Está na hora de mudar, queremos mais mulheres no topo das organizações

  • Maria João Antunes
  • 20 Dezembro 2021

A pandemia fez regredir em 36 anos os direitos das mulheres, apontando que serão necessários agora 135 anos para se chegar à paridade de género. Como estamos ainda neste quadro?

“A Pandemia agravou as desigualdades entre homens e mulheres, alertou o Fórum Económico Mundial (FEM), de 2021.” Triste, mas é uma realidade. E é uma realidade num planeta que já vive na era digital, evoluído tecnológica e cientificamente. Um planeta onde já se fazem visitas de turismo ao espaço, se produzem armas tão sofisticadas capazes de o destruir e até competente na descoberta em tempo recorde de uma vacina capaz de combater um vírus tremendamente mortífero. O mesmo Planeta que conseguiu fazer com que as mulheres saíssem mais fragilizadas desta pandemia, sendo as maiores vítimas quer no que concerne a despedimentos quer na ascensão a posições de topo.

Muita coisa avançou no mundo, sem dúvida e ainda bem, mas parece que em aspetos importantíssimos das sociedades não se evolui e até se retrocedeu, falamos na igualdade de género, mas também me veio agora à memória o perigo que o nosso planeta atravessa, fruto também da incúria dos homens e homens de género, diga-se, porque como se prova são eles que denominam as empresas, a política e o mundo!

Nada contra os homens, apenas contra os factos que os dados nos relatam, até porque felizmente há também muitos homens no mundo que lutam pela igualdade de género. É o caso de António Guterres que há bem pouco tempo abordou este tema e sensibilizou os países para a importância de desenvolverem medidas para reduzir esta tremenda diferença entre homens e mulheres.

Em termos globais o relatório do FEM refere que a pandemia fez regredir em 36 anos os direitos das mulheres, apontando que serão necessários agora 135 anos para se chegar à paridade de género. Como estamos ainda neste quadro? Como é possível sociedades tão avançadas penalizarem tanto as mulheres? Não deixo de me questionar e de sentir tristeza e revolta perante este contexto.

Portugal subiu 13 posições no ranking entre 156 países e ocupou o 22º lugar, revelou o mesmo estudo do FEM. Não obstante, os dados atuais são chocantes, isto porque num estudo recente da consultora Mckinsey 93% das instituições portuguesas estão nas mãos dos homens, isto é, apenas 7% são geridas por mulheres.

Interessante observar que são os países nórdicos que ocupam as primeiras posições na igualdade de género, sendo a Islândia o país com maior igualdade de género no mundo pelo 12º ano consecutivo, seguida pela Finlândia, Noruega, Nova Zelândia e Suécia. Já agora os 3 piores países no mundo são, o Iraque (154º), Iémen (155º) e Afeganistão (156º).

Na Europa Ocidental os números são mais animadores, se este ritmo se mantiver e sem mais imprevistos, levará 52 anos a encerrar-se a lacuna de género. Nem imaginam a pena que eu tenho de não poder assistir a este dia!

Entendo que a sociedade civil e a sociedade política nunca deram a importância devida a este tema. É um problema herdado de séculos que tem passado de geração para geração e relegado sempre para último plano. A própria Presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, referiu que tem como uma das suas prioridades desbloquear uma diretiva, bloqueada há vários anos, que estipula que pelo menos 40% dos membros do conselho de administração das empresas sejam mulheres.

A cultura, a educação de um povo faz toda a diferença. Será que ensinamos o caminho da igualdade? Não! As escolas deveriam ser o espaço por excelência para educar desde cedo a criança, incutindo-lhe o respeito pelas diferenças e pela igualdade de género, no final é das escolas que saem os adultos do amanhã e que formam as sociedades.

Os media deveriam também ter um papel importante, sobretudo a televisão, num esforço comum, num processo educativo e de sensibilização da sociedade.

Impõe-se sem dúvida um trabalho coletivo, tem que haver um interesse da sociedade em geral, Estado/Instituições/Empresas/Media. Se isso acontecesse os resultados seriam mais rápidos e o mundo seria diferente!

Além do estigma social existente, as mulheres, em geral, deveriam impor-se mais, mesmo no que toca à maternidade. Eu também fui mãe enquanto trabalhava e estudava em simultâneo e nunca descurei a ambição de chegar ao topo, que consegui concretizar.

As mulheres precisam de desenvolver a sua autoestima, a sua autoconfiança e o respeito por si próprias, não deixando que as rebaixem. Devem seguir os seus sonhos no que toca à ambição profissional assim como fazem os homens. As mulheres têm que ter consciência dos seus direitos, arriscarem, os homens arriscam as mulheres pensam muito primeiro. Como diz o velho ditado “quem não arrisca, não petisca”! A maternidade nunca deverá ser um entrave na evolução profissional, até porque uma criança quando vem ao mundo tem por norma dois educadores com iguais responsabilidades.

Certo também é que as mulheres, até agora, precisam de provar muito mais do que os homens para ascender a cargos de liderança, mas nunca se devem deixar abater por esse facto. “Desistir é morrer no meio do caminho”. Não é por falta de formação superior que faltam mulheres no topo das lideranças, porque em Portugal saem da faculdade mais mulheres formadas do que homens.

Felizmente hoje já existem ferramentas que podem ajudar as mulheres no caminho para o topo. Por vezes é um caminho solitário e pedir ajuda deve ser encarado como um processo normal no seu desenvolvimento, nós nunca sabemos tudo.

“E aquilo que nos une é mais forte do que aquilo que nos separa”, vários estudos provam que a diversidade leva maiores resultados às empresas e consequentemente aumenta o PIB de um País. O mesmo estudo da McKinsey revelou que em Portugal o PIB subiu 8% pela ascensão das mulheres em cargos de liderança.

A paridade do género já não deveria ser tema em pleno século XXI! Deixo aqui o apelo de Saadia Zahidi, diretora-geral do Fórum Económico Mundial, no relatório de 2021. “Se queremos uma economia futura dinâmica, é vital que as mulheres sejam representadas nos empregos de amanhã. Agora, mais do que nunca, é fundamental focar a atenção da liderança, comprometendo-se com metas firmes e mobilização de recursos. Este é o momento para incorporar a paridade de género ao projeto na recuperação”,

Da minha parte estou muito empenhada para que a paridade de género aconteça o mais rapidamente possível. Juntas somos mais fortes!

  • Maria João Antunes
  • Diretora Geral do Projeto Mulheres ao Topo da Liderança

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