Robôs desinfetantes, camuflagem biométrica e outras tendências “tech” em 2021premium

Todos os anos, o Future Today Institute divulga um relatório de tendências tecnológicas. A edição de 2021 acaba de sair e o ECO resumiu uma tendência por cada uma das 11 áreas abrangidas.

Há motivos para argumentar que, nos últimos anos, tem havido uma banalização do discurso à volta das tendências tecnológicas. Mas, para Amy Webb e o Future Today Institute, que lidera, descobrir quais as tendências que marcam o presente e o futuro não é tarefa despiciente. Ao longo de mais de uma década, a futurista norte-americana aprimorou uma metodologia que lhe permite definir com um bom grau de confiança as tecnologias que vale a pena manter "debaixo de olho".

Todos os anos, o resultado dessa análise é divulgado ao público num Relatório de Tendências Tecnológicas que é lido atentamente por líderes políticos, gestores, empreendedores e investidores em todo o mundo. A edição deste ano acaba de ser publicada e inclui 504 páginas de tendências, separadas em 12 volumes dedicados a áreas tão distintas como a inteligência artificial, o 5G, a medicina, o trabalho, o entretenimento, a política e a privacidade.

O ECO mergulhou no documento e resume, neste artigo, uma tendência relevante por cada uma das áreas de referência do documento. Conheça a nossa seleção ou leia o relatório na íntegra no final do artigo.

Inteligência artificial

Machine learning sem programação

A inteligência artificial não tem de ser um bicho-de-sete-cabeças. Começam a surgir plataformas que permitem a qualquer pessoa ou empresa beneficiar das vantagens da tecnologia através de sistemas de machine learning que não necessitam de conhecimentos avançados de programação.

"O machine learning está em transição, à medida que novas plataformas permitem às empresas alavancarem o poder da inteligência artificial para construírem aplicações sem terem conhecimentos específicos de código. Os negócios podem transformar as suas bases de dados em bruto em dados estruturados que podem ser treinados, e que podem usar para construir e implementar modelos com conhecimentos mínimos", lê-se no relatório.

Apple, Google e Amazon Web Services (AWS) são algumas das grandes tecnológicas que já estão a oferecer este tipo de soluções, assentes em plataformas que permitem desenvolver estas tecnologias numa lógica de drag and drop -- ou seja, visual e mais intuitiva.

Marcação e reconhecimento

Camuflagem biométrica

Estão a ser desenvolvidos tecidos e substâncias que permitem "enganar" as câmaras e os algoritmos de reconhecimento facial. Numa altura em que toda a gente está sujeita a este tipo de vigilância eletrónica, esta tendência ganha relevo sob a forma de peças de vestuário ou até cremes.

O relatório do Future Today Institute destaca o caso do empreendedor Saif Siddiqui, que desenvolveu um cachecol deste tipo. O acessório usa cristais que refletem a luz e, caso alguém tente tirar uma fotografia a quem o esteja a usar, apenas se verá o cachecol na imagem.

O instituto fundado por Amy Webb destaca ainda o caso da empresa norte-americana Road Wise, que desenvolveu uma loção que faz com que a pele fique extremamente refletiva. O creme, chamado "Safety Skin", tem uma dupla função: por um lado, é ideal para dar segurança a ciclistas ou corredores que gostem de praticar estas atividades à noite; mas é também capaz de enganar sistemas de reconhecimento artificial, servindo de camuflagem biométrica.

Já foram criados cremes e acessórios que permitem "enganar" os sistemas de reconhecimento facial.Pixabay

Trabalho, cultura e jogos

Nova semana híbrida de trabalho

Para o CEO do Goldman Sachs, o teletrabalho é "uma aberração" que tem de ser corrigida. Para o CEO da plataforma de e-commerce Shopify, "a centralidade do escritório acabou". Uma das grandes dúvidas da atualidade é como vai ser o futuro do trabalho quando a propagação da pandemia abrandar. Não há uma resposta certa e as opiniões divergem.

Estudos têm mostrado que a maioria dos trabalhadores parece preferir um modelo híbrido, com dias de trabalho em casa e outros no escritório. "Empresas como Facebook, Twitter, Square, Shopify e Slack já se comprometeram a permitir que os funcionários trabalhem remotamente, mesmo depois de os confinamentos e as restrições de distanciamento social terminarem, abrindo caminho para o surgimento de forças de trabalho híbridas", indica o relatório.

