A segunda vaga dos Clubes de Fornecedores nacionais

Os Clubes de Fornecedores evidenciam uma priorização clara da política de competitividade nacional para o aprofundamento da integração das empresas portuguesas em cadeias de valor globais.

A Iniciativa Clube de Fornecedores, promovida pelo PT2020, evidencia uma priorização clara da política de competitividade nacional para o aprofundamento da integração das empresas portuguesas em cadeias de valor globais através da qualificação, I&D e inovação, sendo muito meritória.

Em fevereiro de 2017, numa ação estratégica meritória enquadrada pelo Programa Nacional de Reformas 2016-2021 (PNR), o PT2020 lançou a Iniciativa Clubes de Fornecedores, visando a seleção e apoio de redes de empresas e entidades não empresariais do sistema de investigação e inovação nacional para consolidação de cadeias de fornecimento globais, com procuras dinâmicas e relevante grau de conteúdo tecnológico ou de incorporação de conhecimento.

O racional por detrás desta iniciativa assenta na ideia de que a forte integração do tecido empresarial nacional em cadeias produtivas mundiais e em pólos de especialização que as constituem é crucial para o aumento da competitividade do país e das suas empresas, designadamente pelos efeitos gerados ao nível da sua capacidade de inovação e de upgrading. Como se refere no PNR, importa “garantir que a captação de IDE e de grandes projetos de investimento ou projetos-âncora é acompanhada do reforço da ligação desses investimentos ao reforço e consolidação do ecossistema, procurando endogenizar os processos de inovação dos produtores que operam em território nacional”.

A Iniciativa Clube de Fornecedores está a ser operacionalizada em duas fases: uma primeira fase baseada em concurso para a seleção de propostas de redes para a consolidação de Clubes de Fornecedores e uma segunda fase baseada em concursos no âmbito dos sistemas de incentivos do PT2020 para apoiar investimentos a realizar nas empresas fornecedoras necessários à sua capacitação e competitividade para presença em clubes de fornecedores nacionais e internacionais.

A Iniciativa Clube de Fornecedores lançada em fevereiro de 2017 mereceu uma procura muito reduzida em todo o contexto nacional, não obstante o voluntarismo público associado. Em resultado, o único projeto aprovado e apoiado foi o Clube de Fornecedores Bosch, polarizado em torno da multinacional Bosch Car Multimedia Portugal, instalada em Braga. Este clube de fornecedores envolveu empresas como a Celoplás, FEHST, PRIFER, INJEX, NOVARES, KLC, MAXIPLÁS, MOLDIT, PRIREV, RIBERMOLD, SAFIPLÁS, TECNIFREZA, VIANAPLÁSTICOS, IBER, GLNMOLDS, GLNPLAST, CONTROLAR, R&D, DOURECA, entre outras, bem como entidades não empresariais como a Universidade do Minho, o INL, o CENTI, o PIEP, o CCG e a TECMINHO, com investimentos previstos até 2020 em torno dos 100 milhões de euros entre projetos de I&D, qualificação e inovação produtiva.

Entretanto, mais recentemente, foi lançada pelo PT2020 uma nova chamada para a Iniciativa Clube de Fornecedores, cuja primeira fase decorreu entre setembro de 2018 e dezembro de 2019. Esta nova chamada voltou a revelar-se tímida, tendo permitido selecionar apenas dois novos clubes: os Clubes de Fornecedores Volkswagen Autoeuropa e PSA, envolvendo empresas como a Active Space Automatition, Block Control, CME, DRT Rapid, Dura, Fehst, Introsys, Novares, Simoldes Plásticos, Visteon, Doureca, Gestamp, Motofil, MRA, Neadvance, TMG, entre outras, e entidades não empresariais como o CEIIA, a ATEC, a Universidade Nova de Lisboa, o CENTI, o CENTINFE, o CITEVE, o INESC TEC, o INL, o ISQ, o ISR, a Universidade de Aveiro e a UBI. Os concursos SI I&DT, SI Qualificação PME e SI Inovação Produtiva abriam no passado dia 27 de janeiro de 2020 e encerrarão no final de junho de 2020, envolvendo uma dotação para apoio de mais de 110 milhões de euros.

A Iniciativa Clube de Fornecedores, promovida pelo PT2020, evidencia uma priorização clara da política de competitividade nacional para o aprofundamento da integração das empresas portuguesas em cadeias de valor globais através da qualificação, I&D e inovação, sendo muito meritória. O reduzido número de clubes selecionados e a sua focagem no automóvel denota dificuldades importantes de implementação e lacunas importantes de especialização da nossa economia. Contudo, isto não deve demover as autoridades nacionais de um voluntarismo empenhado e reforçado, que permita alargar a iniciativa a outros clubes de fornecedores em atividades como a aeronáutica, as telecomunicações, os artigos de borracha, o mobiliário, a construção, o transporte aéreo, entre outras.

Os resultados e impactos da atual Iniciativa Clube de Fornecedores, para já em torno do automóvel, só se tornarão visíveis num horizonte temporal de médio prazo. Todavia, emergem já sinais de que, sob o seu impulso, Portugal vai progressivamente ganhando posição no desenho e conceção do carro do futuro. Esperemos que assim seja e que tal constitua razão para a atração de novos projetos estruturantes para o país.

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