• Especial por:
  • Luís Leitão

Se quer poupar na conta da eletricidade mude de operador

Analisámos todas as propostas do mercado: provavelmente está a pagar mais do que devia pela eletricidade em sua casa. Mudar de comercializador pode valer-lhe uma poupança de quase mil euros por ano.

O ano tem sido marcado por uma subida considerável do custo da eletricidade no mercado grossista de eletricidade ibérico (Mibel). A 8 de março chegou inclusive a ultrapassar os 570 euros por megawatt-hora (€/MWh), cinco vezes mais do que o preço médio registado em 2021. Desde então, o preço tem corrigido, mantendo-se atualmente perto da barreira dos 150 €/MWh.

A escalada de preços que se tem sentido no Mibel, particularmente desde maio de 2021, é apontada pela Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) e pelos comercializadores de eletricidade como a razão para a atualização das tarifas de energia, que se tem repercutido numa conta da luz mais elevada no orçamento das famílias e das empresas.

Ainda recentemente, o Instituto Nacional de Estatística (INE) revelou que em julho a taxa de inflação situou-se nos 9,1%, o valor mais elevado desde 1992, apontando para a subida do preço da eletricidade como um dos principais responsáveis para este recorde.

Para que o aumento do preço da eletricidade não desfira um rude golpe no seu orçamento, aproveite para consultar o mercado e escolher o tarifário mais económico para o seu consumo. O ECO dá-lhe uma ajuda.

Encontrar uma agulha num palheiro

A concorrência no mercado livre de eletricidade é feroz. De acordo com a ERSE, são 29 os comercializadores que disponibilizam soluções para a generalidade dos consumidores domésticos. A estes somam-se 15 comercializadores de último recurso que disponibilizam eletricidade em zonas onde não existam propostas no mercado livre, aos consumidores economicamente vulneráveis ou a clientes cujo comercializador em mercado livre ficou impedido de exercer a atividade.

A oferta do mercado de eletricidade em Portugal é assim bastante extensa e, de acordo com uma análise do ECO às tarifas e propostas disponíveis nos sites de todos os comercializadores, é também marcada por uma enorme amplitude de preços entre as diferentes ofertas.

Por exemplo, para uma potência contratada de 6,9 quilovolt-amperes (kVA) e um consumo de 5000 quilowatts-hora (kWh) por ano (consumidor-tipo de uma família com dois filhos, segundo a ERSE), a diferença entre a proposta mais elevada do mercado e a mais económica é de quase 900 euros anuais.

Para facilitar a vida dos consumidores, a ERSE disponibiliza no seu site um simulador de preços de energia. É uma boa ajuda para encontrar o plano de eletricidade mais económico, mas não se fique por aí.

Na comparação das diversas propostas, mais importante que comparar os preços individualmente dos tarifários, deve analisá-los de acordo com o seu consumo anual.

Tenha particular atenção ao preço da tarifa da energia (componente variável). É que quanto maior for o consumo de energia, mais relevante é esta variável para o preço final da fatura. Aos preços atuais, este comportamento nota-se com particular ênfase a partir dos 2500 kWh por ano, com a componente do consumo a pesar, em média, 79% do valor final da fatura.

Além disso, é igualmente importante perceber se o preço proposto inclui todas as taxas ao encargo do cliente, nomeadamente as tarifas de acesso às redes, que anualmente são definidas pela ERSE.

É por isso que, à primeira vista, a Endesa, através do plano e-Luz, que assume um desconto de 14% sobre o termo de potência e da energia, parece ser o operador com a proposta mais económica atualmente em vigor. Apesar de não ter o preço mais baixo ao nível da potência contratada (0,4285 €/kWh) oferece a tarifa de energia (0,1450 €/kWh) mais reduzida do mercado, sem considerar ofertas com produtos e serviços associados.