Alguns dos impactos desta nova realidade estão anunciados: "As empresas participantes vão, provavelmente, deter menos imobiliário comercial e redesenhar os escritórios para acomodarem menos cabeças e para a realização de reuniões híbridas, entre pessoas fisicamente presentes e trabalhadores remotos." A expectativa é a de que este modelo fomente melhor qualidade de vida e saúde mental aos trabalhadores.

Saúde, medicina e wearables

Análises laboratoriais em casa

Fazer análises implica alguma logística -- marcação, deslocação ao local de colheita e tempo de espera até se conhecerem os resultados. Em breve, algumas das coisas que temos na casa de banho vão poder ser usadas para monitorização e testagem diária.

"Uma vez que as sanitas estão em contacto direto com duas grandes fontes de dados -- a nossa pele e os nossos dejetos --, elas oferecem oportunidades para analisar a nossa saúde em tempo real", explica o relatório. Por exemplo, investigadores da Universidade de Stanford foram capazes de identificar "diferentes cancros, doenças do fígado e doenças dos intestinos" através de um conjunto de sensores localizados nas mesmas.

Esta é a primeira vez que o Future Today Institute inclui esta tendência num dos seus relatórios anuais, destacando, desde logo, que o fenómeno está a ser exacerbado pela Covid-19. "Com a telemedicina a ser o novo normal, testes laboratoriais em casa vão aumentar e romper com as empresas de diagnóstico", lê-se no documento.

Automação da casa e eletrónica de consumo

Robôs desinfetantes

A Covid-19 gerou novos desafios e impulsionou um novo segmento da robótica: os robôs desinfetantes. São, em linhas gerais, gadgets ou dispositivos que incluem "armas" capazes de inativar vírus.

Alguns já eram usados para esterilização de espaços em hospitais antes da pandemia, mas são agora uma tendência em centros comerciais e, em breve, nas casas e nos escritórios.

Um exemplo disso é o robô CLOi da LG, que mais "parece um aquecedor com rodas", aponta o relatório. "Usa raios ultravioleta para desinfetar" zonas altamente frequentadas e tocadas pelas pessoas, acrescenta o instituto de Amy Webb.

Este robô da LG é capaz de desinfetar espaços frequentados por multidões, protegendo contra a Covid-19.LG

Política e governo

Passaportes de vacinação

É outra tendência desencadeada pela pandemia -- e é público que a Comissão Europeia está a ponderar adotá-la.

"Vários países estão a exigir prova de vacina da Covid-19 nas fronteiras em 2021. Grandes empresas tecnológicas estão a trabalhar para desenvolver sistemas de identificação digital que vão funcionar como passaportes de vacinação", refere o relatório de tendências.

Há várias iniciativas em curso, o que pode gerar entropia na universalização. Por isso, há já um instituto chamado Covid-19 Credentials Initiative que "está a trabalhar para desenvolver um conjunto de padrões para os passaportes de vacinação".

Privacidade e segurança

Sonic Lock Picking

Os sistemas de segurança tradicionais estão cada vez mais obsoletos e o fim da passwords como as conhecemos é anunciado pela chegada de tecnologias como a computação quântica. Mas há um sistema bem mais clássico que também pode ter os dias contados: as chaves lá de casa.

Segundo o relatório de tendências, a tecnologia de machine learning está a ser "usada para reconhecer e regenerar sons, incluindo o som de alguém a introduzir uma chave numa fechadura". "A sequência única de cliques metálicos pode ser decifrada usando software de processamento de sinais para replicar a forma precisa do canhão da fechadura num programa computacional", alerta Amy Webb.

Como resultado, esta técnica pode ser usada por um burlão para desenvolver um clone funcional da mesma chave, em plástico, usando impressão 3D. "É um exemplo de uma grande vulnerabilidade num sistema de segurança legacy que abrange cofres mais antigos e fechaduras tradicionais", lê-se no relatório.

As chaves lá de casa podem ficar obsoletas à medida que a tecnologia avança, gerando novos desafios.Paula Nunes / ECO

Blockchain, fintech e criptomoedas

Moedas digitais dos bancos centrais

O valor de muitas criptomoedas voltou a disparar nos últimos meses e há quem defenda que a bitcoin é o futuro do sistema financeiro. A moeda virtual mais popular do mundo alcançou recentemente um novo recorde, de 60 mil dólares a unidade.

