• Especial por:
  • Ricardo Vieira

De comprado a alugado: como as empresas estão a escolher o mobiliário para os seus escritórios

A IKEA vai testar serviço de leasing mobiliário, a Liqui.do tem 30 milhões em ativos com o renting de equipamento, e a Steelcase acredita que o mobiliário de escritório precisa de outras soluções.

É suficiente olhar para os novos modelos de negócio que têm ganhado força na economia mundial para se perceber que há uma mudança clara na forma como se consomem alguns produtos. Senão vejamos: se a mobilidade não passa obrigatoriamente pela compra de um carro nem o investimento num guarda-roupa com peças para vestir apenas uma vez é necessário, algumas empresas também não precisam de um escritório todos os dias da semana, optando muitas vezes por espaço partilhado. O mesmo com o mobiliário.

O mercado de aluguer de mobiliário manterá um forte crescimento até 2024, impulsionado pelo número de empresas que estão a adotar serviços de renting mobiliário para responder às políticas de mobilidade corporativa. A previsão é da consultora Research Nester, num estudo publicado este mês, que revela que este serviço é benéfico para as empresas, sobretudo atraídas pelas despesas baixas e pelo apoio na manutenção. O setor é impulsionado por fatores macroeconómicos, como o número de empresas que operam internamente, a taxa de desemprego e o Índice de Sentimento Económico, que devem melhorar no período analisado. Isto porque o aumento do número de empresas estimula a procura por mobiliário de escritório e, à medida que há mais emprego, cresce a necessidade de móveis para novos funcionários.

A IKEA é uma das empresas de mobiliário que anunciou aposta nesse mercado. Com estudos conduzidos na Holanda, Suécia, Suíça e Polónia, está a “tentar compreender os pontos de vista das pessoas sobre uma vida sustentável, explorando como escolhem os produtos para as suas casas, como os mantêm, e o destino que lhes dão quando já não precisam deles”, refere Cláudia Domingues, responsável de comunicação corporativa e sustentabilidade da IKEA Portugal. Após o período de testes nos mercados-piloto, o modelo deverá ser replicado nos 30 países onde existem lojas do grupo Ingka, incluindo Portugal, já a partir de 2020.

Cláudia Domingues, responsável de comunicação corporativa e sustentabilidade da IKEA Portugal.IKEA Portugal

“Mais do que uma abordagem de financiamento, o objetivo é oferecer um serviço de leasing através de um modelo de assinatura, dando aos clientes a máxima flexibilidade, ao mesmo tempo que a IKEA assegura a reutilização dos produtos tantas vezes quanto possível, antes da reciclagem de materiais e componentes no final da vida útil”, refere a responsável.

Mais do que uma abordagem de financiamento, o objetivo é oferecer um serviço de leasing através de um modelo de assinatura, dando aos clientes a máxima flexibilidade, ao mesmo tempo que a IKEA assegura a reutilização dos produtos tantas vezes quanto possível, antes da reciclagem de materiais e componentes no final da vida útil.

Cláudia Domingues

Responsável de comunicação corporativa e sustentabilidade da IKEA Portugal

O desenvolvimento de um novo nicho no negócio está relacionado com duas questões fundamentais: por um lado, a procura por uma maior acessibilidade e conveniência e, por outro, uma busca por relevância “para a maioria das famílias, independentemente das suas necessidades e situações de vida”. “Neste sentido, o serviço de leasing poderá ser uma solução interessante para os nossos clientes que querem usar, manter ou reutilizar os produtos IKEA de forma sustentável, prolongando a sua vida ou para pessoas que estão a residir numa zona temporariamente e não lhe faz sentido fazer aquisição definitiva de mobiliário. Acreditamos também que este serviço poderá ser interessante para os clientes empresariais”, acrescenta.

Da restauração, passando pela construção civil, e mesmo nas áreas do fitness e da estética, a Liqui.do tem oferta para os setores mais diversos.Liqui.do

É na América do Norte que o mercado de renting mobiliário tem mais expressão, seguindo-se a região Ásia-Pacífico, onde está previsto um sólido crescimento na urbanização e no número de escritórios corporativos, que “deve impulsionar o crescimento do mercado de aluguer de móveis na região”, lê-se na projeção da Research Nester. No entanto, também a Europa deverá assistir a um aumento da procura por estes serviços nos próximos anos.

Mesa nova a cada dois anos

“Crescimento” é palavra de ordem da Liqui.do, que se dedica ao fornecimento de soluções de renting de equipamentos para empresas. Em 2017, a empresa concedeu 7,5 milhões de euros de financiamento via renting e fechou o ano de 2018 com um valor de cerca de 20 milhões de euros, o que coloca a empresa com um total de ativos de 30 milhões de euros, números que vão permitir à Liqui.do um crescimento perto de 150%.

“O cliente típico da Liqui.do são pequenas e médias empresas. Estas são empresas que podem beneficiar e muito de uma gestão de caixa mais flexível, com rendas pré-planeadas, sem os encargos que a compra a pronto de um equipamento acarreta”, diz José Capitão, diretor de Operações da empresa.

