2016 não vai acabar assim tão mal… mas não chega

Os indicadores mais recentes revelam que 2016 vai terminar melhor do que começou, mas dificilmente vai acelerar para a meta de 1,5% previsto pelo governo para 2017.

O otimismo quanto ao cenário macroeconómico é um dos principais riscos do Orçamento para 2017. Este refere-se não só às projeções para 2017, mas também quanto ao final de 2016. É certo que já estamos em novembro, e 2016 já devia fazer parte do passado, mas até agora só conhecemos os números do crescimento do PIB referentes à primeira metade deste ano.

As estimativas do próximo ano já foram bastante escrutinadas na comunicação social (incluindo aqui no ECO) e pelas entidades independentes que já se foram pronunciando sobre o Orçamento. Já as estimativas dos últimos trimestres deste ano foram até agora pouco escrutinadas, apesar de serem bastante importantes, não só pela influência que têm para o crescimento de 2017, mas também devido ao enorme desvio verificado este ano entre as previsões do governo e a realidade: de um crescimento esperado de mais de 2% no famoso cenário macro económico, passou para 1.8% no OE apresentado em fevereiro (e também no programa de estabilidade entregue em abril), para 1.2% agora neste OE.

Ora, para este cenário de um crescimento de 1,2% em 2016 se verificar, a economia portuguesa terá de se expandir a um ritmo médio de 0,5% por trimestre nos dois últimos trimestres do ano. Tendo em conta os últimos dados conhecidos, este cenário é provável ou mais uma vez irrealista?

Resumidamente: Este cenário não parece provável, mas pelo menos já é bem menos irrealista do que as anteriores estimativas. Claro que metade do ano já passou e depois da desilusão dos primeiros trimestres, seria difícil insistir no erro, até porque para se chegar ao valor inscrito no OE para 2016, Portugal teria de crescer ao ritmo da Irlanda ou de alguns países emergentes!

Evolução do PIB Fonte: INE
Evolução do PIB
Fonte: INE

Na terça-feira, o INE divulga os dados crescimento do terceiro trimestre, mas começando com a informação já conhecida dos últimos inquéritos mensais, vemos que a mensagem é moderadamente positiva, com diferenças entre setores. Apontam assim para alguma aceleração no terceiro trimestre e até já em outubro, ainda que longe da estimativa do governo.

O indicador global de clima económico do INE desceu ligeiramente em outubro, mas depois da forte subida entre junho e setembro, está ainda assim acima do verificado no inicio do ano. A confiança dos consumidores, depois de ter atingido mínimos em agosto, recuperou bastante em setembro e outubro e esta já perto dos valores do inicio do ano.

Para esta melhoria muito terá contribuído a reversão total dos cortes salariais da função que ocorreu recentemente. Igualmente pela positiva, a confiança dos empresários da industria transformadora e do setor da construção também continuou a tendência ascendente, estando a ultima no nível mais alto desde 2008/2009 (!).

Em sentido contrário, a confiança do setor dos serviços ainda não recuperou das quedas verificadas no inicio do ano e desceu marginalmente nos últimos meses.

Já os dados de atividade demonstram a mesma diferença entre uma recuperação do lado do consumo e alguma estabilização ou queda nos outros setores. As vendas a retalho aceleraram em setembro, e tendo em conta a subida da confiança dos consumidores, conjugada com a continuação da recuperação (ainda que ténue) do mercado de trabalho deverão continuar a crescer no quarto trimestre.

Já a produção industrial, desacelerou em setembro, mas tendo em conta a recuperação dos indicadores de confiança e a subida das vendas a retalho, deverá recuperar no final do ano.

O investimento evidencia alguns sinais de recuperação, principalmente na construção, mas a ténue subida da confiança dos empresários não deixa margem para grandes euforias.

Finalmente, quanto ao setor externo, os dados mais recentes são ainda referentes a agosto, mas apontam para uma estabilização da balança comercial em terreno negativo, já que se verificou uma subida acentuada quer das exportações quer das importações.

Todos estes indicadores conjugados, e ainda a informação referente ao mercado de trabalho, apontam assim para uma estabilização ou ligeira aceleração no terceiro trimestre e, eventualmente no quarto (tendo em conta principalmente os dados encorajadores em Outubro do lado dos consumidores).

No entanto, apontam apenas para um crescimento, no máximo, em redor de 1% em termos homólogos na segunda metade do ano, ou seja, uma ligeiríssima aceleração face aos 0.9% da primeira metade. Em termos trimestrais, isto equivale a taxas de crescimento de 0,2 e 0,3% no terceiro e quarto trimestres, respetivamente, ou no máximo a 0,3% já no terceiro trimestre.

Ou seja, praticamente metade do que seria necessário para chegar ao valor esperado pelo governo para este ano. Desta forma, tudo aponta para que o crescimento da economia portuguesa não ultrapasse 1% em 2016.

Menos crescimento em 2016, novas revisões em baixa para 2017?

Partindo do cenário base do OE, e assumindo o mesmo crescimento em cadeia ao longo de 2017 (entre 0,3 e 0,4%), este pior final de 2016 retira só por si cerca de 0,2 pontos percentuais ao próximo ano. Ou seja, mesmo tendo em conta os pressupostos do OE, o PIB crescerá apenas 1,3% e não os 1,5% estimados.

Para o crescimento chegar ao valor estimado pelo governo no OE, a média das taxas de crescimento trimestral teria de subir para cerca de 0,5%, ou seja bastante acima do potencial da economia portuguesa. Desde 1995, as taxas de crescimento desta ordem apenas se verificaram imediatamente a seguir a recessões, ou em períodos em que a política orçamental é bastante expansionista, o que não é de todo o caso para 2017…

Concluindo: ainda que os indicadores mais recentes indiquem que 2016 irá terminar melhor do que começou e que a tendência de deterioração foi interrompida, estará ainda longe das (novas) estimativas do governo. O crescimento é ainda anémico e dificilmente acelerará no próximo ano para os níveis inscritos no orçamento de 2017.

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