Porém, ao contrário da maioria dos operadores, os preços da Endesa divulgados na sua oferta comercial não incluem as tarifas de acesso às redes. E nas contas das famílias isso faz toda a diferença. É o suficiente para que a oferta da Endesa deixe de ser a solução mais económica por troca do “Plano Casa” da Iberdrola.

Com base no perfil de consumo médio de uma família com dois filhos que considerámos para o nosso exemplo, a conta da luz de um cliente da Endesa, considerando somente o preço da oferta comercial do operador (e que o simulador da ERSE tem em conta), traduz-se numa fatura anual de 881 euros. Adicionando as tarifas de acesso às redes, a fatura da eletricidade cresce mais 56,5 euros (ou 6,4%) para 938 euros.

Em comparação, um cliente com o Plano Casa da Iberdrola pagaria por ano 888 euros. Trata-se de um preço 30% inferior à média dos tarifários em mercado livre, praticamente o mesmo do que é atualmente oferecido no mercado regulado e 13% abaixo da oferta média no mercado indexado.

Pondere mudar para o mercado regulado

A oferta no mercado livre é muito variada. Há muito por escolher. Isso é bom para o consumidor que ainda tem do seu lado a facilidade de trocar de comercializador de energia a qualquer hora e sem qualquer custo.

Foi isso que fizeram mais de 38 mil famílias em maio, segundo os últimos dados divulgados pela ERSE no Boletim do Mercado Liberalizado de Eletricidade, publicado a 1 de agosto. A troca de operador tem sido uma constante este ano. Segundo dados da ERSE, entre janeiro e maio, todos os meses, em média, mudaram de fornecedor no mercado liberalizado 46 mil clientes. Mas será que todos tomaram a decisão acertada?

O mercado livre agrega hoje mais de 5,47 milhões de consumidores (quase 86% do mercado). Porém, são raras as propostas que se revelam mais competitivas que a proposta do mercado regulado, cuja tarifa é definida anualmente pela ERSE.

Ao dia de hoje, o preço definido pela ERSE para a tarifa regulada é de 0,1542 €/kWh. Do lado oposto, no mercado livre, o preço médio da tarifa de energia é de 0,2244 €/kWh, mais 46% do que o preço praticado em mercado regulado.

A diferença de preços ao nível da potência contratada também se nota na carteira: no caso de uma potência de 6,9 kVA, a oferta em mercado livre é, em média, 18% mais cara do que no mercado regulado; e, para uma potência de 10,35 kVA, a diferença fica-se pelos 16%.

Tudo somado, e recuando ao perfil de consumo médio de uma família-tipo com dois filhos (consumo médio anual de 5000 kWh), verifica-se que a oferta em mercado livre, em termos médios, chega a ser 42% mais cara do que a oferta disponibilizada em mercado regulado.

Aos preços atuais da eletricidade em Portugal, é difícil não considerar uma mudança de tarifário para o mercado regulado. Afinal, os preços praticados são amplamente mais baixos do que os praticados no mercado livre. Apenas o tarifário da Endesa oferece um preço mais baixo do que o praticado no mercado regulado para um consumo médio anual de 5000 kWh. Porém, se o consumo de eletricidade anual ficar abaixo dos 4500 kWh, não há um único comercializador com preços inferiores aos praticados no mercado regulado.

De acordo com o “Boletim das Ofertas Comerciais de Eletricidade”, referente ao segundo trimestre do ano, a ERSE revela que, de acordo com o consumo médio de três consumidores-tipo (1900 kWh, 5000 kWh e 10900 kWh por ano), o número de comercializadores com ofertas de eletricidade inferiores à tarifa regulada era de apenas dois. Nas ofertas duais (contratos que englobam gás e eletricidade), o número de comercializadores com ofertas inferiores à tarifa regulada era de apenas um.

Há cerca de um ano, no segundo trimestre de 2021, a ERSE dava nota de que na oferta isolada de eletricidade havia nove propostas no mercado livre mais competitivas do que a oferta do mercado regulado; e, nas ofertas duais, o número de comercializadores com propostas inferiores à tarifa regulada era de cinco.

