Portugal. O país startup que sonha em ser nação unicórniopremium

Mil milhões, tanto quanto um unicórnio, é quanto as startups nacionais já levantaram no mercado. O que nos falta para saltar do país startup rumo ao unicórnio?

Primeiro foram as startups, depois os hubs e a seguir o “holofote” Web Summit incubou e deu visibilidade internacional ao ecossistema tecnológico em Portugal. Só em cinco anos, instalaram-se no país 80 hubs tecnológicos, criaram-se mais de 8.500 postos de trabalho. As startups já levantaram mais de mil milhões de dólares. Tanto quanto vale um unicórnio. E cinco — Farfetch, Outsystems, Feedzai, Talkdesk e Remote — já voam com bandeira nacional. Estará Portugal a cumprir a promessa de se transformar num país hub tech? E o que falta para o catapultar para o patamar unicórnio? A ambição está lá.

“Podemos já hoje considerar-nos uma startup nation, mas a nossa expectativa é que sejamos uma scaleup nation e uma unicorn nation. É essa a nossa expectativa”, afirmou André de Aragão Azevedo, o secretário de Estado da Transição Digital, no pontapé de saída do Road 2 Web Summit. Estamos a caminho, parece. Mas é longa a estrada.

“Comparativamente com os EUA, temos uma sociedade mais avessa ao risco e ao empreendedorismo, mas tenho a plena convicção que, no futuro, teremos mais unicórnios a nascerem em Portugal e na Europa. Creio que esta mudança levará algum tempo a concretizar-se”, comenta Cipriano Sousa, chief technology officer (CTO) da Farfetch, o primeiro unicórnio com ADN português.

Existem em Portugal, cinco unicórnios, algumas scale-ups a aproximarem-se deste estatuto e um crescente número de incubadoras e aceleradoras. Só no ano passado, apesar da pandemia, foram criadas mais de 2.000 startups e levantados 435 milhões de euros, bem acima dos 200 milhões de 2016, segundo dados do Startup Hub.

João Coelho, senior director talent da Talkdesk, outro dos cinco unicórnios nacionais, faz a radiografia do momento e da estrada que o país tem pela frente. “Até agosto, registaram-se mais de 800 startups, a nível mundial, com uma avaliação superior a mil milhões de dólares, com países como a Alemanha, Reino Unido e Israel a anunciarem entre sete a dez novos unicórnios só no 1.º semestre de 2021. Estes dados — da edição mais recente do ‘Startup Genome Report’ — ilustram, porventura, o caminho já percorrido e o caminho ainda por percorrer”, realça.

Atrair hub tech

O presidente da AICEP, Luís Castro Henriques, não tem dúvidas que Portugal é já hoje “reconhecido na esfera internacional” como um hub tech. O país “tem assistido, nos últimos anos, a um crescimento sem precedentes de investimento estrangeiro na área tecnológica”. Os dados do “EY Attractiveness Survey Portugal 2021” são positivos. No ano passado deram entrada 154 projetos de Investimento Direto Estrangeiro (IDE), dos quais 70% com fundos originários da Europa e 30% de outras geografias. Ou seja, Portugal recebeu uma fatia de 3% do total de projetos de investimento estrangeiro anunciados para a Europa. E entrou no Top 10 dos países mais atrativos para o investimento internacional.

O país tem assistido, nos últimos anos, a um crescimento sem precedentes de investimento estrangeiro na área tecnológica.

Luís Castro Henriques

Presidente da AICEP

“Nos últimos cinco anos, estabeleceram-se 80 hubs tecnológicos, totalizando a criação de mais de 8.500 postos de trabalho”, adianta o presidente da AICEP. Lisboa e Porto acolhem 85% destes centros, mas tem-se “assistido a uma crescente atratividade” por cidades como Aveiro, Braga, Leiria, Vila Real e Viseu, “na medida em que são servidas por Universidades e Institutos de Ensino Superior”.

Alemanha, EUA, Reino Unido e França lideram esses investimentos. “Existe particular predominância para empresas de tecnologias de informação e comunicação, mas também do setor financeiro, automóvel e life sciences”. Mas, sinal dos tempos, se inicialmente a aposta era o desenvolvimento de software, “nos últimos anos temos assistido a uma expansão e especialização para atividades como data analytics, cloud, inteligência artificial, cibersegurança e blockchain.”

A Natixis aterrou no Porto em 2017 e a cidade recebeu o segundo hub do banco francês na Europa. Queria recrutar 640 colaboradores, hoje são mais de 1.200, de 21 nacionalidades e, até ao final do ano, querem “integrar mais 400 colaboradores com diferentes backgrounds, perfis e níveis de senioridade, incluindo jovens elegíveis para estágios profissionais do IEFP”, adianta Etienne Huret, diretor-geral da Natixis em Portugal. Daqui saem “muitos projetos, plataformas e soluções da Natixis pensados, testados e lançados à escala global, para dar suporte às várias unidades de negócio do banco.”

