M&A à prova de crise(s)

  • Bárbara Godinho Correia
  • 19 Maio 2022

O ano de 2021 foi um ano recorde de fusões e aquisições e veio mesmo superar os valores de 2019, ano pré-pandemia. Esta evolução não era evidente e muitos temeram que tardasse.

A recente pandemia Covid-19 ensinou-nos várias lições, algumas delas que já tínhamos aprendido em crises anteriores, mas porventura esquecido. Uma das principais lições foi a enorme resiliência e drive do tecido empresarial, mesmo quando o presente era tumultuoso e o futuro incerto.

De facto, quando falamos de transações de M&A é assinalável o aumento registado em 2021, quer em número de transações, quer em valor. O ano de 2021 foi um ano recorde de fusões e aquisições e veio mesmo superar os valores de 2019, ano pré-pandemia. Esta evolução não era evidente e muitos temeram que tardasse quando, logo no arranque de 2020, nos vimos a braços com uma pandemia mundial com impacto significativo no mercado e nas empresas.

Mas o mercado foi resiliente e resistiu. Resistiu por diversas razões. Seguramente porque se registou um elevado nível de fundos disponíveis para investir num ambiente de baixas taxas de juro, mas também porque existiu por parte dos investidores e, em particular dos private equity, uma enorme vontade de aproveitar o momento. Independentemente das dificuldades e incertezas sentidas, houve uma forte procura por operações e investimentos. Os players de mercado mantiveram-se ativos e procuraram de forma determinada o crescimento sustentável dos seus negócios e uma maior criação de valor.

Sentimos também que a pandemia trouxe novos dados e isso tem sido extraordinariamente interessante de acompanhar, como advogados. Aqui destaco o aceleramento que a revolução digital registou, quer ao nível das técnicas de produção, quer ao nível dos sistemas inteligentes integrados com organizações e pessoas. A nossa forma de viver e especialmente de trabalhar foi impactada de forma e a uma velocidade nunca sentidas.

Muitos economistas dizem que se trata da quarta revolução da Humanidade à escala global que também tem, obviamente, uma dimensão de negócio que está a mobilizar todos os setores, de resto alinhada com o que têm sido as políticas públicas e planos de investimento dos Estados. Não podia ser de outra forma: no final da cadeia de valor de cada atividade económica está um utilizador cada vez mais sofisticado, que exige tecnologia associada aos serviços e produtos. Exige o digital.

Assim e naturalmente, o investimento nesta transformação quase visceral da forma de fazer negócios animou e continuará certamente a animar o mercado de M&A em 2022 e nos próximos anos. Este será talvez o tema mais central e a grande novidade destes últimos dois anos: o que estava a ser feito de forma gradual, tornou-se uma disrupção virtuosa do mercado e todos sentimos que é irreversível.

Relativamente a outros setores que marcarão o mercado de M&A nos próximos anos, captando muito do investimento disponível, podemos falar, desde logo, da saúde. Não há crise nem pandemia que seja capaz de alterar o paradigma de uma população crescentemente envelhecida que encontramos nas economias mais desenvolvidas. Este contexto faz da saúde, e demais setores associados, um eixo de investimento intensivo e continuado, na certeza de que será o destino de boa parte das poupanças das pessoas na procura de viver o último terço das duas vida com cada vez melhores condições.

A par dos setores da tecnologia e da saúde, podemos igualmente destacar o imobiliário – setor onde esteve concentrada uma grande fatia do investimento em 2021 e onde se superou o ano extraordinário de 2019 – os serviços financeiros, a industria transformadora e automóvel, as telecomunicações e, com destaque, a energia e utilities.

Se é certo que já vínhamos a identificar a área da energia como uma das mais ativas em M&A – muito impulsionada por fatores ESG (ambientais, sociais e de governação) – hoje temos por certo que haverá uma revolução no mix energético, com as energias renováveis a subirem ao palco. Pelo planeta, mas sobretudo para salvaguarda da segurança energética da Europa. O mercado de M&A é também vulnerável ao contexto económico e político internacional pelo que, o conflito da Ucrânia consolidou de forma irreversível esta tendência.

Por último, vale a pena refletir igualmente sobre a oferta de serviços associados às operações de M&A, nomeadamente os jurídicos. Qual o perfil de advogado que se impõe? Que resposta pretendem os Clientes na componente jurídica?

As operações de M&A exigem assessorias cada vez mais eficientes da parte dos advogados. Estes têm de saber enquadrar várias dimensões na resposta aos clientes. Quanto maior a sofisticação do investidor – e é cada vez mais sofisticado – menos espaço existe para oferta de soluções pouco inovadoras.

Exige-se igualmente – e como nunca no passado – a incorporação de tecnologia onde o trabalho o permite. A concentração do esforço das equipas deve ser na componente complexa das operações e na capacidade de negociação e concretização dos objetivos dos clientes.

São necessárias equipas fortes, detentoras do set certo de competências que vão além do conhecimento jurídico exemplar. Equipas que sejam capazes de viver numa cultura de permanente partilha de conhecimento que lhes permita estar sempre à frente na curva da aprendizagem.

Vejo também como crítica a capacidade de falar a língua do cliente em todos os sentidos e não só no linguístico. É necessário alinhamento total com os objetivos dos clientes e isto é cada vez mais central.

É necessária uma comunicação simples (não simplista). Parecendo elementar, a comunicação simples não é algo frequente em advogados. No entanto, os clientes exigem-nos isso cada vez mais. Querem sobretudo que lhes entreguemos soluções jurídicas claras e adaptadas aos seus desafios concretos e grau de risco que estão dispostos a correr. De preferência, soluções também à prova de crise(s).

  • Bárbara Godinho Correia
  • Sócia de Corporate M&A da PLMJ

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