Espanha: a potência falhada

  • Filipe Vasconcelos Romão
  • 18 Fevereiro 2018

Os problemas internos de Espanha já se projectam a nível externo. Numa votação indicativa sobre o futuro vice-presidente do BCE, Luis de Guindos ficou ficou atrás do irlandês Philip Lane.

Espanha é uma democracia liberal consolidada e sobre isso não deveriam restar grandes dúvidas. Haverá democracias em que o poder judicial seja mais independente e em que os conceitos de liberdade e de respeito pelos adversários estejam mais enraizados, mas ninguém poderá contestar que os espanhóis de hoje têm o sistema democrático mais sólido e estável da história do país.

Pontualmente, ao longo dos últimos quarenta anos, o poder político espanhol pensou que poderia acrescentar ao estatuto de democracia consolidada o de potência europeia. Foi assim com Felipe González em 1992, com José María Aznar em 2003 e com Rodríguez Zapatero em 2008. Porém, apesar do crescimento do PIB ter permitido uma melhoria clara do nível de vida dos espanhóis e um amplo desenvolvimento do Estado, crises, como a que teve início em 2009, puseram a nu grandes fragilidades. O desemprego, que voltou a subir bem acima dos 25%, e o descalabro da banca pública regional são as duas faces mais visíveis destas dificuldades.

A actual crise de Estado é, no entanto, ainda mais reveladora dos problemas estruturais que Espanha atravessa. Mariano Rajoy e o seu Partido Popular ganharam com maioria absoluta as eleições legislativas de 2011. Ao longo da sua primeira legislatura no poder (2011-2015), começaram a avançar vários processos judiciais que tinham como objecto a actuação de responsáveis regionais do partido, o que, conjugado com a aplicação de medidas de austeridade, provocaram um grande desagaste ao executivo e ao próprio Rajoy. O produto deste processo foi a eleição, em Dezembro de 2015, de um parlamento fragmentado incapaz de gerar um novo governo. O impasse levou às eleições de Junho de 2016 e a um governo minoritário do PP que só tomaria posse a 4 de Novembro desse ano, o que se traduziu na inexistência de um executivo em efectividade de funções durante mais de dez meses.

A actual legislatura foi, entretanto, aproveitada pelo nacionalismo catalão para levar às últimas consequências o processo de independência daquela que é a maior região económica de Espanha. O desafio à soberania do Estado acabou, assim, por monopolizar a acção governativa e por provocar uma total paralisia legislativa. Mais uma vez, os espanhóis, em termos práticos, estão com um governo diminuído e incapaz, sequer, de agendar o debate do orçamento de Estado de 2018. As sondagens começam gradualmente a penalizar o PP por esta situação, catapultando para o primeiro lugar o Ciudadanos, partido entendido como igualmente nacionalista espanhol mas com um discurso mais jovem e mais apelativo e sem o lastro da corrupção. Esta polarização acentuou-se nas duas últimas semanas, com PP e Ciudadanos a travar uma violenta luta verbal pelo domínio à direita (o que deixa Rajoy ainda mais isolado).

Os problemas internos de Espanha projectam-se hoje a nível externo. Esta semana, numa votação indicativa acerca do futuro vice-presidente do BCE no Parlamento Europeu, o espanhol Luis de Guindos ficou atrás do irlandês Philip Lane. A total ausência de protagonismo externo de um Mariano Rajoy consumido pelo desafio catalão e pela corrupção do seu partido e a incapacidade de Madrid para apresentar boas candidaturas a funções de relevo põem ainda mais em evidência que Espanha é uma tentativa falhada de grande Estado europeu. Um país sem orçamento aprovado e com um parlamento totalmente paralisado.

Nota: O autor escreve segundo a ortografia anterior ao acordo de 1990.