“Cada vez mais Portugal é um país de referência para a instalação de empresas tecnológicas e para o crescimento das que já se encontram aqui baseadas”, considera Mark Jacobi, diretor-geral da VW Digital Solutions, hub tech do grupo automóvel alemão que abriu operação em 2019. Nesse mesmo ano, lembra, também a IBM, a Cloudflare e a Oracle anunciaram a instalação de novas equipas. Hoje são mais de 230 colaboradores em Portugal — querem ser 450 até 2022 — mercado onde contam investir 91 milhões de euros em três anos. “Tem sido evidente para o Grupo Volkswagen que o valor aportado pelos projetos desenvolvidos em Portugal tem sido fundamental para o seu processo de digitalização. É em Portugal que estamos a desenvolver, por exemplo, software que tem impacto direto na gestão de frotas de pesados com consequências na poupança de combustíveis", diz. No país está também a “equipa que está a desenvolver software de gestão e acompanhamento de processo de vendas de carros elétricos juntamente com colegas na Alemanha”. “Temos dezenas de projetos absolutamente fundamentais para o futuro do grupo.”

Face aos ambiciosos números de crescimento das empresas, é imprescindível focar no talento internacional.

Mark Jacobi

Diretor-geral da VW Digital Solutions

Manuel Vilhena não tem dúvidas sobre o poder de atração do país junto à comunidade tech. “Possui tudo o que uma empresa tecnológica procura hoje em dia — acesso a talento altamente qualificado, num regime regulatório favorável, e com uma qualidade de vida ímpar”, destaca o head of operations & international business da Lisbon Nearshore. Mas não só. “Portugal é um excelente mercado de teste — o que tende a resultar aqui, resulta em mercados de dimensão maior, e vice-versa. Os portugueses são consumidores altamente informados, experimentadores do ponto de vista tecnológico e bastante flexíveis”, realça. Motivos que mais do que justificam o interesse externo. “A procura vem principalmente do centro e norte da Europa, embora agora venhamos a ter um aumento da mesma vinda da América do norte. Temos criado dezenas de postos de trabalho altamente qualificados, e bem remunerados, por ano, para projetos com empresas da lista Fortune 500.”

“Holofote" Web Summit

Potencial que a Web Summit (WS) ajudou a dar visibilidade. “Conhecemos casos de várias empresas de renome internacional (algumas nossas clientes) que se estabeleceram cá depois de terem vindo à WS. É uma boa montra”, considera o head of operations & international business da Lisbon Nearshore. Miguel Fontes chama-lhe “holofote”. Se hoje “somos internacionalmente reconhecidos como um país que rima com inovação, com tecnologia, com empreendedorismo” em parte se deve à realização da cimeira tecnológica no país, defende. “Se quisermos numa imagem, a WS é o holofote: a realidade estava cá e muita dela escondida e, portanto, incidir uma luz tão forte como a da WS sobre essa realidade, tornou-a mais visível. Tornando-a mais visível, ajuda-a a desenvolver-se e, portanto, é uma dinâmica que se alimenta a si própria”, argumenta o diretor executivo da Startup Lisboa.

Cinco anos de WS e dez anos de Startup Lisboa depois — com mais de 400 startups incubadas e 150 milhões de investimento levantados — temos um ecossistema “mais maduro e mais internacional” e “mais startups que se vêm instalar em Portugal, e nomeadamente em Lisboa, a partir de fora”.

“A WS deu oportunidade a dezenas de startups de fazer networking, desenvolver negócios com investidores e grandes empresas. Criou, no fundo, um espaço inovador de partilha de boas práticas, procura de investimento, mostra de inovação e lançamento de produtos. Conseguiu juntar tudo isto num único evento. Trouxe grandes nomes tecnológicos a Portugal, abriu espaço a discussões alargadas sobre o ecossistema tecnológico e deu notoriedade a Portugal junto de uma população tecnológica”, refere Cipriano Sousa, da Farfetch.

Portugal deu um salto muito grande, o que pode ser facilmente comprovado com o número de unicórnios portugueses desde a aterragem da Web Summit ao país: de zero a cinco.

