Conhece-te a ti mesmo

Poderemos estar perante a possibilidade de ter, finalmente, o voto genuíno e racional, atestado pelos nossos próprios dados: o voto perfeito.

Calma, ainda não foi desta que tomei uma sábia e útil decisão e converti este espaço num consultório de autoajuda. Sim, sei, os benefícios seriam win-win e o meu yang poderia finalmente iluminar o yin que parece enegrecer o mundo digital (que tal?). Mas se me socorro de um aforismo da antiguidade é porque a modernidade talvez não seja assim tão moderna e autossuficiente como se parece julgar.

No meio desta confusão da utilização de dados recolhidos pelo Facebook por parte de outras empresas, vamos lendo algumas coisas interessantes. Esta semana almoçava com uma antiga colega de universidade que me disse que estava a considerar deixar de ler a WIRED para passar a dormir melhor. Mas não é preciso enveredar pela leitura especializada nem por uma maratona de Black Mirror para perder o sono à custa de distopias high-tech. A semana passada o The Economist continha um especial de como a Inteligência Artificial pode afetar o nosso local de trabalho e a Revista do Expresso tinha um destaque sobre os riscos do poder da Google e do domínio no mercado dos motores de pesquisa.

Um dos dados curiosos que resultam das múltiplas experiências que têm sido realizadas, que tanto pode animar discussões de casais ou serões de conversas entre amigos, é o de que 300 likes no Facebook permitem antecipar (conhecer?) melhor as respostas a um questionário de personalidade do que o seu marido ou mulher. Este e outros exemplos são abordados no livro de Harari «Homo Deus». Um dos que mais me prendeu a atenção é o da possibilidade de utilização dos dados online para ajudar a decidir o sentido de voto no dia das eleições. Décadas de estudos dos comportamentos eleitorais, de dúvidas e angústias de última hora e de falibilidades várias daquela decisão pessoal e intransmissível, prontas a serem solucionadas. Ninguém melhor do que quem conhece os conteúdos dos seus e-mails, redes sociais, enfim, toda a sua atividade online para lhe dizer qual a sua verdadeira opinião sobre a performance do governo nos últimos quatros anos. Um algoritmo capaz de processar toda a sua informação online e de lhe indicar, qual oráculo do seu verdadeiro eu, o sentido de voto que melhor se adequa ao seu histórico. De uma penada, resolvem-se as fragilidades que muitos cientistas políticos apontam ao julgamento retrospetivo dos eleitores, os custos de obtenção de informação sobre as propostas dos candidatos ou incertezas que uma dor de cabeça não ajuda a dissipar.

Poderemos estar perante a possibilidade de ter, finalmente, o voto genuíno e racional, atestado pelos nossos próprios dados: o voto perfeito. E se tudo pudesse ser feito online e automaticamente, talvez até pudéssemos chegar perto do limiar de zero de abstenção eleitoral. Sim, isso, imaginem o voto eletrónico, online e automático de todos os cidadãos. Nem seria preciso a nossa intervenção. Chegado o momento das eleições, um gigantesco algoritmo eleitoral agregaria as preferências dos cidadãos, sem necessidade de deslocação, sem esquecimentos ou perdões por má governação, imune a dores de cabeça ou humores passageiros. Na hora e rapidamente apresentaria os resultados. Sem custos e com zero por cento de abstenção. Um sistema de votação perfeito. Uma quimera.

Parece-me que vou ter insónias.

  • Docente do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa

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