A moeda ideológica

O Facebook anunciou uma moeda que é mais um ato da ideologia que promove o solucionismo tecnológico e pretende fugir das medidas regulatórias que se avizinham.

Anunciada para daqui a um ano, a moeda do Facebook é um perigoso instrumento que não pode ser deixado sem controlo. Quem ainda não conhece os detalhes da libra pode aproveitar e consultar aqui no ECO o excelente Descodificador sobre o tema. Em resumo, esta nova libra é mais um passo na guerra ideológica de Silicon Valley que vê apenas soluções tecnológicas para questões sociais e promete um paraíso para todos onde apenas se encontra um eldorado para os acionistas da empresa.

É impressionante como quase tudo nesta libra soa a falso. Desde logo, porque tem muito pouco a ver com as criptomoedas: este mecanismo financeiro tem muito mais a ver com o Paypal do que com a Bitcoin. Depois, porque assume lógicas falaciosas para justificar um ataque ao sistema financeiro que só visa dar mais poder ao Facebook e minar ainda mais a privacidade dos utilizadores. Há três razões fundamentais para forçar os reguladores a impedir este projeto de existir.

  • A primeira é a mais óbvia: o Facebook provou reiteradamente não ser uma instituição credível nem de confiança. Nos últimos anos mentiu repetidamente a reguladores americanos e europeus, violou várias vezes a privacidade dos seus utilizadores e violou a confiança dos mercados. Pior, tornou-se numa plataforma otimizada para ameaçar a estabilidade democrática, deu mais poder a ditadores e ainda deu uma ajudinha na promoção de genocídios e crimes diversos. O historial do Facebook está ao nível de uma organização criminosa, sendo que nenhuma máfia global alguma vez teve à sua mercê um terço da humanidade. É com base neste mercado e a partir deste treino que o Facebook está a preparar uma carteira financeira virtual, partindo de pressupostos falsos e disfarçando tudo num esquema pretensamente benemérito.
  • E essa é a segunda razão para recusar este projeto. Todas as proclamações bem-intencionadas no sentido de dar acesso bancário a quem não o tem não passam de promessas bacocas de quem não está minimamente interessado em apoiar os pobres. Tal como há anos o lema oficial do Facebook era “move fast and break things”, convenientemente disfarçado por uma missão de “ligar as pessoas”, agora o argumento de dar um acesso bancário aos pobres é igualmente falacioso. Ao contrário do que estes manipuladores de Silicon Valley julgam presumir, há dezenas de anos de estudos acumulados sobre as razões pela qual os pobres deste mundo não têm acesso ao sistema bancário. E a principal razão é… a falta de dinheiro. Se o senhor Zuckerberg quer mesmo que os pobres tenham acesso aos bancos, que abra uma fundação ou que apoie as existentes que já fazem um excelente trabalho na área.
  • A terceira razão tem a ver com o imenso perigo de concentrar tanto poder numa única entidade não escrutinada. Como se viu nos últimos anos, os tentáculos do Facebook permitem-lhe promover crimes e perturbar sistemas democráticos através da manipulação de emoções – juntar a isto o poder de gerir uma imensa reserva financeira é um risco demasiado grande que o mundo não pode correr. Imaginemos por um instante que a libra se torna um sucesso: quais serão os mecanismos que impedirão esta moeda de ser um veículo privilegiado de lavagem de dinheiro e uma forma de contornar limitações impostas pelo direito internacional a criminosos? E a gestão disso ficará ao desmando do compasso moral do senhor Zuckerberg e seus amigos? O sistema financeiro internacional tem muitos defeitos, mas ao menos tem rostos – e estes são responsabilizados e alterados em eleições livres; os interesses e motivações do Facebook são inacessíveis e inalteráveis, pelo que a troca é um pacto demoníaco com consequências muito graves.

Convém relembrar. O único objetivo do Facebook é o lucro desmedido. Nada de mal nisso, desde que jogue de acordo com as regras e respeite as leis internacionais. Nada disso tem sido feito – e não há quaisquer razões para acreditar que o vá fazer agora. Os bancos e as entidades internacionais têm de matar à nascença este projeto, sob pena de permitirem uma perturbação global ainda maior que a provocada pela eleição de Trump e do Brexit.

Ler mais: Não se julgue que o texto acima é uma defesa do sistema bancário internacional, longe disso – é apenas a recusa de uma tentativa de substituir um sistema altamente defeituoso por outro ainda pior. E a melhor maneira de promover a conversa sobre a reforma do sistema financeiro pode ser feita pela discussão das atuais limitações. É isso que ocorre em Naked Money, um muito acessível tratado sobre as falhas da economia global que foi escrito por um antigo correspondente da Economist.

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