Olhando para estes números, conclui-se que o que se passou no último ano é claramente uma derrota para o mercado livre. Por isso, em função das atuais disparidades de preços nas tarifas dos dois mercados, as famílias devem ponderar voltar ao mercado regulado.

Para mudar para o mercado regulado, os consumidores têm duas opções: mantêm-se como clientes do mesmo operador, caso este disponibilize uma oferta de tarifa regulada (tirando a Goldenergy, nenhum outro revela no seu site essa opção); ou então mudam para um dos 10 comercializadores de último recurso (CUR), na sua maioria cooperativas. Porém, é importante não esquecer que a tarifa regulada tem os dias contados. Irá terminar em 2025 e, nessa altura, todos os clientes terão de passar o seu contrato de eletricidade para o mercado livre.

Os comercializadores em mercado livre podem, se assim entenderem, disponibilizar aos seus clientes uma oferta em condições de preço regulado. Mas são raros os que o fazem. Tirando a Goldenergy, nenhum outro revela no seu sítio essa opção. Além disso, é também notória a persuasão dos comerciais para que esse passo não seja tomado. Não será difícil de ouvir do outro lado argumentos como “o mercado regulado é só para quem não consegue fazer contrato junto dos operadores” ou “é só para pessoas com dificuldades financeiras”. Foi isso que ouvimos pelo telefone quando solicitámos a mudança do tarifário para o mercado regulado.

Para mudar para o mercado regulado, os consumidores têm duas opções: mantêm-se como clientes do mesmo operador, caso este disponibilize uma oferta de tarifa regulada (tirando a Goldenergy, nenhum outro revela no seu site essa opção); ou então mudam para um dos 10 comercializadores de último recurso (CUR), na sua maioria cooperativas. Porém, é importante não esquecer que a tarifa regulada tem os dias contados. Irá terminar em 2025 e, nessa altura, todos os clientes terão de passar o seu contrato de eletricidade para o mercado livre.

Preço indexado (ainda) não é uma solução

Além do tarifário fixo, em que se encaixa a maior parte das propostas comerciais do mercado livre, que pressupõe um preço fixo por um período de tempo (normalmente um ano), há cada vez mais ofertas que apontam para tarifários indexados. Atualmente estão disponíveis sete ofertas para os consumidores domésticos.

Nestes casos, o preço da tarifa de energia é indexado ao preço grossista da eletricidade no mercado ibérico, que é publicado diariamente pelo OMIE, o operador do mercado ibérico de eletricidade (Mibel).

Em julho, o preço médio da eletricidade neste mercado situou-se nos 143,23 euros por megawatt-hora (€/MWh), 54% acima do preço médio verificado em julho de 2021 e 4,2 vezes superior ao preço médio registado no ano de 2020.

Considerando a cotação média da eletricidade no Mibel em julho e um consumo médio de energia de 5000 kWh por ano, verifica-se que o preço médio dos sete tarifários indexados à disposição dos consumidores domésticos fica 14% acima do preço praticado no mercado regulado mas 20% abaixo do preço médio das ofertas no mercado fixo – apenas um terço das ofertas no mercado fixo revela-se mais económico do que a oferta média do mercado indexado.

Hoje, mais do que nunca, como resultado dos picos dos preços médios praticados no mercado grossista, é crucial os consumidores estarem atentos à fatura da eletricidade. Enquanto os preços da eletricidade no mercado grossista não estabilizarem, é provável que os comercializadores façam atualizações dos seus tarifários numa base trimestral, como tem frequentemente acontecido com muitos. Por isso, se hoje encontrar uma oferta mais económica face ao que está a pagar, mude de comercializador. E, dentro de três meses, volte “à carga”.

Nota: Especial atualizado com informação sobre a oferta comercial da Endesa.

  • Luís Leitão
  • Jornalista

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