Inês Sequeira

Diretora da Casa do Impacto

A cimeira mostrou “que o ecossistema tecnológico do país é virtuoso e que temos capacidade de nos posicionarmos frente a outros hubs europeus como Berlim e Londres”, considera Caetana Abreu Katzenstein. O efeito WS faz-se sentir essencialmente na “mentalidade”, defende a head of operations da Lisbon Tech Guide. “As pessoas passaram a saber o que é um empreendedor, como criar um negócio, como levantar investimento e como levar o negócio a novos mercados.” Entre 2016 e 2020, o “número de incubadoras cresceu 40% e, atualmente, contamos com 160 incubadoras e mais de 2.000 startups em atividade, 13% acima do número médio de startups per capita na Europa (190)”, destaca Caetana Abreu Katzenstein, da Lisbon Tech Guide, que opera em Portugal desde 2019, trabalhando maioritariamente com startups da Europa central e EUA, de séries A/B, gerindo um investimento anual de cerca de 3,5 milhões de euros.

“A vinda da WS posicionou Portugal como um hub de empreendedorismo e tecnologia lá fora, colocando o país e empreendedores visíveis perante o ecossistema internacional. Com este impulso, Portugal deu um salto muito grande, o que pode ser facilmente comprovado com o número de unicórnios portugueses desde a aterragem da conferência ao país: de zero a cinco exemplos — a Farfetch, a OutSystems, a Talkdesk, a Feedzai e a Remote”, destaca Inês Sequeira, diretora da Casa do Impacto, que incuba 35 startups — tem mais 13 a participar nos seus programas — com negócios de impacto social e ambiental, atuando em áreas como ambiente, educação, finanças verdes, emprego, ou envelhecimento. E prova desse efeito multiplicador é a parceria fechada com a London School of Economics (LSE), que surgiu no âmbito de um evento da WS, o Ecosystem Summit em 2019. “Um ano e meio mais tarde, o hub de empreendedorismo de impacto da LSE, o Generate, escolheu a Casa do Impacto para a sua primeira localização fora do Reino Unido”, diz.

O caminho pela frente...

Mas ainda há muito a fazer, sobretudo, no que toca à “simplificação de procedimentos” burocráticos e fiscais. “É extraordinariamente difícil criar uma empresa de referência mundial a partir de Portugal. Não temos margem de manobra para lidar com (ainda mais) obstáculos que dificultem a vida a estas empresas tecnológicas, sobretudo na capacidade de atrair talento e investimento. Se não eliminarmos esses fatores, vamos perder as pessoas mais qualificadas e, dessa forma, ficar fora dos planos dos empreendedores e das empresas mais promissores”, alerta Alexandre Barbosa, managing partner da Faber, capital de risco que, ao longo dos últimos anos, investiu em 28 empresas, que angariaram 260 milhões de euros até à data, e estão “ativamente a investir” a partir fundo Faber Tech II (30 milhões de euros).

A Web Summit é o holofote: a realidade estava cá e muita dela escondida e, portanto, incidir uma luz tão forte como a da WS sobre essa realidade, tornou-a mais visível. Tornando-a mais visível, ajuda-a a desenvolver-se e, portanto, é uma dinâmica que se alimenta a si própria.

Miguel Fontes

Diretor executivo da Startup Lisboa

“Portugal é dos países com carga fiscal mais pesada, o que é muito penoso para pequenas e médias empresas, e também um entrave à escala e ao crescimento. Este desafio afasta inúmeras empresas portuguesas, que se deslocalizam para outros países quando começam a atingir uma dimensão relevante — são empresas portuguesas, sim, mas não contribuem para o PIB português. É, por isso, urgente descodificar a legislação tributária para que seja menos pesada e evitar este escoamento de riqueza”, destaca Cristina Almeida. O Reino Unido, por exemplo, “removeu obstáculos ao empreendedorismo com a criação de incentivos fiscais a investimento em startups como o EIS e SEIS que permite trazer mais capital early stage para startups permitindo a que mais pessoas sejam business angels porque têm benefícios fiscais significativos”, refere a head of platform da Maze, que, desde outubro de 2019, já investiu 10 milhões — de um total de 45 milhões — em 22 startups europeias, das quais cinco portuguesas.

Mas ainda há muito a fazer, da Lei do Trabalho à carga fiscal que incide sobre a remuneração. Caetana Abreu Katzenstein fala em barreiras. A primeira é a atual taxa de Segurança Social. “Por muito que as empresas internacionais queiram contratar em Portugal, e que essa contratação acabe por ficar ‘mais barata’ do que no país de origem, começam a perceber que a maior parte do custo que um colaborador representa não é valor acrescentado ao colaborador, mas ao Estado”, refere a head of operations da Lisbon Tech Guide. E a Lei de Trabalho também não ajuda. “Precisamos de modelos mais flexíveis e que permitam às empresas ajustar estruturas de custo e de recursos humanos em função da necessidade em cada momento”, diz. “A maior parte dos colaboradores não faz ideia quanto é que ganha antes de impostos, pois o nosso sistema fiscal é demasiado complicado”, diz. “Na área de IT já começamos a notar que existe um movimento de profissionais que quer decidir como gerir os seus rendimentos e otimizar a sua situação fiscal. Tornando-se freelancers ou contractors desde Portugal para o estrangeiro e, em vez de receberem um vencimento, acabam por trabalhar com base em avenças ou rates diárias”, destaca.

