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Primal Gathering. Plantar árvores pela sua saúde mentalpremium

Restaurar as florestas, através da plantação de árvores e, ao mesmo tempo, restaurar as relações humanas é o objetivo deste retiro. É tempo de abrandar, pôr as mãos na terra e refletir.

Foi preciso sofrer um grave esgotamento para Nicole Bosky perceber que era urgente mudar o seu estilo de vida e começar a cuidar de si. Esta viagem interior que se propôs fazer, após uma intervenção cirúrgica, levou-a à Índia, ao Brasil, ao Peru, à Colômbia e, finalmente, a Portugal, onde aterrou em 2017 e onde viria a criar o projeto da sua vida, o Primal Gathering. O movimento, assente na colaboração e respeito pela natureza e pelos outros, tem um único objetivo: “deixar as pessoas e os lugares melhores do que aquilo que os encontramos”.

“Em Portugal mergulhei profundamente na autoinvestigação e autodesenvolvimento. Experimentei uma série de terapias holísticas e percebi que quanto mais tempo investia no meu próprio desenvolvimento, com o apoio da comunidade, melhores eram as minhas relações e até a minha consciência ambiental cresceu”, recorda Nicole Bosky. Assim lançou — ainda sem saber — as sementes que dariam origem ao Primal Gathering, um movimento que promove a saúde mental através de retiros ecológicos. A chegada da britânica a Portugal coincidiu com os incêndios de 2017, que devastaram várias zonas do país, deixando grande parte da floresta queimada. Perante o desafio ecológico, Nicole Bosky decidiu que era altura de fazer a diferença: começou por abordar os proprietários rurais e encorajou-os a plantar espécies florestais biodiversas. Dessa semente, pouco a pouco, nasceu e consolidou o conceito do Primal Gathering: “um contexto e um espaço onde as pessoas se reuniam para regenerarem as suas relações e o ambiente, apoiando proprietários locais nas suas necessidades de restaurar as terras.”

A iniciativa foi crescendo e Nicole Bosky — que trabalhou num projeto global com a ONU e tem no seu percurso experiências em networks de publicidade e media — percebeu que havia um grande potencial neste conceito, que, além de valorizar os recursos da terra, promove o bem estar emocional. Desde 2018, o grupo Primal Gathering já reuniu cerca de quatro mil pessoas em mais de 45 ações de valorização da saúde mental. Entre as ações mais significativas, incluem-se a restauração de uma floresta em Odemira e a plantação de 800 árvores de fruto e vegetais em dois canteiros elevados, em Sintra.

A expectativa do grupo é que, durante os próximos cinco anos, sejam plantadas dez mil árvores em diferentes zonas do país. E para isso, a fundadora do projeto assume agora promover os retiros ecológicos junto de empresas de diversos setores, através de sessões de team building.

“[Numa empresa com 50 colaboradores] se cada trabalhador plantar 20 árvores num retiro, chegamos ao fim da ação com mil plantações. O mundo empresarial beneficiaria com a introdução destas práticas e atividades como forma de criar laços entre as equipas de trabalho e de manter os colaboradores motivados, saudáveis, confiantes e felizes”, fomentando a saúde mental , explica a fundadora.

Combater o burnout com a natureza

Não olhar para o tema da saúde mental dos colaboradores é uma decisão com custos elevados. A partir de 2020, as doenças mentais podem custar 3,2 mil milhões de euros por ano às empresas portuguesas, de acordo com o “Relatório do Custo do Stress e dos Problemas de Saúde Psicológica no Trabalho, em Portugal”, da Ordem dos Psicólogos. “Em 2013, por exemplo, o stress relacionado com o trabalho custou anualmente à União Europeia 617 mil milhões de euros”, valores que incluem o montante gasto em cuidados de saúde e os dias perdidos devido ao absentismo, recorda Nicole Bosky.

“O stress, juntamente com demasiado tempo em frente dos nossos ecrãs numa cultura ‘sempre ligada’, tem sido associado a uma perda de empatia, falta de altruísmo, depressão e alto risco de burnout”, diz. A natureza surge como um potencial antídoto. “A simples visualização de um espaço verde através de uma janela pode relaxar as pessoas e reduzir os níveis de stress. Isto serve para mostrar o poder de simplesmente estar próximo da natureza. Numerosos estudos sugerem que combinar os efeitos positivos de estar na natureza com atividades ao ar livre pode reduzir severamente os sintomas de ansiedade e stress, bem como melhorar a concentração, criatividade, saúde física, confiança e autoestima, aumentando os níveis de serotonina e dopamina no cérebro.”

Nos retiros ecológicos do Primal Gathering, Nicole Bosky adotou uma abordagem holística e incorporou quatro pilares: mindfulness, comunicação, nutrição e atividades na natureza. “A reunião e a cocriação de um projeto com o outro cria confiança, encoraja a comunicação e aumenta a colaboração entre os colaboradores”, diz. “Os nossos esforços na formação de equipas são realmente eficazes porque, não só envolvemos os funcionários da empresa, o que é bom para a cultura da empresa, mas também melhoramos o seu bem-estar a longo prazo, dotando-os de competências que podem incorporar no seu dia a dia, tornando-os mais felizes e saudáveis.”

Os nossos esforços na formação de equipas são realmente eficazes porque, não só envolvemos os funcionários da empresa, o que é bom para a cultura da empresa, mas também melhoramos o seu bem-estar a longo prazo, dotando-os de competências que podem incorporar no seu dia a dia, tornando-os mais felizes e saudáveis.

Nicole Bosky

Fundadora do Primal Gathering

Neste momento, os participantes destes encontros são, normalmente, pessoas com um “grande desejo de melhor-se a si mesmas, têm algum tipo de interesse no autodesenvolvimento e curiosidade em aprender mais sobre a natureza e a regeneração”, conta, acrescentando que o público é, por isso mesmo, bastante intergeracional, transcultural e socioeconómico diversificado. “Desde famílias com crianças pequenas a empresários de indústrias diferentes ou pessoas na casa dos 70 anos. É algo que acredito que nos torna únicos. Os nossos encontros convidam pessoas de todos os estratos sociais a juntarem-se e a dotarem-se de novas competências”, continua Nicole Bosky.

Para já, algumas pequenas empresas do ramo tecnológico já se uniram aos retiros, mas o objetivo é alargar o encontro ao mercado corporativo, bem como expandir o movimento a outros países. “Depois de termos passado os últimos quatro anos a cultivar e a afinar um modelo que vemos ser eficaz e transformacional, tanto para os participantes como para os espaços em que trabalham, sentimos que é altura de partilhar este modelo com o mundo. O nosso foco em 2022 é implementar um Primal Gathering anual no Reino Unido e, possivelmente, em Nova Iorque até 2023”, adianta a fundadora do projeto. Está à procura embaixadores que queiram também fazer um retiro ecológico nos seus países, inspirando a um estilo de vida ambientalmente e psicologicamente regenerativo.

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