• Especial por:
  • Sara Calado

Na escola do futuro não há testes: a avaliação é um jogo

Arranca em setembro a escola de atividades extracurriculares tecnológicas que quer ajudar a preparar jovens, com idades entre os 10 e os 17 anos, para os desafios do futuro.

Na “escola do futuro”, em Alvalade, Lisboa, tudo é diferente, desde o novo método de ensino à avaliação e certificação. O “reforço positivo”, o estímulo da criatividade e do pensamento crítico são a base de ensino da Assembly. E isso sente-se nas paredes negras de ardósia que envolvem todo o espaço, onde os alunos podem escrever livremente.

“O objetivo é preparar uma nova geração de portugueses para uma disrupção tecnológica”, diz o gestor João Rodrigues, 47 anos e fundador e diretor do projeto, que acredita que deverá acontecer em 2030. Com uma mensalidade de 101 euros, a Assembly oferece cursos de design, programação e data science ensinados de acordo com uma metodologia teórico-prática. Robótica, engenharia, criação de jogos e apps, até design gráfico e de vídeo, são algumas das áreas práticas para ajudar os jovens a encontrar a sua vocação tecnológica. O ano é dividido por trimestres e os alunos têm 12 horas de aulas por semana. Não há testes e a avaliação é feita através da atribuição de pontos e títulos, numa lógica de “gamificação”.

Nesta escola, cada sala tem um nome e um fim próprios, e tudo é tecnologia. As aulas acontecem na Sala do Futuro (o espaço “Research Develop”) e as aulas teóricas na Sala de Estudo (o espaço “Code Tec”). O mérito é reconhecido com pontos, que se convertem em horas que podem ser desfrutadas na Sala de Realidade Virtual ou de eSports. O objetivo desta escola é ajudar as novas gerações a encontrar a sua própria vocação nas áreas tecnológicas, que serão a base de todas as profissões do futuro.

Um método de ensino disruptivo

Com capacidade para 300 alunos, é possível ingressar no início de cada trimestre porque aqui, o importante é “começar do zero”. As turmas são heterogéneas, com um máximo de 11 alunos por grupo, para não “limitar a competência pela idade”, explica João Rodrigues. Com um modelo de ensino inclusivo – mais do que meramente expositivo – é garantido um acompanhamento personalizado, num esquema de mentoria.

“Ajudamos as pessoas a aprender. O nosso modelo é muito único para cada um deles”, reforça João Rodrigues, que acredita que o ensino tradicional da tecnologia está a tornar-se obsoleto. Durante a semana, é obrigatório cumprir uma hora de teoria e uma hora de prática. Os pontos acumulados nessas duas componentes convertem-se em horas, que podem ser utilizadas nas salas recreativas.

Para completar a componente teórica, são os alunos que decidem se querem seguir a área de programação, de data science ou de design. “Se quiserem podem circular entre os vários ramos, para perceberem se são mais programadores, mais designers ou mais robóticos”, esclarece João Rodrigues. Na sala de aulas práticas há computadores, robôs e bancadas de programação e edição de vídeo. Neste espaço, os alunos devem cumprir desafios propostos pela Assembly, mais ou menos complexos, ao longo do trimestre.

Os pontos dão acesso a uma hora por semana na sala de eSports, onde poderão jogar os jogos mais famosos, como o Fortnite ou o League of Legends, ou na sala de Realidade Virtual, onde estão à disposição televisões 4K, óculos de Realidade Virtual, Nintendo e Playstation. Neste “ATL da tecnologia” também há uma biblioteca onde é possível requisitar audiolivros.

Não há testes convencionais. “O que nos interessa é ver o que ficou na cabeça, não aquilo que vão estudar para o teste. Preferimos chamar de trials ou quests, onde vão ganhando experiência ou skill points. A avaliação é feita em XP”, metaforiza João Rodrigues. Para o fundador, a maior lacuna do ensino tradicional está “na falta de investimento tecnológico nos métodos de ensino da escola tradicional”. A solução poderia passar por “fazer acordos com entidades como a nossa e outras escolas que seguem os mesmos modelos”. “Não considero que seja concorrência. Estamos todos a ajudar as novas gerações a terem as competências básicas para poderem ajudar Portugal a ser ainda melhor”, acredita João Rodrigues.

A Assembly tem como base o steam (sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática), um método que agrega as designadas “competências do século XXI”. “Estamos a dar os conceitos básicos para, quando tiverem 30 ou 40 anos, evoluírem para especializações ainda maiores”. “Não pretendemos só formar carreiras tecnológicas, mas todas as outras profissões com esta componente”, sublinha o fundador.

No próximo ano letivo, a Assembly vai abrir um segundo espaço na zona da Expo e um terceiro em Campo de Ourique. Daqui a cinco anos, João Rodrigues quer ter 100 centros Assembly em Portugal, com possibilidade de ter cadeias de franchise na Holanda e na Alemanha.

Ensinar código em part-time

A Assembly é um projeto inovador, mas não é o único em Portugal a oferecer este tipo de atividades extra-curriculares ligadas à tecnologia. Desde 2015, a Happy Code oferece ensino especializado em programação, para crianças dos 6 aos 17 anos. Atualmente tem sete escolas espalhadas pelo país, e outras pelo mundo, com cursos intensivos, regulares e até campos de férias. Na Shark Coder, uma escola de programação, jogos e robótica, o público-alvo também são os jovens entre os 6 e os 17 anos. O objetivo é garantir a “literacia do futuro”, através do ensino lúdico da tecnologia. Tem escolas em Vila Real, Almada e Porto. Mais recentemente, também a Academia de Código lançou uma plataforma que vai ensinar programação a crianças em oito países estrangeiros chamado Ubbu: promete dar formação a mais de um milhão de alunos em todo o mundo.

Uma escola do mundo com os olhos na comunidade

Apesar de querer quebrar o paradigma do ensino tradicional, a Assembly quer manter-se um “conceito local”. “Estou a fazer isto para Portugal, não é para enriquecer, mas para continuarmos a ser um país fabuloso”, garante o diretor. Depois dos alunos, os professores. Nesta escola, todo o corpo docente é constituído por atuais professores de tecnologia dos liceus públicos da freguesia de Alvalade. “Os professores que temos aqui são os que se dedicam aos alunos, que querem dar mais e não têm condições dentro da sua escola. Quando viram este projeto, associaram-se muito facilmente”, frisa João Rodrigues.

  • Sara Calado
  • Redatora

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