Carta ao vencedor de 2025, Luís Montenegro
O ano que agora nasce trar-nos-á esta decisão. Teremos um país que navega à Costa ou a derradeira tentativa de sairmos deste marasmo?
Sr. Primeiro-Ministro, é indiscutível, este foi o seu ano. Quando muitos, onde me incluo, achavam, em 2024, que seria um governante de curto prazo, de transição, não contavam com um reforço dos votos um ano depois. 2025 foi o ano da sua afirmação política. Marcou o seu estilo de comunicação e talvez esteja a surpreender quem em si não votou. Pelo menos, pelas sondagens, os que votaram na AD não parecem estar arrependidos.
Todavia, Sr. Primeiro-Ministro, tem nas suas mãos a governação mais exigente e desafiante dos últimos 10 anos. Com o PSD no centro do regime e um PS enfraquecido e encostado aos seus limites históricos, é fácil fazer de um governo minoritário um executivo proto-maioritário, basta atirar o barro à parede. Contudo, a sua arte de governar estará em fazer mais do que isso.
Para 2026, Sr. Primeiro-Ministro, há uma escolha que se apresenta. À sua responsabilidade não está só o futuro do seu partido, como uma oportunidade única de convergência e reforma. Das duas uma: pode garantir o seu presente, hipotecando o seu e nosso futuro, como pode confiar na avaliação que os portugueses farão do seu arrojo, apostando na mudança que o país precisa.
António Costa governou 10 anos sem nada mudar e os portugueses foram felizes. É verdade. Mas espero que saiba que não goza dos mesmos ares. Adiar reformas e jogar para as próximas eleições até lhe pode granjear mais anos de governo. Porém, não duvido que, se desperdiçar o momento de que dispõe, a comparação ao pós-Costa promete ao PSD um duro revés.
Quem em si votou esperava uma transformação. Bem sei, é preciso coragem. Coragem para ir contra os interesses e corporativismos instalados. Coragem para ver o país com um olhar novo, arejado, mas conhecedor do que pode aspirar. Coragem para ser desapegado, para nos dizer ‘“que se lixem as eleições”, eu tenho uma ideia’. Sem esta bravura não vamos lá.
E mais, Sr. Primeiro-Ministro, este desassombro reformista não se pode escudar na minoria. É assim há um ano e faltam três anos e meio. Olhar destemidamente para esta política é perceber que precisamos de fazer escolhas, que se queremos mesmo mudar, vamos precisar de maiorias. Negoceie-se. Ceda-se. Comprometa-se. Tirar a água do capote não pode ser suficiente, temos de começar por algum lado. A sua prova de força será a lei laboral porque sem maioria, todo o braço de ferro foi em vão e se não sair do papel é o país que sai a perder.
Sem irmos mais atrás, em democracia, é o 17º Primeiro-Ministro e poucos serão os portugueses que se lembrarão de mais do que meia dúzia. Não precisa, não tem e não deve trabalhar para a história. Poucos passam de uma nota de rodapé. A política e a história são madrastas. Não obstante, ainda vai a tempo de moldar a sua nota. Pode ser o que tentou desafiar o status quo e reformar o país ou o que involuntariamente, pela sua inércia, mudou o sistema partidário. Está nas suas mãos.
No meu sapatinho, Sr. Primeiro-Ministro, pedi para 2026 ousadia. A mentalidade de Ronaldo não se proclama ou decreta, pratica-se. E os portugueses, certamente estarão disponíveis a praticá-la quando de cima virem o exemplo. O ano que agora nasce trar-nos-á esta decisão. Teremos um país que navega à Costa ou a derradeira tentativa de sairmos deste marasmo? Esperança, mudança e coragem: nesta tríade gostava de ver a resposta. Venha 2026! Daqui a um, voltamos a falar.
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