Informação Assimétrica, Mercado Imperfeito
Nuno Oliveira Matos explica as forças por detrás da formação de preços dos prémios de seguros e qual o equilíbrio fundamental para todos stakeholders ficarem minimamente satisfeitos com eles.
Quando pensamos em seguros, a palavra que nos vem à mente é proteção. Pagamos um prémio hoje para reduzir a incerteza de amanhã. Mas, por trás desta sensação de segurança, existe uma dinâmica complexa entre as empresas de seguros, os clientes e o regulador/supervisor; interações estratégicas em que cada movimento depende do que os demais fazem e em que os resultados ficam invariavelmente longe da eficiência perfeita.
Eficiência perfeita é quando os preços num mercado incorporam, de forma imediata, completa e contínua, toda a informação disponível, sem assimetrias nem espaço para arbitragem.
Na hora de definir prémios, cada empresa de seguros observa a concorrência antes de agir. Preços demasiado altos podem custar quota de mercado; preços demasiado baixos aumentam a sinistralidade e, no limite, põem em risco a solvência. O resultado fica longe da eficiência perfeita, pois todos poderiam lucrar mais com preços ligeiramente superiores, mas ninguém arrisca sozinho.
Estas interações estratégicas manifestam-se de duas formas. Primeiro, pela pressão direta da concorrência. Cada empresa de seguros acompanha cada passo das congéneres. Segundo, pela gestão dos perfis de risco. Na tentativa de atrair clientes com baixa sinistralidade, os prémios ajustam-se para esse segmento, a concorrência reage, e rapidamente os preços sobem de novo para proteger a sustentabilidade das carteiras. No final, todos acabam alinhados num patamar mais alto, longe da eficiência perfeita.
Há ainda outro dilema. A proteção pode gerar descuido. Um cliente totalmente coberto tende a relaxar na prevenção. Para equilibrar, as empresas de seguros utilizam franquias, co-pagamentos e exclusões, garantindo que o cliente não negligencia totalmente a prudência, enquanto a própria empresa de seguros protege a sustentabilidade da carteira. Mais uma vez, o equilíbrio está longe da eficiência perfeita porque o cliente reduz parcialmente a prevenção e a empresa de seguros precisa limitar a cobertura, resultando numa eficiência menor do que seria possível sem este trade-off.
Por último, o tabuleiro do regulador/supervisor, que procura proteger consumidores e a estabilidade do setor sem o asfixiar. Se for demasiado brando, abre-se espaço para risco sistémico; se for demasiado rígido, trava a rentabilidade e o investimento. No meio, surge uma zona de compromisso que evita abusos, mas distante da eficiência perfeita.
A conclusão é clara. O que é racional para cada stakeholder quase nunca gera o melhor resultado coletivo. É o paradoxo diário do setor segurador.
Talvez seja utópico imaginar um mercado de seguros totalmente eficiente, no qual empresas de seguros e tomadores partilham de forma transparente toda a informação relevante sobre sinistros e perfis de risco. Esse cenário, semelhante ao que se observa de forma contínua nos mercados de capitais desenvolvidos, é, contudo, a referência que deve orientar a evolução do setor. Quanto mais conhecimento circula de forma aberta e clara, melhores e mais consistentes se tornam as decisões individuais de cada stakeholder, aproximando o desempenho coletivo do mercado de seguros da eficiência perfeita.
O sonho comanda a vida, e no seguro, como na vida, é a ambição por transparência e eficiência que nos aproxima do ideal!
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