Contas de algibeira, versão unicórniopremium

Sebastião descreveu o fenómeno que Costa depois sublinhou, no discurso final: não temos tempo para deixar que a geração mais formada de sempre em Portugal seja também a geração mais frustrada.

Esta semana, a Startup Portugal, responsável pela estratégia nacional para o empreendedorismo, quis debater o que vem antes do Web Summit e aquilo de que se trata quando se fala de empreendedores nos outros 361 dias do ano em que o maior evento de tecnologia e empreendedorismo do mundo não está a decorrer em Lisboa. Em suma, debater o estado e o futuro do ecossistema, convidando a comunidade que dele faz parte a olhar criticamente para o que vê, e a contribuir para o que será.

No evento Beyond Web Summit subiram, por isso, ao palco, empreendedores, investidores, parceiros e Governo -- o primeiro ministro António Costa, o ministro do Estado, da Economia e da Transição Digital Pedro Siza Vieira, e o secretário de Estado da Transição Digital André de Aragão Azevedo foram os três representantes do Executivo presentes e falaram sobre o trabalho dos últimos 10 anos nesta matéria, sobre as oportunidades criadas e sobre aquilo que ainda está por fazer -- analisaram a jornada colaborativa onde todos podem ter uma palavra a dizer.

Se, no painel de debate dos investidores, se detalhou a presença de capital para fazer crescer as startups nacionais em contexto internacional, o painel com três unicórnios -- Paulo Rosado, CEO da Outsystems, Marcelo Lebre, CTO da Remote e Nuno Sebastião, CEO da Feedzai -- foi lugar de discussão de oportunidades e de ameaças. Três de sete unicórnios com ADN português estiveram em palco para detalhar as razões que levam muitos deles a abdicar da sede em Portugal -- apenas a Feedzai mantém a sua sede em solo nacional, no Instituto Pedro Nunes, em Coimbra.

A intervenção de Nuno Sebastião chamou a minha atenção: o CEO da Feedzai descreveu o fenómeno que António Costa depois sublinhou, no discurso final: não temos tempo para deixar que a geração mais formada de sempre em Portugal seja também a geração mais frustrada. Descrevendo o processo como uma simples "conta de algibeira" -- versão unicórnio --, Sebastião concluiu que o facto de não serem olhadas com atenção as razões que levam estas empresas a sair do país, Portugal deixa de encaixar anualmente cerca de 55 mil milhões de euros em IRC. "Estas sete empresas empregam 11.300 pessoas, todas altamente qualificadas. 50% destas pessoas trabalham em Portugal: são 5.650 postos de trabalho. Se considerarmos que cada uma destas pessoas recebe um salário médio base de 75 mil euros por ano, esse valor reflete-se em 230 milhões em impostos por ano. É bom, devia ser reinvestido na educação de novos engenheiros", atalha Sebastião.

Mas há mais. Contas por alto, como diz o CEO do unicórnio, são "35 bi de valor criado". O que, muito rapidamente, "pode transformar-se em 55 bi". "Nenhum deste dinheiro vem para Portugal por tributação", sublinha. "E este montante é igual ao que todas as empresas tributam em IRC". A oportunidade, disse Nuno Sebastião durante o debate e via Zoom, está aí mesmo: se todos estes unicórnios -- os sete -- tivessem as suas sedes em Portugal, "fazíamos duplicar a massa de impostos". "Era fantástico para o país: o problema é que eles não estão cá".

Com "pedidos constantes" de investidores para "levar a Feedzai para países "com sistema fiscal estável, previsível e testado", Nuno Sebastião continua a fazer as contas ao talento e à resiliência: a equação que explicou, passo a passo, a Costa, Siza Vieira e Azevedo, é simples assim. "Muito dificilmente alguma destas empresas poderá fazer o seu IPO em Portugal. Israel fez 12 nos últimos 12 meses, o Reino Unido fez cinco. Fizemos a primeira parte - há talento, há engenharia. Mas Espanha tem dois unicórnios, um em Madrid e o outro em Barcelona. Itália tem outros dois, ambos em Milão. É preciso perceber porquê, e fazer algo". Contas feitas ao ecossistema.

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