Quando menos é maispremium

Testada em vários países, a semana laboral de quatro dias acolhe adeptos e argumentos. Talvez precisemos mesmo de uma nova forma de trabalhar. E isso pode incluir trabalhar menos para produzir mais.

Tendemos a simplificar a fórmula: a produtividade varia na relação direta das horas trabalhadas porque, dissecando a equação -- e se a produtividade é definida como a relação entre a produção e o fatores de produção utilizados, sejam eles as pessoas, as máquinas, os materiais ou outros -- o que interessa é mesmo produzir o mais, gastando o menos. Mas, talvez acelerada pela pandemia, a necessidade de olharmos outra vez para esta lógica tem-se tornado iminente. Talvez precisemos mesmo é de uma nova - realmente nova - forma de trabalhar.

Parece-me claro: caminhamos para uma era em que a nossa principal preocupação é o tempo. O tempo que temos, o tempo que gastamos com o quê e com quem, de que forma aproveitamos o tempo e, também, a forma como apenas o gastamos a Não. Fazer. Nada. O tempo é o nosso bem mais precioso porque é ele que nos permite estar presentes naquilo que fazemos. Ele tornou-se o nosso bem mais precioso. E uma poderosa moeda de negociação na atração e na retenção de talento.

Segundo "O estado da compensação 2021-22 - um estudo sobre o futuro do trabalho e o trabalho do futuro", desenvolvido pela Coverflex com o apoio da Associação Portuguesa de Gestão das Pessoas (e disponível para download aqui), seis em cada 10 participantes gostariam de experimentar uma lógica de trabalho de quatro dias semanais, mantendo as 40 horas laborais por semana. Além disso, quase 30% dos participantes afirma que gostava de poder optar por trabalhar 32 em vez das habituais 40 horas semanais, mesmo que essa redução implicasse uma diminuição salarial proporcional.

Ainda que estas conclusões estejam longe de me surpreender, vale a pena olhar com atenção para estes números e perceber que estão alinhados com algumas experiências e até anúncios de medidas feitos por governos e empresas em vários países do mundo, incluindo a Europa. O caso da Islândia, ao qual muitos meios de comunicação social recorrem para dar como exemplo, é um dos mais paradigmáticos: os ensaios, conduzidos pelo governo islandês na capital do país, Reykjavik, aconteceram entre 2015 e 2019 e envolveram cerca de 2.500 trabalhadores, que corresponde a 1% da população ativa do país. Os trabalhadores viram o seu horário de trabalho semanal reduzido para 35 a 36 horas, sem cortes nos salários, e os resultados, analisados pela Associação pela Sustentabilidade e Democracia da Islândia e pelo grupo Autonomy, demonstram que não houve qualquer quebra de produtividade durante esse período. Além disso, estes 2.500 trabalhadores demonstraram ser menos afetados por stress e o bem-estar aumentou drasticamente.

Também o Japão começou a pressionar os empregadores a escolherem uma redução da semana de trabalho para quatro dias: a medida é parte de uma série de orientações económicas que surgiram ano e meio depois de a pandemia ter forçado alterações profundas no mercado de trabalho, com o objetivo de aumentar o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. “O governo está realmente muito interessado em que esta mudança de atitude crie raízes nas empresas japonesas”, dizia, na altura, Martin Schulz, chief policy economist da empresa japonesa Fujitsu, citado pelo Independent.

Já Espanha anunciou no início deste ano a intenção de reduzir a semana para 32 horas de trabalho, sem qualquer redução salarial. Yolanda Diaz, ministra do Trabalho, defendia na altura que o “tempo de trabalho exige uma nova conceção” e o secretário-geral do Podemos, Pablo Iglesias, sublinhava que a medida em causa poderia até favorecer a criação de empregos.

Em Portugal, Feedzai e Doutor Finanças testaram, este verão, essa possibilidade. E, ainda que as conclusões estejam, para já, a ser analisadas dos diferentes pontos de vista e ponderando vários fatores, a medida foi amplamente reconhecida como importante e muito elogiada pelos colaboradores.

Ao Expresso, Pedro Gomes, professor da Universidade de Londres e autor do livro "Friday Is The New Saturday - How a four-day working week will save the economy", explica que, “em todas as empresas que experimentaram o modelo da semana de quatro dias, os ganhos de produtividade foram muito grandes”, defendendo a adoção transversal do modelo por via legislativa. Sendo assim, de que é que estamos à espera mesmo?

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