  • Filipe Vasconcelos Romão
  • Presidente da Câmara de Comércio Portugal – Atlântico Sul e professor universitário

Uma carta aos nossos leitores

Vivemos tempos indescritíveis, sem paralelo, e isso é, em si mesmo, uma expressão do que se exige hoje aos jornalistas que têm um papel essencial a informar os leitores. Se os médicos são a primeira frente de batalha, os que recebem aqueles que são contaminados por este vírus, os jornalistas, o jornalismo é o outro lado, o que tem de contribuir para que menos pessoas precisem desses médicos. É esse um dos papéis que nos é exigido, sem quarentenas, mas à distância, com o mesmo rigor de sempre.

Aqui, no ECO, estamos a trabalhar 24 horas vezes 24 horas para garantir que os nossos leitores têm acesso a informação credível, rigorosa, tempestiva, útil à decisão. Para garantir que os milhares de novos leitores que, nas duas últimas semanas, visitaram o ECO escolham por cá ficar. Estamos em regime de teletrabalho, claro, mas com muita comunicação, talvez mais do que nunca nestes pouco mais de três anos de história.

  • Acompanhamos a cobertura da atualidade, porque tudo é economia.
  • Escrevemos Reportagens e Especiais sobre os planos económicos e as consequências desta crise para empresas e trabalhadores.
  • Abrimos um consultório de perguntas e respostas sobre as mudanças na lei, em parceria com escritórios de advogados. Contamos histórias sobre as empresas que estão a mudar de negócio para ajudar o país
  • Escrutinamos o que o Governo está a fazer, exigimos respostas, saímos da cadeira (onde quer que ele esteja) ou usamos os ecrãs das plataformas que nos permitem questionar à distância.

O que queremos fazer? O que dissemos que faríamos no nosso manifesto editorial

  • O ECO é um jornal económico online para os empresários e gestores, para investidores, para os trabalhadores que defendem as empresas como centros de criação de riqueza, para os estudantes que estão a chegar ao mercado de trabalho, para os novos líderes.

No momento em que uma pandemia se transforma numa crise económica sem precedentes, provavelmente desde a segunda guerra mundial, a função do ECO e dos seus jornalistas é ainda mais crítica. E num mundo de redes sociais e de cadeias de mensagens falsas – não são fake news, porque não são news --, a responsabilidade dos jornalistas é imensa. Não a recusaremos.

No entanto, o jornalismo não é imune à crise económica em que, na verdade, o setor já estava. A comunicação social já vive há anos afetada por várias crises – pela mudança de hábitos de consumo, pela transformação digital, também por erros próprios que importa não esconder. Agora, somar-se-ão outros fatores de pressão que põem em causa a capacidade do jornalismo de fazer o seu papel. Os leitores parecem ter redescoberto que as notícias existem nos jornais, as redes sociais são outra coisa, têm outra função, não (nos) substituem. Mas os meios vão conseguir estar à altura dessa redescoberta?

É por isso que precisamos de si, caro leitor. Que nos visite. Que partilhe as nossas notícias, que comente, que sugira, que critique quando for caso disso. O ECO tem (ainda) um modelo de acesso livre, não gratuito porque o jornalismo custa dinheiro, investimento, e alguém o paga. No nosso caso, são desde logo os acionistas que, desde o primeiro dia, acreditaram no projeto que lhes foi apresentado. E acreditaram e acreditam na função do jornalismo independente. E os parceiros anunciantes que também acreditam no ECO, na sua credibilidade. As equipas do ECO, a editorial, a comercial, os novos negócios, a de desenvolvimento digital e multimédia estão a fazer a sua parte. Mas vamos precisar também de si, caro leitor, para garantir que o ECO é económica e financeiramente sustentável e independente, condições para continuar a fazer jornalismo de qualidade.

Em breve, passaremos ao modelo ‘freemium’, isto é, com notícias de acesso livre e outras exclusivas para assinantes. Comprometemo-nos a partilhar, logo que possível, os termos e as condições desta evolução, da carta de compromisso que lhe vamos apresentar. Esta é uma carta de apresentação, o convite para ser assinante do ECO vai seguir nas próximas semanas. Precisamos de si.

António Costa

Publisher do ECO

Comentários ({{ total }})

Espanha: a potência falhada

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião