Inovar para reduzir desigualdades

  • Ana Trigo Morais
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A desigualdade é hoje o risco global mais interligado com todos os outros. Reduzi-la implica reconhecer que colocar mais recursos da mesma forma no sistema não é suficiente.

O Global Risks Report 2026, do World Economic Forum, deixa uma mensagem clara: a desigualdade é hoje o risco global mais interligado com todos os outros. Não se trata apenas de um problema social ou económico. A desigualdade agrava a instabilidade política, fragiliza a resposta às alterações climáticas, acelera a fragmentação geopolítica e contribui para a perda de confiança nas instituições.

Vivemos num contexto internacional marcado pela incerteza, pela diminuição da cooperação e pelo enfraquecimento do multilateralismo. Neste cenário, os riscos deixaram de surgir de forma isolada, e estão cada vez mais ligados entre si, evoluindo a uma velocidade difícil de acompanhar. Ainda assim, é preocupante constatar que, no curto prazo, temas como os eventos climáticos extremos, ou a poluição, estão a perder peso nas agendas governamentais, apesar de continuarem a ser vistos pela sociedade civil como riscos relevantes.

Esta divergência é reveladora, por duas razões. Por uma, porque demonstra que continuamos a responder às consequências em vez de atuar sobre as causas. Por outra, visto que comprova que a transição ambiental continua, muitas vezes, a ser encarada como um custo, quando é, na realidade, uma oportunidade de inovação social e económica.

A desigualdade manifesta-se de várias formas. Trata-se de uma questão de acesso a serviços essenciais, ambientes mais saudáveis, oportunidades económicas e participação cívica. É também, como o próprio relatório sublinha, uma falha de imaginação coletiva, dada a dificuldade em conceber modelos de desenvolvimento que conciliem crescimento económico com inclusão social.

"Continuar a investir milhões sem alterar a forma como os sistemas estão desenhados tende a produzir os mesmos resultados limitados”

É neste ponto que a economia circular ganha uma relevância que vai muito além da gestão de resíduos. A forma como utilizamos os recursos, organizamos os sistemas de recolha e valorização e como envolvemos cidadãos, empresas e entidades públicas tem impactos diretos na coesão social, na criação de emprego e na qualidade de vida das comunidades. Perante os desafios atuais, torna-se claro que não basta reforçar o investimento nos sistemas existentes: é necessário mudar o paradigma. Continuar a investir milhões sem alterar a forma como os sistemas estão desenhados tende a produzir os mesmos resultados limitados – em Portugal, o sistema nacional de reciclagem das embalagens é um bom exemplo, apesar de mais 98 milhões de euros investidos em 2025 não cumprimos as novas metas de reciclagem. Sistemas eficientes e coletivos não são apenas soluções ambientais: são instrumentos de equilíbrio social.

O mesmo se aplica ao ESG, que mais do que um exercício de reporte ou reputação, cinge-se às escolhas estruturais, tais como investir em modelos que criem valor económico sem transferir custos para a sociedade, promover a corresponsabilização e reforçar a confiança entre todos os atores. Sem uma transformação efetiva dos modelos, o aumento do investimento corre o risco de perpetuar ineficiências em vez de gerar impacto real.

Na Europa, e também em Portugal, estas escolhas serão decisivas. O relatório é claro quanto aos riscos de longo prazo. Eventos climáticos extremos, perda de biodiversidade e degradação dos ecossistemas continuam a liderar as preocupações. Este debate está hoje igualmente presente em dossiês muito concretos, como o do e-commerce. A crescente atenção das instituições europeias a estas plataformas reflete preocupações claras com a segurança dos produtos, a proteção dos consumidores, a sua pegada ambiental e os resíduos que geram, bem como a concorrência leal para os operadores que cumprem as regras europeias.

Decisões recentes apontam para a necessidade de reforçar a aplicação da legislação existente, garantir a responsabilização ao longo da cadeia de valor e preservar um mercado interno assente em condições equitativas. É um exemplo claro de como a inovação e a digitalização só são sustentáveis quando assentes em regras justas, aplicadas de forma eficaz a todos.

"A inovação de que precisamos não é apenas tecnológica. É, sobretudo, social. Passa pela capacidade de alinhar políticas públicas, empresas e cidadãos em torno de soluções que respondam simultaneamente à crise ambiental e à crise da desigualdade”

A inovação de que precisamos não é apenas tecnológica. É, sobretudo, social. Passa pela capacidade de alinhar políticas públicas, empresas e cidadãos em torno de soluções que respondam simultaneamente à crise ambiental e à crise da desigualdade. Inovar implica reconhecer que colocar mais recursos no sistema não é suficiente se continuarmos a operar segundo os mesmos pressupostos. Sem alterar o paradigma, mesmo os maiores investimentos tenderão a produzir os mesmos resultados.

Se a desigualdade é um dos maiores riscos globais do nosso tempo, então reduzi-la tem de ser uma prioridade coletiva. Por isso, a verdadeira medida da liderança nos próximos anos não estará apenas no crescimento económico, mas na capacidade de garantir que esse crescimento é mais justo, inclusivo e sustentável.

  • Ana Trigo Morais
  • CEO da Sociedade Ponto Verde

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