Bruxelas à conquista da “soberania tecnológica”

A União Europeia está numa corrida contra o tempo para recuperar a "soberania tecnológica". Com o problema identificado, medidas concretas ainda são poucas.

A Comissão Europeia quer recuperar a “soberania tecnológica” da UE. Para isso, apresentou esta semana um “projeto geracional” que prevê a criação de um mercado único de dados, fortes investimentos em inteligência artificial e exigências mais apertadas para as grandes tecnológicas… que, regra geral, são todas norte-americanas.

Nesta primeira fase, o objetivo da presidente Ursula von der Leyen é gerar um amplo debate público à volta do tema. Mas nova legislação deverá surgir mais perto do fim do ano, depois de um período marcado por multas pesadas contra a Google, e numa altura em que ainda decorrem processos contra a Amazon e contra o Facebook.

A União Europeia tem mesmo de recuperar a soberania digital, tanto quanto possível. Se pensarmos nas principais plataformas de tecnologia, a única que ressalta à vista é o Spotify, que tem sede na Suécia. E mesmo esta está sujeita à concorrência forte do Apple Music, uma alternativa que tem estado a ganhar terreno.

O problema, porém, vai muito além da visibilidade. Os smartphones mais vendidos na Europa são de marca sul-coreana (Samsung), chinesa (Huawei) e norte-americana (Apple). A maior rede social (Facebook) e o principal motor de busca (Google) também têm sede nos EUA, tal como as duas principais infraestruturas “públicas” de cloud (Amazon e Microsoft). Além disso, a esmagadora maioria da tecnologia 5G tem sido importada da China.

Não restam dúvidas de que a Europa está a ficar para trás na nova economia digital. E se ainda existe margem para alcançarmos os nossos principais concorrentes, o momento de agir é mesmo agora. Mas é mais fácil de dizer do que fazer. E os documentos apresentados esta semana são o reflexo disso: identificado o problema, são poucas as medidas concretas.

Do que já se sabe, uma delas passa por obrigar as gigantes tecnológicas a partilharem dados com os rivais europeus de menor dimensão. Outra visa incentivar as startups e PME europeias a adotarem a inteligência artificial nos seus negócios. Bruxelas quer ainda formar uma espécie de “brigada” digital para prevenir ataques contra infraestruturas críticas.

Posto isto, convém que a UE acelere o passo, pois recuperar a “soberania tecnológica”, como pretende a Comissão Europeia, é uma corrida contra o relógio. É que depois de perdida a “primeira batalha” dos dados pessoais, como assumiu o comissário Thierry Breton, seria imperdoável perder também a segunda: a revolução da big data que agora se avizinha.

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