Merkel por mais quatro anos

  • Filipe Vasconcelos Romão
  • 22 Setembro 2017

Se pensarmos na perspectiva de um eleitor alemão, olharmos para os indicadores económicos e para a forma como a Alemanha acumulou poder no quadro europeu, é compreensível a sua previsível vitória.

No início do ano, num momento em que vivíamos projecções apocalípticas a propósito dos destinos da Europa, ninguém arriscaria prever um Setembro tão calmo para Angela Merkel. O referendo que ditou a saída do Reino Unido da União Europeia e a eleição de Donald Trump, no ano passado, faziam temer o pior e alentavam os sonhos da extrema-direita em França e na Holanda. Na Alemanha, a chegada ao poder do neo-fascismo nunca foi uma possibilidade real, mas o efeito “bola de neve” de uma (não verificada) hecatombe em França teria sido imprevisível e poderia ter aumentado em muito as perspectivas de um bom resultado da cada vez mais radicalizada Alternativa Alemã.

Merkel talvez seja mesmo o último exemplo de um político de outra geração. Quando chegou a chanceler, o veterano Jacques Chirac era o Presidente francês e Tony Blair primeiro-ministro do Reino Unido. Pelo que sabemos da sua ascensão ao poder, e ao contrário do que muito se escreveu depois, a chanceler não tinha qualquer projecto de expansão do poderio do seu país na Europa. Viviam-se tempos de alguma estabilidade e de superação de uma primeira vaga de problemas orçamentais em alguns países. No entanto, a crise económica e, sobretudo, a crise das dívidas soberanas veio alterar os pressupostos da política europeia e colocar sobre os ombros de Merkel um poder desmesurado.

Numa Europa onde, por agora, os “canhões” contam bem menos do que a robustez das finanças públicas e do que a pujança industrial, a permanente crise francesa fez o resto, diluindo, em termos práticos, o eixo franco-alemão. Angela Merkel ficou sozinha a coordenar (ou a governar) uma zona euro a braços com uma série de países à beira da ruptura financeira. Um quadro politicamente inesperado e juridicamente não previsto em nenhum tratado permitiu que a economia mais poderosa da união monetária improvisasse, criando regras para solucionar crises e aplicando-as com amplo grau discricionário. Os países endividados, cilindrados pelos implacáveis e incontroláveis mercados, não tiveram mais remédio que não subordinar-se e assumir a correspondente cedência de soberania. A União Europeia não voltou a ser a mesma.

Porém, Merkel também sofreu alguns revezes. Para lá das fronteiras europeias, o poder alemão continua a ser muito limitado, sobretudo fora da órbita económica e comercial. A Europa, apesar da estagnação, das crises financeiras, dos refugiados e dos extremismos continua a ser um espaço muito peculiar. Quando alargamos o campo de visão para outras áreas, as lógicas políticas tradicionais e realistas continuam a ter um peso muito relevante. E isso é demonstrado pela margem de actuação limitada que a Alemanha tem em relação aos principais conflitos mundiais (Médio Oriente, Norte de África, Coreia). O facto de continuar sem assento permanente num Conselho de Segurança das Nações Unidas, que conta com o Reino Unido e França, demonstra como a força económica ainda não se reflecte na política internacional em estado puro. A eleição do último secretário-geral da ONU foi reveladora desta fragilidade, com Merkel a tentar evitar até ao último instante evitar a eleição do português António Guterres.

Se pensarmos na perspectiva de um eleitor alemão, olharmos para os indicadores económicos do país e observarmos a forma como a Alemanha acumulou poder no quadro europeu nos últimos anos, não será difícil compreender as razões da sua previsível vitória, a quarta em doze anos. A maioria absoluta de um só partido, em linha com a tradição alemã, estará descartada, pelo que nos restará sobretudo saber se haverá uma renovação da grande coligação entre democratas-cristãos e sociais-democratas ou se os liberais do FDP voltarão à primeira linha da política com um resultado que lhes permita conformar uma maioria estável com o partido de Merkel. Também será importante verificar se se confirma um péssimo resultado do SPD e, não menos importante, qual o resultado da extrema-direita (Alternativa Alemã) e a dimensão, em número do deputados, do seu desembarque no Bundestag.

Quanto ao Governo de Merkel não é preciso ser adivinho para apostar que a sua qualidade mais apreciada pelos mercados, a previsibilidade, continuará a marcar a agenda. Ou seja, nada de (muito) novo virá dos lados de Berlim.

O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

  • Filipe Vasconcelos Romão
  • Presidente da Câmara de Comércio Portugal – Atlântico Sul e professor universitário

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