Este fenómeno é uma ameaça existencial aos bancos centrais, que emitem moeda e asseguram a estabilidade (e centralismo) do sistema. Alguns estão a seguir a velha máxima do "se não os podes vencer, junta-te eles", como é o caso do Banco da China, que promoveu com sucesso o piloto do yuan digital no ano passado, envolvendo "mais de quatro milhões de transações entre abril e dezembro de 2020".

Outros bancos centrais preparam-se para lançar ou já lançaram moedas virtuais assentes na blockchain, a tecnologia do "livro de registos" descentralizado que permite este tipo de inovação. Na Zona Euro, o Banco Central Europeu não planeia, para já, lançar uma criptomoeda "soberana", mas está a empenhar esforços na criação do euro digital.

5G, robôs e transportes

Rede 6G

Portugal ainda não tem rede móvel de quinta geração, mas o mercado internacional já está noutra. Empresas de tecnologia e operadoras de telecomunicações estão a trabalhar na definição do que deverá ser o 6G na próxima década, a sexta geração de rede móvel, que deverá servir de base a tecnologias que ainda nem sequer foram inventadas.

"O projeto Hexa-X, a primeira iniciativa de investigação da Comissão Europeia em 6G, arrancou em janeiro de 2021, em preparação para o que virá a seguir ao 5G", informa o relatório de tendências. E o fenómeno também chega a Portugal. Em março de 2020, em Aveiro, responsáveis da Altice Portugal apresentaram aos jornalistas uma visão sobre o que poderá ser o 6G, com "velocidades na ordem dos Tbps [terabits por segundo]" e grandes edifícios e estradas a servirem de antenas.

Para já, a prioridade é lançar o 5G, uma tarefa já de si complexa, devido ao grande número de variáveis. No relatório, Amy Webb escreve que "os especialistas acreditam que o que vierem a aprender com a construção do 5G tornará mais fácil a transição para o 6G".

Energia, clima e espaço

Chuvas de mercúrio

O Future Today Institute assegura que novos sistemas de propulsão poderão usar mercúrio como combustível, "correndo o risco de espalhar químicos tóxicos pela atmosfera da Terra".

"A startup Apollo Fusion descobriu uma nova abordagem para o uso de mercúrio, mas com um senão. O mercúrio é mais pesado do que o xénon e o crípton usado nos motores de iões atuais. O que os clientes podem poupar em custos pode poluir a atmosfera de formas muitos prejudiciais", lê-se no documento.

Não é a primeira vez que surge esta ideia. O instituto fundado por Amy Webb lembra que, nos anos 60 do século XX, a NASA também experimentou usar mercúrio para propulsão de foguetões. Mas a corrida espacial tem vindo a ganhar novo ritmo e as "chuvas de mercúrio" poderão vir a tornar-se num problema.

Biologia sintética, biotecnologia e agricultura

Armazenamento em ADN

E se as suas células fossem como uma pen drive? Não é exatamente isso a que se refere esta tendência, mas anda lá perto. A futurista Amy Web recorda que, em 2018, cientistas da Microsoft e da Universidade de Washington conseguiram codificar 200 Mb de dados nem ADN humano, incluindo 35 vídeos, imagens, áudio e ficheiros de texto com tamanhos entre 29 Kb e 44 Mb.

"Até à data, os cientistas armazenaram [em ADN humano] um cartão-presente de 50 dólares da Amazon, um sistema operativo e o filme L'arrivée d'untrainen gare de La Ciotat", conta o relatório de tendências. Mas há mais. Além disso, em 2020, cientistas da universidade de Tianjin, na China, conseguiram armazenar 445 Kb de dados numa bactéria E. coli.

"É um ramo estranho da ciência biológica, sim, mas a computação humana tem vários propósitos práticos: o ADN pode resolver problemas futuros de armazenamento de dados. Também é duradouro: cientistas evolucionários estudam frequentemente ADN com milhares de anos para aprenderem mais sobre os antepassados dos humanos", indica o relatório de tendências tecnológicas de 2021.

O nosso ADN armazena informação genética e também pode vir a ser usado para guardar conteúdos informáticos.

Clique aqui para fazer download do relatório na íntegra.

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