativos que reequilibrados são passíveis de serem rearrumados, para lhes dar uma composição societária que é mais simples de trazer a mercado, para os fundir, para lhes dar escala e relevo que também ajuda para virem a mercado numa estratégia de dispersão de capital ou com outras ferramentas como a venda direta que depois tem necessidades de capitalização pelos acionistas. Acima de tudo é importante que esses ativos sejam recuperados porque há valor.

[A CGD] É um ativo que pode ser melhor gerido. Pode sempre, por definição.

Maria João Carioca

Presidente da Euronext Lisboa

A bolsa também tem sido solução para o Estado com as OTRV. Quer mais?

Enquanto operador de mercado, é óbvio que quero ter esse negócio. Ser capaz de dar ao Estado essa flexibilidade é algo que quero. Agora, não quero necessariamente que haja mais 20 mil milhões de euros em emissões de OTRV. Quero que seja um mecanismo que esteja disponível para o Estado. Quero ter o mercado a ser capaz de, claramente, servir as empresas e o Estado. Se eu estiver a servir, estou no sítio certo.

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