Como atrair talento...

E depois há o desafio do talento e de como o atrair, alimentando com nova energia o ecossistema. “A primeira fase de atração está ganha, mas para a atração de mais riqueza e escalabilidade das empresas, devemos produzir mais talento e saber retê-lo”, diz Inês Sequeira, da Casa do Impacto.

Na área de IT já começamos a nota que existe que existe um movimento de profissionais que quer decidir sobre como gerir os seus rendimentos e situação fiscal.

Caetana Abreu Katzenstein

Head of operations da Lisbon Tech Guide

E não está só nesta visão. “Para sermos em definitivo um país hub tech, a retenção e atração de talento é fundamental. Por esta razão todos os fatores que contribuem para isso são críticos. Tudo o que seja facilitar, quer o regresso de portugueses qualificados que estão lá fora, quer a atração de talento estrangeiro é bem-vindo. Por exemplo, o tema da habitação pode ser um obstáculo, continuamos a ter um mercado de arrendamento limitado e outras alternativas como o coliving são muito raras”, aponta Vasco Rosa da Silva, CEO e founder da Kleya, empresa que já deu suporte a startups com planos para criar 300 postos de trabalho, dos quais cerca de metade poderão vir fora do país.

Se o talento é o que também atrai muitas empresas a instalar-se em Portugal, o certo é que é que a capacidade de formação das universidades não serve toda a procura. E há que atrair talento externo a considerar o país como opção de vida, para mais num momento em que a pandemia teve o dom de provar que, para os trabalhos com base no conhecimento, o remoto pode ser o melhor amigo da produtividade. E neste campo há mesmo muito a fazer. “É fácil e rápido criar uma empresa mas é muito burocrático, lento e exasperadamente kafkiano registar e legalizar um trabalhador de fora da UE na Autoridade Tributária e Segurança Social”, alerta Manuel Bastos. “A reforma e digitalização do sistema são absolutamente cruciais para que esta nova geração de empresas se possa concentrar no que sabe fazer melhor: criar valor, atrair e reter talento”, reforça o cofundador do Heden, que, em 2018, abriu o primeiro de cinco espaços em Lisboa, tendo atraído, entre outros, dois unicórnios brasileiros (Gympass e Loggi) e uma escola tecnológica (Ironhack).

João Coelho destaca a iniciativa Tech Visa, referida num estudo recente do Eurofundo (“Tackling Labour Shortages in EU Member States”) como “exemplo de boa prática de atração desenvolvida em ou por Portugal”. Para o senior director talent da Talkdesk. “Para continuar a atrair talento para o país, Portugal deve multiplicar este tipo de iniciativas, identificando em conjunto com think tanks e grupos de interesse, o seu posicionamento junto da comunidade tecnológica”, defende. “Uma forma de o fazer será, por exemplo, por via de iniciativas como a Portugal Tech League, que pretende envolver a comunidade tecnológica nas políticas digitais europeias, com o objetivo de partilhar, de modo legível e acessível, as informações mais pertinentes com o mercado”, diz o responsável da Talkdesk, um dos membros fundadores desta iniciativa, criada em setembro pela consultora de inovação colaborativa Beta-i, juntamente com a CIP, Investors Portugal ou a Startup Portugal, entre outros.

“Olhamos muito para a Estónia como um exemplo. Se Portugal criasse um programa de e-residency para empresas semelhante ao do país báltico, poderia captar receitas fiscais suficientes que suportassem uma descida da carga fiscal para as empresas portuguesas”, aponta Manuel Vilhena, da Lisbon Nearshore.

Inúmeras empresas portuguesas, deslocalizam-se para outros países quando começam a atingir uma dimensão relevante. É urgente descodificar a legislação tributária para que seja menos pesada e evitar este escoamento de riqueza.

Cristina Almeida

Head of plataform da Maze

Marco Jacobi, diretor-geral da VW Digital Solutions, destaca igualmente mexidas na área fiscal de modo a atrair talento internacional. “Face aos ambiciosos números de crescimento das empresas, é imprescindível focar no talento internacional. Seria positivo ver mais projetos para a atração de talento fora de Portugal, através de iniciativas como uma descida da carga fiscal para os primeiros dois a cinco anos de contrato nas áreas em que há escassez de talento”, sugere.

(Este artigo faz parte da edição novembro/dezembro da revista Pessoas)

Assine para ler este artigo

Aceda às notícias premium do ECO. Torne-se assinante.
A partir de
5€
Veja todos os planos