José Capitão, diretor de Operações da Liqui.do.Liqui.do

“A maioria das empresas precisa de equipamentos para operar e desenvolver a sua atividade com mais produtividade. No entanto, a compra das máquinas necessárias pode representar um esforço grande de tesouraria e desequilibrar as contas. Ao optarem pelo renting, as empresas alugam os equipamentos necessários à sua atividade, mediante o pagamento de rendas previamente definidas. No renting não existe o conceito de entrada inicial e o pagamento é parcelado ao longo das rendas, reduzindo o impacto na tesouraria. Assim, as PME conseguem aceder a equipamento mais modernos e estão consequentemente mais preparadas para concorrer com outros players do mercado”, acrescenta.

São estes alguns dos motivos que, aliados à versatilidade da tipologia dos equipamentos financiados, fazem com que a Oralplan seja um dos cerca de seis mil clientes da empresa. Neste caso concreto, além do equipamento afeto à atividade principal de medicina dentária, a empresa usufrui de equipamentos de tratamento de água e equipamentos informáticos e de comunicação.

"Ao optarem pelo renting, as empresas alugam os equipamentos necessários à sua atividade, mediante o pagamento de rendas previamente definidas.”

José Capitão

Diretor de Operações da Liqui.do

“A opção pelo renting é uma excelente opção na gestão de tesouraria e na gestão do crédito uma vez que, por norma, existe a dispensa de entrada inicial, libertando as disponibilidades de tesouraria de curto prazo; é uma opção relativamente económica, com prazos flexíveis, sem necessidade de exercer a opção de compra. É também minimizado o risco operacional, como a desvalorização, uma vez que há sempre a possibilidade de troca dos equipamentos. Por outro lado, tratando-se de um produto de aluguer operacional, não é um produto de crédito financeiro, não expondo a empresa às variações das taxas de juro e outros riscos ou encargos financeiros”, afirma Cassis Clay, diretor clínico da Oralplan.

“Quando comparamos o renting à compra de equipamento são claras as vantagens desta primeira modalidade”, acrescenta o diretor de operações da Liqui.do. “O que gera riqueza para a empresa é a utilização que é dada ao equipamento e não a sua posse. Então, porquê investir uma grande quantia de uma só vez na compra, ou mesmo recorrer a um empréstimo bancário, quando é possível fazer um aluguer de longa duração? No renting, o equipamento é financiado a 100% e não existe necessidade de entrada inicial, ao contrário do que acontece habitualmente no crédito bancário. Além disso, o valor do equipamento é parcelado ao longo do contrato e existe a possibilidade de atualizar a máquina por outra mais moderna no final do contrato”, continua.

A Steelcase projeta, fabrica e comercializa mobiliário para escritórioSteelcase

Relativamente ao mobiliário de escritório, Rui Malcata, diretor da Steelcase Portugal – empresa de conceção, fabrico e comercialização de mobiliário para escritório – tem uma visão diferente. “Teoricamente, o renting, pelas suas regras legais e fiscais, não é uma ferramenta atrativa para os nossos produtos, diria para o mobiliário de escritório em geral, uma vez que não existe um mercado sustentável e credível de usados, o que implica a não existência de valor residual”, diz. O responsável explica ainda que o portefólio da marca “está coberto por garantias que superam largamente os prazos habituais dos contratos financeiros chegando, em alguns casos, a ser vitalícias, não carecendo assim de nenhum tipo de contrato de manutenção”.

Temos verificado que o renting apenas tem efeito, no nosso caso particular, como uma mera ferramenta financeira de obtenção de crédito ou instrumento de alívio do imobilizado e diluição de lucros, colocando-se sempre a questão do que fazer no final do contrato. Muito raras são as organizações, pelo menos as com que trabalhamos, que estão na disposição de trocar tudo ao fim de dois a quatro anos, principalmente quando falamos de produtos cuja vida útil ultrapassa, em muito, os prazos dos contratos”, acrescenta.

Ambientalmente sustentáveis

Apesar de visões de mercado e de negócio diferentes, as três empresas procuram ser ambientalmente sustentáveis. Com uma estratégia de sustentabilidade que quer influenciar mil milhões de pessoas a terem uma vida em casa mais sustentável, mais do que uma abordagem de financiamento, o objetivo da IKEA é “encarar este serviço de leasing também como uma opção mais sustentável”, diz-nos Cláudia Domingues, que lembra que “a sustentabilidade é transversal a toda a cadeia de valor da IKEA”. “Faz parte dos nossos valores e acreditamos que tem contribuído para melhorarmos continuamente o nosso negócio. Testar um serviço de leasing para produtos de mobiliário e decoração é uma das maneiras pelas quais nos desafiamos a tornar a IKEA cada vez mais acessível, mais conveniente e sustentável”, detalha.

Depois do mobiliário e decoração, a oferta poderá ser alargada a outros produtos IKEAIKEA Portugal

Cultura partilhada pela Liqui.do, que vende ou recicla o equipamento que um cliente já não vai usar. “Se o equipamento ainda estiver dentro do seu tempo útil de vida e funcionar corretamente é vendido. Trabalhamos com um parceiro que coloca estes equipamentos novamente no mercado, com a indicação que são máquinas em segunda mão”, explica José Capitão. Na Steelcase não é diferente. Rui Malcata refere que “desde a conceção, passando pela escolha de materiais e processos de fabrico, comercialização e instalação e até ao pós-venda, disponibilizando aos seus clientes programas sustentáveis de fim de vida para todos os seus produtos”.

  • Ricardo Vieira

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