A ‘tempestade perfeita’ que ‘forçou’ a Netflix a entregar a Warner à Paramount

Rafael Correia,

O que leva a Netflix a desistir de um negócio de milhões? Não é só uma questão de dinheiro, é um caminho de meses ‘cheio de agulhas’.

A Netflix decidiu esta quinta-feira à noite não aumentar a sua proposta para a compra de parte da Warner Bros. Discovery (WBD), abrindo caminho para que a Paramount adquirisse a totalidade da empresa . A justificação oficial é de que “esta transação sempre foi algo ‘bom de se ter’ ao preço certo, não algo ‘obrigatório de se ter’ a qualquer preço”. Mas a realidade conta uma história cheia de desafios.

“A transação que negociámos teria criado valor para os acionistas com um caminho claro para a aprovação regulatória. No entanto, sempre fomos disciplinados, e ao preço exigido para equiparar a última oferta da Paramount Skydance (PSKY), o negócio deixou de ser financeiramente atrativo, por isso recusamos equiparar a oferta da Paramount”, declarou a Netflix, destacando uma das principais ‘pedras no caminho’.

A Paramount não se conformou com o negócio desde que o mesmo foi oficializado em dezembro, querendo comprar toda a empresa. Do outro lado, a estratégia da gigante do streaming passava por adquirir os estúdios e ativos de streaming, como a HBO, excluindo a maioria do negócio de televisão linear.

Paramount ‘não larga o osso’

O primeiro salvo veio da Netflix, que em dezembro anunciou um acordo com a Warner para a aquisição de parte do grupo. A Paramount respondeu com uma oferta hostil. A empresa nunca aceitou o ‘não’ da administração da Warner como absoluto, ambicionando a compra, apesar da sua recente fusão com a Skydance. Poucos dias depois de a Netflix ter saído vitoriosa de meses de negociações, que também envolveram a Comcast — dona do canal NBC, a Paramount lança uma ‘bomba’ de 108 mil milhões de dólares, através de uma oferta pública de aquisição (OPA).

A administração da Warner não ficou convencida, à espera de uma valorização maior do negócio dos canais de televisão a cabo e com dúvidas em relação ao financiamento da oferta. Inicialmente, a Paramount tentou responder a parte destes problemas, indo buscar o cofundador da Oracle e pai do CEO da empresa, Larry Ellison, para financiar parte da oferta.

Sem sucesso, a Paramount ataca com um processo em tribunal e uma intenção de nomear um administrador seu na Warner de forma a bloquear a votação do negócio pelos acionistas a 20 de março. Ainda volta a melhorar as condições da sua OPA, incluindo uma taxa de atraso, mas sem nunca aumentar o montante da proposta.

As constantes contrapropostas levaram a a Netflix a reformular a sua oferta de 27,75 dólares por ação — 23,25 em dinheiro e 4,50 dólares em ações da Netflix — para uma proposta totalmente em dinheiro em janeiro.

Só quando, finalmente, um alto representante da Paramount admite pagar 31 dólares por ação é que a administração da Warner é convencida a voltar à mesa das negociações, obtendo permissão da Netflix para “totalmente e finalmente resolver este assunto”, nas palavras da gigante do streaming.

A empresa dirigida por Ted Sarandos e Greg Peters mostrava-se confiante de que a sua transação “proporciona valor e segurança superiores”, reconhecendo que “a contínua perturbação causada às ações da Paramount para os acionistas da Warener e para a indústria do entretenimento em geral”.

Com a oficialização da oferta, a Warner acabou por determinar na quinta-feira à noite que a proposta da Paramount é “superior”, a palavra mágica que a empresa detida por David Ellison antecipava há meses. Apesar de dar quatro dias à Netflix para reformular o seu acordo, esta tomou a decisão de atirar a toalha ao chão ainda nesse dia. Mas será só uma questão de dinheiro que fez a Netflix desistir deste negócio? Vamos analisar mais ao detalhe os últimos meses.

Larry Ellison, cofundador da Oracle e pai do CEO da Paramount SkydanceOracle

A ‘infiltração’ das ‘politiquices’ no negócio

Desde o início que a vitória de uma mais progressiva Netflix perante uma mais (atualmente) conservadora Paramount concentrou a atenção da política norte-americana. O facto de a contraproposta da Paramount ser financiada pela família Ellison, do multimilionário Larry Ellison — visto como um amigo próximo de Trump — e ter envolvido inicialmente a empresa de Jared Kushner, genro do presidente norte-americano, não ajudou à situação. Criou-se um cenário para uma ‘luta’ entre democratas e republicanos, que promete continuar com a provável aquisição da Warner pela Paramount.

Do lado “Make American Great Again” (MAGA) surge o relatório “Fedflix: Netflix, The Federal Government, and the New Propaganda State”, que acusa a gigante do streaming de ser “a maior máquina de mensagens políticas e ideológicas da história humana” e de “desempenhar um papel desproporcionado na manipulação social de milhões de americanos, predispondo-os a aceitar o dogma ideológico preferido da esquerda”.

Já entre os senadores democratas surge a intenção de investigar o envolvimento da administração Trump no resultado final, tendo solicitado a David Ellison da Paramount que “preserve os registos”.

A verdade é que Donald Trump não tem ficado calado. Logo no início do processo declarou que a aquisição pela Netflix “poderia ser um problema” devido à junção dos subscritores da HBO Max aos da Netflix. Também já tinha pedido que a CNN seja vendida, independentemente do resultado final.

Na semana passada, pediu na Truth Social a demissão de Susan Rice — ex-embaixadora dos EUA nas Nações Unidas durante a primeira administração Obama e conselheira de segurança nacional na segunda — da administração da Netflix, depois dos comentários críticos de Trump feitos pela administradora num podcast.

Em resposta, Ted Sarandos afirmou que “ele gosta de fazer muitas coisas nas redes sociais”, sem comentar diretamente a polémica. Além disso, salientou que o acordo com a Warner “é um acordo comercial. Não é um acordo político. Este acordo é avaliado pelo Departamento de Justiça dos EUA e por órgãos reguladores em toda a Europa e em todo o mundo”.

Acabou por ditar o destino que a decisão da Warner sobre a “oferta superior” da Paramount tenha ocorrido enquanto Ted Sarandos, co-ceo da Netflix, estava de visita à Casa Branca para ‘ganhar’ o apoio da administração Trump.

Donald TrumpLusa

Os reguladores não estavam totalmente convencidos

O negócio da Netflix já estava também a levantar questões regulatórias, com o Departamento de Justiça norte-americano a enviar cartas aos cineastas e produtores de Los Angeles a pedir detalhes sobre a influência da plataforma de streaming no setor. O objetivo era perceber se estaria a ser criado um monopólio através da fusão com a Warner Bros.

Ted Sarandos tinha também já sido alvo do escrutínio dos senadores, com democratas e republicanos a levantarem preocupações com a redução da concorrência, o aumento potencial dos preços e o futuro do cinema. Estava previsto que o co-CEO da gigante de streaming fosse ouvido de novo a 4 de março.

A dificuldade em convencer a velha Hollywood

Saindo da dimensão política, a Netflix estava também a ter dificuldade em convencer o setor audiovisual dos benefícios da sua proposta. Apesar de ter sinalizado repetidamente que manteria o período de exclusividade de 45 dias dos filmes nas salas de cinema, figuras como James Cameron, realizador dos filmes Avatar e Titanic, não viam o negócio com bons olhos.

Acredito firmemente que a proposta de venda da Warner à Netflix será desastrosa para o negócio da exibição cinematográfica, ao qual dediquei o trabalho da minha vida“, escreveu James Cameron, numa carta obtida pela CNBC.

Um grupo coletivo de “produtores de filmes preocupados”, que decidiu não assinar a carta por medo de represálias, já tinha enviado uma carta aos membros do congresso norte-americanos com medo da possibilidade da Netflix “destruir” o mercado da exibição cinematográfica.

As promessas de que não iria reduzir o número de colaboradores e que iria reforçar o investimento nos EUA também não foram suficientes. Mal saíram as notícias da proposta da Netflix, as reações foram negativas, com o Sindicato dos Argumentistas da América (WGA) a denunciar a operação como potencialmente violadora das leis ‘anti trust’ (anti-concentração).

