Depois da Bonança, a Tempestade

  • Nuno Oliveira Matos
  • 26 Outubro 2025

Nuno Matos considera que para seguradoras com investimentos em "private assets", infraestruturas, fundos alternativos e derivados, o diferencial competitivo será a resiliência ao próximo abalo.

Vivemos hoje num mundo onde os índices bolsistas renovam máximos históricos, os balanços das empresas de seguros exibem rácios de solvência robustos e o entusiasmo em torno da inteligência artificial alimenta uma narrativa de prosperidade quase infinita. Mas é precisamente nestes momentos, quando a confiança se disfarça de convicção e o apetite por risco se reveste de sofisticação técnica, que a fragilidade se instala, discreta, mas potencialmente letal.

Nas últimas décadas, a indústria seguradora ergueu uma arquitetura de métricas de capital, risco e solvência que oferece uma sensação de segurança quantificada. O problema é que essa segurança repousa sobre pressupostos, e os pressupostos, por definição, não são certezas.

Presumimos liquidez porque ontem existia. Aceitamos correlações porque o passado as mostrou. Confiamos em ratings porque foram atribuídos por instituições respeitáveis. Mas a realidade não se curva às distribuições de probabilidade. Ela surpreende, desvia, colapsa.

O recente alerta da S&P sobre o crescimento vertiginoso do investimento das seguradoras norte-americanas em private credit é mais do que um dado técnico, é um sintoma de complacência. Em busca de yield, os balanços foram preenchidos com ativos complexos, opacos e ilíquidos de private placements a collateralised loan obligations, que prometem rentabilidade acrescida em troca de riscos que escapam à métrica convencional. No curto prazo, o prémio de iliquidez seduz. No longo, pode enredar.

O setor segurador é, por vocação, o guardião da prudência. Gera compromissos de décadas, protege contra o improvável, transforma volatilidade em segurança. Mas também aqui os instintos humanos se infiltram. O medo de ficar para trás, o fascínio pela rentabilidade marginal, a ilusão de que o presente é estável por natureza.

Os grandes motores do crescimento atual, da inteligência artificial ao investimento privado, são benignos, mas não são imunes à entropia. A persistência da inflação nos Estados Unidos da América, as tensões geopolíticas e geoeconómicas globais, ou uma reversão súbita nos fluxos de private debt, são ameaças que o sistema tende a ignorar enquanto o momentum dura.

A gestão ativo-passivo está no epicentro desta questão. Não apenas como disciplina técnica, mas como reflexo da filosofia de risco de cada empresa de seguros. Uma boa gestão ativo-passivo não é um mero exercício de matching; é, sobretudo, uma declaração de prudência estratégica. Aliás, a forma como uma empresa de seguros estrutura o seu balanço, gere a constituição das suas garantias, pondera os riscos de reinvestimento e de liquidez, revela mais sobre a sua cultura de risco do que qualquer rácio publicado e auditado.

Hoje, o desafio é duplo. Por um lado, o novo enquadramento contabilístico, sobretudo a IFRS 17 “Contratos de seguro” e a IFRS 9 “Instrumentos financeiros”, expõe como nunca a sensibilidade do resultado e do capital às oscilações de mercado. Por outro, a revisão da Solvência II começa a incorporar o “elemento ESG” na ponderação de risco, exigindo uma conciliação entre rentabilidade, sustentabilidade e capital.

Num ambiente onde a busca por rendimento conduz a carteiras cada vez mais heterogéneas com private assets, infraestruturas, fundos alternativos e derivados, o verdadeiro diferencial competitivo não será a rentabilidade do próximo trimestre, mas a resiliência ao próximo abalo.

A sofisticação dos instrumentos não é o problema. O problema é o grau de compreensão que os acompanha. Como bem observou a S&P, entender o risco de um Middle Market CLO exige conhecer os empréstimos subjacentes, as correlações setoriais, o comportamento em stress e a estrutura de tranches. Poucos gestores de risco, e ainda menos conselhos de administração, terão hoje essa visibilidade granular. A opacidade não pode ser novamente um risco sistémico. Não porque esconda fraude, mas porque disfarça negligência.

Como em todos os ciclos, a história repetirá a sua ironia. Os que hoje parecem excessivamente conservadores serão, amanhã, reconhecidos como visionários.

  • Nuno Oliveira Matos
  • Sócio da Carrilho & Associados, SROC

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