Idiotas mas felizes

O lançamento de um produto mostra quão idiotas as empresas tecnológicas acham que somos. E o pior é que provavelmente terão razão.

A Amazon acaba de anunciar uma câmara voadora que percorre a casa para supostamente filmar intrusos e outros problemas. Claro que as imagens são partilhadas com o dono da casa, mas o problema é que são também partilhadas com a Amazon. Mais: para ativar o bicho, é preciso fornecer uma planta atualizada da casa, com os maiores móveis e aparelhos descritos. Portanto, embora este pareça um dispositivo de segurança, não o é. O que é um sistema de controlo social que envia à empresa toda a informação sobre a casa do utilizador, informando a empresa do que ele pode querer adquirir – de forma a que os respetivos produtos sejam devidamente promovidos em frente ao utilizador.

E, quando o caro leitor estiver a pensar “mas que idiota é que compra isto”, faça o favor de olhar à sua volta. Olhe para a sua televisão inteligente que armazena as escolhas do que vê, antecipa quem está à frente à televisão, grava todas as conversas que ouve e as partilha com o fabricante; preste atenção ao seu telefone ou à sua coluna inteligente, que grava tudo o que ouve e arquiva para funcionários oiçam e detetem padrões; lembre-se também dos contratos de utilização de qualquer rede social, que de certeza que aceitou sem ler e nem percebe que acabou de abdicar da propriedade das fotos que posta, das conversas que tem e de todos os metadados que oferece; ou nos seus emails da Google, que são lidos pela empresa que agora até já escreve o que queremos antes de o fazermos; ou no controlo tecnológico constante que o seu telefone, tablet e computador portátil fazem, controlando onde estamos a cada momento; ou nas campainhas que a Amazon está a instalar em vários países e que partilham as imagens da sua porta de casa com as forças policiais; ou nos alarmes que tinham um microfone oculto; ou nos aspiradores inteligentes que fazem mapas tridimensionais da casa e os partilham com vendedores de móveis; ou nos frigoríficos inteligentes que generosamente encomendam o que falta; ou no colchão inteligente que regista e partilha todos os movimentos e cessa de trabalhar se os dados pararem de ser partilhados; ou a pulseira de fitness que partilha a minha informação clínica com as entidades que vendem serviços de saúde… A lista é infindável.

É conhecida a tese que diz que nós somos o produto. Já não é verdade. O nosso eu futuro é que é o produto. Todas estas empresas querem acumular o máximo de dados para vender o poder de influenciar os nossos comportamentos a quem der mais. Para quê? Para continuarmos a comprar o que estas empresas querem que nós compremos. Sim, estamos a ser alegremente manipulados.

As analogias são tantas que podemos escolher a do nosso agrado. Sim, estamos num Big Brother deprimente, só que a nossa versão substitui a dona Teresa Guilherme pelo Jeff Bezos; pode ser o premonitório filme Ed Tv, em que o personagem vivia dentro de um programa de televisão a vida toda e nem sabia; o Matrix também vem naturalmente à cabeça, seja na versão do Neo voador ou na ideia academicamente apelativa da simulação. Continuo a pensar que a melhor é a do Admirável Mundo Novo de Huxley, um mundo em que estamos entretidos até à morte e placidamente ignoramos o que se está a passar. Agora a sério: já dá para parar com isto?

Ler mais: uma das obras mais interessante que se publicou nos últimos anos sobre este tema dá por nome Privacy as Trust e obriga-nos a repensar a questão da informação que é partilhada e da forma como o fazemos. A partir de estudos de caso o autor olha para a teoria e prática das muitas ideias de privacidade, para que se encontre um equilíbrio.

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