A transição digital

O Estado pode ajudar a eliminar custos de contexto, mas no fim do dia são as empresas que acabam por contribuir para a criação do produto interno bruto

Hoje discute-se o Estado da Nação, por isso, o foco estará na macroeconomia e nas políticas públicas. A discussão é sempre bem-vinda, sobretudo quando se trata de analisar a intervenção do Estado na economia, porque as políticas públicas tendem a não ser devidamente avaliadas. Mas, independentemente dessa avaliação, que escasseia não só ao nível dos resultados obtidos, como também ao nível das opções alternativas de política, não podemos nunca esquecer que é no universo empresarial que está a chave da melhoria económica. O Estado pode ajudar a eliminar custos de contexto e pode até facilitar uma visão panorâmica sobre desafios estruturantes, mas no fim do dia são as empresas que, respondendo à procura do mercado (quer o doméstico, quer o internacional), acabam por contribuir para a criação do produto interno bruto.

Nas últimas semanas, tenho vindo a elencar algumas das principais debilidades que vislumbro nas empresas portuguesas. A falta de escala é uma delas. A debilidade financeira é outra. E a ausência de estruturas de governo societário, em particular nas pequenas e médias empresas (PME), é outra. Hoje vou acrescentar um outro elemento que, mais do que uma lacuna, representa antes um desafio geral: a transição digital que as empresas portuguesas, a exemplo das suas congéneres internacionais, vão enfrentar (e ter de ultrapassar) nos próximos anos. Do ponto de vista empresarial, o ponto de partida em Portugal não é desolador, longe disso, mas continuam a existir aspectos que poderão atrasar a transição digital de que hoje tanto se fala.

O índice “Digital Economy and Society Index” (DESI) da Comissão Europeia é uma referência nesta matéria, encontrando-se assente em cinco pilares (conectividade, capital humano, utilização de serviços digitais, integração de tecnologia digital, serviços públicos e governo digitais).

De acordo com a última actualização, ainda uma comparação da União Europeia a 28 (incluindo assim o Reino Unido), Portugal está em 19º lugar no índice global. Qualificamos relativamente pior nos eixos de capital humano (21º) e na utilização de serviços digitais (24º). Qualificamos relativamente melhor nos eixos de conectividade (12º), serviços públicos digitais (13º) e na integração (empresarial) de tecnologia digital (16º).

Os dados sugerem que o consumidor português é pouco sofisticado e que as aptidões digitais dos consumidores (e dos trabalhadores) estão longe de ser as mais exigentes. Isto representa um duplo desafio para as empresas portuguesas. Por um lado, faz com que a procura associada ao mercado doméstico, à qual a esmagadora maioria das empresas (que não são exportadoras) responde, poderá não recompensar a oferta de produtos e serviços digitais. Por outro lado, ao não serem estimuladas no mercado doméstico com vista a uma oferta de tipo digital, as empresas poderão depois ter dificuldades acrescidas de penetração em mercados mais exigentes do ponto de vista da digitalização.

A falta de estímulo a montante, isto é, ao nível da procura, pode levar a debilidades de gestão nas empresas. Neste domínio, as comparações que têm sido feitas sobre a qualidade da gestão em Portugal indicam que nas grandes empresas a qualidade é semelhante ao que existe por esse mundo fora; já no segmento das PME existem défices consideráveis. Esta questão levar-nos-ia primeiro para o pilar do capital humano, em particular para a definição dos currículos académicos (e também da acção e resultados do Estado nesta matéria), e segundo ao pilar da integração de tecnologia digital nas empresas. Neste artigo vou apenas referir-me à questão empresarial. E o que o DESI nos diz é que continua a faltar digitalização nas empresas.

A integração de tecnologia digital nas empresas portuguesas é relativamente menor no que concerne à utilização de redes sociais, armazenamento de dados em nuvem (“cloud”), nas vendas por meios digitais, e nas vendas digitais transfronteiriças. Estes são os elementos que pesam mais na classificação nacional neste pilar, que é inferior à média europeia, muito embora essa classificação relativa (16º lugar no pilar quarto) seja simultaneamente melhor do que a média nacional no conjunto dos cinco pilares do DESI (19º). É, portanto, fundamental que mais empresas incorporem nas suas organizações novas valências e rotinas nesta área. A qualidade de gestão, sobretudo nas PME, provavelmente sairia beneficiada. E o mesmo aconteceria com o potencial de crescimento empresarial, designadamente em mercados mais difíceis.

Hoje fala-se muito de resiliência para a esquerda e para a direita, para a frente e para trás. Essa resiliência está relacionada com a visão e gestão das empresas. Tem a ver com a visualização do ponto de chegada e com a delineação de uma estratégia que permita chegar ao destino ambicionado. Ou alternativamente de uma capacidade de aprendizagem quase instantânea que poucas empesas exibem. A estratégia tem naturalmente de ser acompanhada de um programa de operacionalização, que não poderá ser alheio ao mundo em que vivemos.

A pandemia acelerou a digitalização empresarial e há coisas, como as vendas ou os pagamentos digitais, bem como a utilização de dados (estruturados e não estruturados), que já não voltam para trás. É, assim, no futuro que vale a pena focar as atenções. Fazê-lo sem atravessar a ponte digital é estar fora do mundo que nos rodeia. Quem o fizer fá-lo-á por sua conta e risco.

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