Mercado de ações ‘rejubila’ com volte-face

Quem também parece ter ficado descontente com o acordo foram os acionistas da Netflix. De acordo com a Bloomberg, a aquisição da Warner tinha levado a uma quebra de cerca de 40% no valor de mercado da Netflix em cinco meses, a contar do momento em que se tornou público o seu interesse.

Os investidores, já preocupados com as perspetivas de crescimento futuro da Netflix, pensavam que a empresa estava a mexer no modelo de negócio que a tinha tornado tão bem-sucedida e a assumir mais de 50 mil milhões de dólares em novas dívidas para o fazer.

Com o volte-face, as ações dispararam mais de 8% na abertura do mercado na sexta-feira, com valores acima dos 90 dólares. Para referência, a empresa iniciou a semana com as ações a rondar os 76,02 dólares.

E agora? Que futuro para as três empresas?

A guerra pelo controlo da Warner colocou duas visões opostas do futuro do streaming e coloca Paramount e Netflix frente a frente.

Com a Netflix de fora do negócio e a ganhar 2,8 mil milhões de dólares com a taxa de rescisão, a ser paga pela Paramount, volta ao modelo de negócio que a fez famosa, prevendo investimentos de cerca de 20 mil milhões de dólares na produção de filmes e séries este ano.

Do lado da Warner, se por um lado vê o seu negócio valorizado — com sete mil milhões de dólares garantidos caso o negócio não vá à frente devido aos reguladores –, poderá ter de dizer ‘adeus’ a alguns dos seus ideais, assim como enfrentar mudanças na CNN, com a possível imitação da trajetória em curso na CBS News a pairar no ar. Recorde-se que Bari Weiss, ex-jornalista do New York Times, passou a editora-chefe da CBS News e tem acumulado polémicas, com a pressão sobre o programa 60 Minutes a gerar enorme apreensão no setor e a levar a nomes como Anderson Cooper a desvincular-se do mesmo.

“Uma fusão entre a Paramount e a Warner é um desastre para as pessoas que trabalham em ambas as empresas, e se Bari Weiss assumir o controlo da CNN, será o fim da rede global fundada por Ted Turner“, declarou ao The Guardian um produtor preocupado da CNN, que não estava autorizado a comentar.

Num memorando enviado aos funcionários da CNN na noite de quinta-feira, obtido pelo jornal britânico, o presidente executivo Mark Thompson apelou a que não se tirem conclusões precipitadas sobre o que a aquisição irá significar para o canal.

O escrutínio foca-se agora na Paramount, que terá de enfrentar alguns dos mesmos problemas com que a sua concorrente se deparou. O procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, lembrou, em declarações ao Deadline, que o negócio terá ainda de enfrentar o crivo dos reguladores.

As ligações com o Médio Oriente, com a primeira proposta a envolver os fundos soberanos da Arábia Saudita, Abu Dhabi e Qatar — não se sabendo ainda em concreto o papel na proposta atual –, e o medo de despedimentos, fama da qual a Paramount não se livra após ter despedido quase mil funcionários depois da fusão com a Skydance Media, serão dois dos temas quentes.

Se for concretizada a fusão, a nova empresa concentrará os estúdios de ambas as empresas, os serviços de streaming HBO Max e Paramount + e canais televisivos como CNN, CBS News, HBO, Cartoon Network, Discovery Channel, Nickelodeon e Showtime. Mas também herda a dívida líquida de 29 mil milhões de dólares, segundo os dados do último relatório financeiro.

Analisando os resultados da bilheteira mundial, Warner Bros. Discovery e a Paramount combinadas possuem 32,7% da quota de mercado, num valor superior a 5,7 mil milhões de dólares em receitas. Tal consolidaria o segundo lugar que a Warner ocupou no ano passado, apenas atrás da Disney — com 37% do mercado.

No streaming, a Paramount possuía cerca de 79 milhões de subscritores e a HBO cerca de 131,6 milhões, no final do último trimestre de 2025. Combinados, resultaria em 210,6 milhões, o que a deixaria, mesmo assim, atrás da Netflix, que contava com 325 milhões no final de 2025.

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