Estamos mesmo viciados no crédito (outra vez)

Há culpas do lado de quem empresta todo este dinheiro, sejam bancos ou financeiras. Mas também de quem pede. E estamos a fazer ouvidos moucos a todos os alertas.

Mês após mês, há milhões de euros em novos créditos para as famílias. São muitas centenas para a habitação, mas também cada vez mais para o consumo, uma evolução que tem feito soar alguns alarmes. É verdade que no saldo dos empréstimos para a compra de casa é ainda ligeiro o impacto, mas a tendência ascendente nos financiamentos para pagar as férias, mas também para comprar, desde eletrodomésticos a automóveis, é, de facto, preocupante.

Vamos aos números. Para a compra de casa estão a ser concedidos, em média, mais de 800 milhões de euros por mês, um valor que, todo somado, ascende aos 6,5 mil milhões no acumulado do ano, valor que pouco abalou o saldo global (que está ligeiramente acima dos 90 mil milhões), tendo em conta o ritmo de amortização dos empréstimos. Há um regresso ao que se pode considerar a normalidade no que respeita à habitação. Tradução: o hábito de comprar em vez de arrendar não mudou como a troika queria. Não há mercado para isso.

Este crédito, considerado claramente mais seguro para quem o concede tendo em conta que existe um bem que tem valor — e que até está a valorizar, veja-se os máximos consecutivos que estão a ser atingidos nos valores das casas –, volta a ser uma aposta por parte do setor financeiro mas, mesmo com maior risco, o financiamento ao consumo é, cada vez mais, “objeto de desejo”.

São 500, 600 milhões de euros de novos empréstimos para o consumo todos os meses. E, ao contrário do que acontece no caso da habitação, aqui o saldo sobe, sobe e continua a subir. Ao todo, vai já nos 15 mil milhões de euros, sendo preciso recuar ao ano da chegada da troika para encontrar um valor tão elevado. É uma fração do valor dos empréstimos para a compra de casa, mas está num patamar que exige ação.

Há culpas do lado de quem empresta todo este dinheiro, sejam bancos ou financeiras. Não nos podemos esquecer que onde há risco, normalmente há retornos potenciais. É que, com estes créditos, além de comissões, vêm juros que podem ser considerados elevados num contexto de taxa zero na Zona Euro. Ou seja, há dinheiro a ganhar. De outra forma, porque é que oito em cada dez dos novos intermediários financeiros querem dar este tipo de créditos?

Para este lado da barricada, não faltam alertas. Vêm de fora, seja do FMI ou da Comissão Europeia, mas também de dentro, seja do Governo — que vai aumentando os encargos associados a estes financiamentos através do agravamento do Imposto do Selo — ou do regulador do setor, o Banco de Portugal, que vai apresentando recomendações (que apesar de o serem, têm associadas sanções para quem não as cumprir).

E para o outro? Para o de quem pede? Vão-se repetindo alertas, mas parece que são feitos ouvidos moucos. E o dinheiro obtido por empréstimo continua a aumentar. Parece que voltámos a viver numa sociedade viciada em dinheiro emprestado que se esquece que todos estes euros, que são, na realidade, já centenas de milhares de milhão de euros, vão ter de ser pagos com juros que muito brevemente vão começar a voltar aos níveis pré-crise.

E este vício torna-se mais visível quando o Banco de Portugal revela que, apesar de estarem a diminuir as queixas dos clientes bancários, aumentaram de forma expressiva as reclamações associadas aos créditos. E que entre os fatores que levam os portugueses a pegarem na caneta para escreverem no livro de reclamações aos balcões de muitos instituições financeiras está a não concessão de crédito.

Haverá maior razão para alarme do que apresentar queixa porque não lhe emprestam o dinheiro que pretende? Bancos e financeiras têm todo o interesse em emprestar. É assim que fazem negócio, é desta forma que ganham dinheiro. Muito provavelmente, se não emprestam é porque quem o pediu não tem capacidade para obter esse financiamento. Muito provavelmente acabará numa situação de sobre-endividamento que o levará a incumprir com o pagamento das mensalidades. Onde é que já vimos este filme?

Contribua. A sua contribuição faz a diferença

Precisamos de si, caro leitor, e nunca precisamos tanto como hoje para cumprir a nossa missão. Que nos visite. Que leia as nossas notícias, que partilhe e comente, que sugira, que critique quando for caso disso. A contribuição dos leitores é essencial para preservar o maior dos valores, a independência, sem a qual não existe jornalismo livre, que escrutine, que informe, que seja útil.

A queda abrupta das receitas de publicidade por causa da pandemia do novo coronavírus e das suas consequências económicas torna a nossa capacidade de investimento em jornalismo de qualidade ainda mais exigente.

É por isso que vamos precisar também de si, caro leitor, para garantir que o ECO é económica e financeiramente sustentável e independente, condições para continuar a fazer jornalismo rigoroso, credível, útil à sua decisão.

De que forma? Contribua, e integre a Comunidade ECO. A sua contribuição faz a diferença,

Ao contribuir, está a apoiar o ECO e o jornalismo económico.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

Estamos mesmo viciados no crédito (outra vez)

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião