A maquilhagem de Marques Mendes

Marques Mendes tem duas armas: a falta de vergonha e a maquilhagem. No segundo caso, se o houvesse, merecia o Nobel dos maquilhadores.

Até o Rato Mickey teria o mesmo resultado nas audiências que Marques Mendes. Explico: não há nenhum caso no mundo em que uma estação generalista meta no ar, sem contraditório, na sua hora “gold”, ao domingo em “prime-time”, um indivíduo a condicionar as percepções de quem o vê. Por isso qualquer criatura teria o mesmo desempenho no momento em que mais gente está em casa à frente do televisor.

Marques Mendes teve um trajecto político ascensional, construído na sombra do cavaquismo que premiou uma série de medíocres e lhes deu uma aura de magos no capítulo das negociatas e do comissionismo. Como todos os outros da mesma igualha, era insignificante em termos profissionais e um deserto em termos culturais. Detinha apenas o cartão do partido e um domínio da máquina – essa ignóbil estrutura de analfabetos funcionais – que lhe dava o poder que saciava o seu líder.

Passo a passo, beliscando ali e mordendo acolá, foi crescendo no PSD até chegar a líder. Nesse cargo, atingiu o brilhante desiderato de se ter tornado uma nota de rodapé na história das lideranças sociais-democratas. O seu principal legado foi ter entregue Lisboa numa bandeja de prata a António Costa em 2007.

E agora, na SIC, dá tácticas sobre a capital, critica e dá sugestões como se todos já se tivessem esquecido da sua triste figura nesse processo. É de uma hipocrisia atroz Marques Mendes abordar certos assuntos, mas o seu ego televisivo põe a nu todas as suas patologias. A tal hipocrisia, a mesquinhez, o interessezinho pessoal que lhe advém dos negócios que hoje realiza sob o manto de ser advogado. Por acaso, adorava saber quantas vezes nestes anos já esteve numa barra de tribunal.

Agora aguardo o que dirá neste domingo sobre Mário Centeno. Relembro que, quando este tomou posse, de imediato a pitonisa de Fafe anunciou que já tinha jantado com o ministro e dizia que era uma grande escolha. Passados uns meses, teríamos de saber o que o motivou realmente, anunciava que Centeno era um desastre. Vamos ver no domingo.

Todas as semanas Marques Mendes tenta agradar ao público, fala de futebol, habitualmente passando as encomendas de Joaquim Oliveira, dá notícias apesar de não ser jornalista, cola-se a Marcelo e recebe informações de Belém, elogia as suas fontes e com quem tem negócios e só os incautos julgam que ele está a ser verdadeiro. Mas sobre os negócios polémicos em que está envolvido e que têm saído em diversos jornais e revistas nada comenta. Isso é assunto tabu, sobre as escutas em que foi apanhado, moita-carrasco.

Ele, que por diversas vezes usa no seu comentário a palavra “vergonha”, não deve ter espelhos em casa. Napoleão Bonaparte dizia que as «mulheres têm duas armas: lágrimas e maquilhagem». Marques Mendes tem duas armas: a falta de vergonha e a maquilhagem. No segundo caso, se o houvesse, merecia o Nobel dos maquilhadores.

Nota: Por decisão pessoal, o autor não escreve de acordo com o novo acordo ortográfico.

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